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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em times opostos: quando foi que pessoas idosas e jovens se afastaram?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

13/12/2021 04h00

Era final da Libertadores. De um lado, o Flamengo, sempre candidato ao título. De outro, o Palmeiras, com um elenco bem completo. Simbolizando essa "rivalidade", duas casas vizinhas torciam, cada uma para um time. Uma dessas casas estava lotada, com moradores e pessoas convidadas. Eram pais, mães, filhos, primos e tias, todos juntos ali na torcida. Olhos tensos, voz que ora sai, ora não. A cerveja esquentava na mão de quem, de tão tenso, esquecia de bebê-la. Mas o clima era de alegria! O encontro fazia parte de uma festa familiar que acabaria em comida e risadas, não importasse o placar.

E, na casa ao lado, uma pessoa assistia sozinha. Ela queria estar junto da sua torcida rubro-negra, mas não era possível. Sua torcida estava no mundo virtual. Seu grito ninguém ouvia. Ainda assim, ela ousava em continuar torcendo. E assim será por muitos anos seguidos da sua vida. Há um parceiro que ela gostaria muito que estivesse ali do seu lado.

Ela aprendeu a gostar de futebol não se sabe exatamente quando. Enquanto morava com o seu pai, ex-jogador, não era tão "entendida" do assunto. Talvez a psicanálise ou a psicologia saibam explicar o motivo de agora ela ser uma adolescente apaixonada por esse esporte.

Mas o fato mais marcante é que agora filha e pai gostam de futebol. Poderiam estar juntos, no mesmo espaço, torcendo, rindo, gritando, brincando um com o outro, bebendo seu refrigerante ou a sua cerveja. Ele, palmeirense, ela, flamenguista. E, ao final, perceber que aquela situação poderia aproximá-los ainda mais. Nossas memórias adoram bons adornos e deliciosas lembranças, não é?

A distância entre os dois só aumenta a cada ano. Encontros e piadas sobre a possível superioridade de um time em relação ao outro estão cada vez mais escassos. São filhas e pais se afastando, destruindo possibilidades de um bom convívio intergeracional e abrindo possibilidades de vulnerabilidades para quem não percebeu que um dia iria ser uma pessoa idosa.

Na outra situação, um casal vivia muito bem. Talvez fosse um casal perfeito. Muita cumplicidade e desejo de aproveitar a vida. Optaram em não ter filhos, em não investir em uma rede grande de amizade. Quiseram as doenças não bem controladas ou outras carências do ser humano que o marido partisse mais cedo. E tudo isso somado as brigas, conflitos com familiares e discussões por heranças fizeram o casal se afastar de toda a família e criar esse cenário irreal de felicidade plena.

Nas duas situações, os anos passaram ou passarão muito rapidamente e a questão que passa a existir é: quem cuidará daquele pai e quem cuidará daquela viúva?

Pais jovens e filhos adolescentes serão, logo em breve, pais velhos e filhos adultos. Casais jovens logo poderão ser representados por apenas uma dessas pessoas ainda viva. E quem ficará junto para ajudar desde as tarefas mais simples até as mais complexas?

Segundo o artigo 230 da Constituição Federal do Brasil e o artigo 3º do Estatuto do Idoso, fica sob a responsabilidade da família, da sociedade ou do Estado o cuidar de quem envelheceu e hoje é uma pessoa idosa, além da garantia para que viva plenamente sua cidadania.

Mas se essa pessoa idosa não fez um investimento de tempo, de afeto, de companheirismo, de abdicação de seus prazeres ou compromissos para estar junto de alguma pessoa que hoje poderia lhe prestar algum tipo de ajuda ou companhia? Como, de uma hora para outra, passar a cobrar de um ente familiar a responsabilidade por cuidar de quem nunca cuidou dela ou de qualquer outra?

E o amor deve prevalecer acima de qualquer situação ou sentimento, certo? Penso que nem sempre. E isso não pode ficar alocado em qualquer argumentação religiosa. Amar envolve tantos pré-requisitos ou atividades que torna difícil esquecer ou superar as ausências de quem hoje envelheceu e que, na sua juventude ou fase adulta, jamais fez esforço ou ajustes na vida cotidiana para estar presente ou gerar bons afetos a quem sempre o quis bem, quem desejava sua companhia, seu colo, seu abraço ou o seu beijo.

Há também afastamentos decorrentes das condições e padrões gerados ou alimentados pelo Estado ou sociedade. Desempregos, maus empregos, falta de cuidado integral à saúde mental, machismo, racismo, etarismo, capacitismo e muitas outros que, direta ou indiretamente, colocaram aquela pessoa, ainda não velha, longe de familiares e amigos por muitas décadas.

Com as políticas ou programas assistenciais vigentes, profissionais da assistência social procuram operar "costuras" em laços rompidos, "lavar" as desavenças presentes entre duas ou mais pessoas ou entre duas ou mais famílias. Há também membros das mais diversas religiões que tentam retomar um vínculo entre duas ou mais pessoas, a partir de trechos de livros ou ensinamentos religiosos. E tudo isso, nem sempre funciona.

Fica para profissionais da saúde mental a responsabilidade ou tentativa de garantir boas sensações nas decisões tomadas ou não, nos comportamentos antigos e novos, nas reflexões sobre o "eu" e o "nós". Sempre há dores, angústias, mal-entendidos, traumas envolvidos nessas não relações entre pessoas velhas e não velhas.

A solidão já é um sério problema de saúde pública para o qual ainda não temos ações efetivas e presentes em todo o território nacional para atender as milhares de pessoas idosas. Mas esse cenário pode ficar mais complexo e de difícil solução quando se descobre que pessoas estão solitárias porque ninguém as quer por perto ou quem está sozinha não quer outra sequer lembrando o seu nome.

Já disse outras vezes de que não sou das pessoas mais otimistas para um novo normal melhor. Nossa sociedade pratica pouco da empatia, a meu ver. Nossas políticas estão em sentido contrário à evolução, já que muitos políticos estão, sistematicamente, as destruindo ou as desfazendo em pleno cenário catastrófico de pandemia. Famílias ou grupos sociais milionários ou bilionários pouco se importando com a miséria de milhares de pessoas expostas às mais diversas e injustas vulnerabilidades.

Por tudo isso, precisamos de uma maior participação e protagonismo do Estado para a criação de instituições, profissionais e redes capazes de garantir o bem-estar dessas pessoas idosas que estão sozinhas, não importando o motivo.

À sociedade, pensar em práticas que garantam territórios com uma cultura de paz, de geração de redes de apoio e de proteção. Não se está negociando amor ou empatia, estamos, sim, pensando em um mundo melhor, que respeite as escolhas e compreenda as trajetórias de vida de cada cidadão ou cidadã. Até lá, enquanto não ampliamos nosso olhar para entender o outro, que façamos valer as leis, os direitos e o bom senso.