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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Eu sou uma pessoa idosa, não velha!' E agora, quem explica?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

01/11/2021 04h00

Nessas últimas semanas, dois lindos documentários sobre pessoas idosas foram exibidos. Um deles foi um especial exibido em TV aberta, apresentado pela reconhecida e talentosa atriz Zezé Motta. Foram histórias lindas que trouxeram em mim a comoção de quem se emociona diante da riqueza das velhices.

Houve a história de uma mulher que ainda nada no rio juntamente com seus netos e ainda realiza mil e uma atividades. Outra foi de uma idosa que ainda faz faxinas fora de casa e isso não a impediu de ganhar um concurso de modelo, daqueles que consideram a exibição do seu corpo e da presença do carisma.

A outra velhice foi de uma senhora que suportou um momento difícil da vida, quando o marido bebia muito. Conseguiu criar filhas e filho e, sem dar sinal de desânimo, ainda se reinventou nas suas atividades de trabalho. Não fugiu da estatística e hoje também cuida da sogra.

E outra história foi a de um pai que, diante de tantas adversidades e dificuldades impostas pela vida, ficou emocionado (e eu demais enquanto assistia) ao ver a filha que nunca tinha encontrado pessoalmente. E um outro momento, foi apresentado um senhor que vivia em uma instituição de longa permanência para idosos (ILPI), mas que esbanjava bom humor e disposição.

Ainda que se perceba todo o cuidado da produção desse especial da TV em retratar todas e todos da melhor forma possível, é difícil não ouvir um pouco do sofrimento vivido, porque nessas velhices há muitos problemas sociais presentes. Quem assistiu, talvez não conseguiu perceber as noites sem dormir por alguém que saiu, dizendo que voltaria logo, e não voltou no mesmo dia.

Ou das patroas que, muitas vezes, ofenderam consciente ou inconscientemente quem as ajudava nos cuidados da sua casa, que ficou tantas festas de final ano distante da sua própria família para preparar um prato favorito da filha ou do filho do patrão. Essas mulheres ficaram sem os abraços e beijos de filhas e netas nos dias de Natal ou de Ano-Novo, mas garantiram o material escolar para o ano que estava por começar.

O documentário "Prateados - A vida em tempos de madureza", de Valmir Moratelli e Libário Nogueira, é muito sensível ao abordar como a chegada aos 60 anos é repleta de boas e não tão boas surpresas. Esta obra retrata propósito de vida, como a do senhor que ainda pinta quadros maravilhosos e demonstra afeto a quem faz o mesmo por ele. Aborda a liberdade de uma senhora que ainda não deixa de ter ao lado seu copo de cerveja e de celebrar a vida.

Fala da importância da sexualidade e do sexo, dos prazeres dos amores, tanto os proibidos ou permitidos, da valorização das práticas orientais, do trabalho para adiar a morte e da sabedoria para cultivar bons relacionamentos.

Ao mesmo tempo, mostra a necessidade de cuidados específicos com uma doença, a vontade de estar com boa aparência e cuidar da alma com amor, o medo da rejeição de um abraço, a dificuldade de viver e conviver, o riso que salva, o ter que sair na "porrada com a morte" ou a barreira para vencê-la. São depoimentos potentes de pessoas que souberam chegar até aqui e que passaram por outras fases do nosso ciclo de vida para vivenciar essa fase que ocorre depois da fase adulta. Há também nesse documentário um enaltecimento da cultura, como o Carnaval, e do quanto essa é capaz de contribuir para o bom envelhecimento de todas e todos.

Mas um fato recorrente nas falas da maioria de quem participou dessas duas atuais obras que abordam pessoas idosas e o envelhecimento me chamou a atenção: por que ainda é necessário que elas procurem afirmar que são idosas e não velhas?

Direta ou indiretamente, muitas das pessoas que protagonizaram as cenas rejeitam ser chamadas de velhas e preferem termos como idosa ou jovem com muita experiência e por aí vão os outros termos. Entende-se aqui uma das razões: o termo velho é ainda muito carregado de conotações negativas, depreciativas e, quando se trata de vidas humanas, carrega uma percepção de que a finitude está próxima.

Grupo de idosos, velhos, velhas, idosas - iStock - iStock
Imagem: iStock

O idadismo (ou etarismo), que é a discriminação por quem é velho ou criança, é motivo de luta de muitos movimentos nacionais e internacionais. Recentemente, tivemos o Movimento #velhicenãoédoença que procurou pressionar a OMS (Organização Mundial de Saúde) a não considerar essa fase da vida como algo patológico e passível de intervenções dos mais diversos profissionais.

O que se lê por trás disso tudo é que ser velho é algo que precisa ser evitado, curado, amenizado e abordado com intervenções cirúrgicas ou medicamentosas para fugir, ainda que esteticamente, de características que mostrem organismos e sistemas envelhecidos, como a pele, a voz, o sistema musculoesquelético e o visual.

Da mesma forma que infâncias são sempre criticadas por envolver o protagonismo de pessoas que, na perspectiva atual de que vale mais quem consome e que pode produzir bastante, não são essas pessoas abaixo de dez, oito, cinco ou três anos potenciais atores para a manutenção do sistema.

Velhas e velhos ficaram fora desse "jogo econômico brutal e quase que desumano" por muitas décadas, mas o aumento da longevidade faz com que precisem ser incluídos, de um jeito respeitoso e humanizado, ou de forma fria e sem uma preparação adequada.

Dessa vez, os dois documentários apresentaram como pessoas velhas lidam mal com uma imposição da sociedade que tenta ditar como pessoas não adultas precisam ser. Ambos os documentários valorizam o envelhecer e procuram ouvir isso das pessoas e criam uma narrativa positiva, que faz bem e ajuda na redução dessa discriminação que ainda se espalha no nosso país.

É o momento de abordar o quanto dessa discriminação é absorvida pela pessoa que envelhece e, desta forma, passa a rejeitar o velho ou a velha que existe naquele corpo não jovem, não adulto, não infantil e que jamais deveria ser infantilizado. Detesto termos "inhos", sabe? Velhinhos, velhinhas! Ninguém diz "adultinhas, adultinhos ou infantilzinhos ou infantilzinhas"!

A sociedade reforça que é importante manter "a nossa criança" viva dentro da gente, no sentido positivo para abertura a experiências ou aprendizagens, a ter menos rigidez, menos seriedade e buscar pela leveza e o sorriso fácil.

E por que não se fala na chegada "do velho" dentro de nós? E da positividade que isso possa surgir e dar mais significado para continuar a querer viver?

Há um corpo estranho em cada fase da nossa vida. Quando crianças, estamos aprendendo um pouco sobre esse corpo mas, de repente, passamos para a adolescência que, da mesma forma, muda rapidamente, ainda enquanto estamos aprendendo como esse corpo funciona, até chegarmos na velhice.

E, diante das décadas de anos acrescidos à vida de muita gente, é estranho o quanto se busca rejeitar esse corpo, esse novo funcionamento. Quem envelheceu já passou por diversos momentos de adaptações com um "novo corpo", um novo funcionamento fisiológico, psicológico e psíquico.

Mas essa construção da identidade da pessoa velha é muito afetada e exposta ao que se ouve falar que, de tão repetitivo e convincente, acaba fazendo parte do pensamento da própria pessoa idosa que, ainda adulta, já falava isso de outras pessoas já velhas e não percebeu que ela seria a prisioneira das próprias impressões e construções sociais negativas que fez e agora estranha seu corpo e pensamento que é pouco aceito pela sociedade.

O cuidado para evitar adoecimentos passa a ser mais necessário na velhice, mas isso não é sentido de que não se pode viver a saúde e o bem-estar. Tanto o especial quanto o documentário buscam apontar que pessoas sempre existiram naqueles corpos agora envelhecidos.

Sonhos e possibilidades ocorrem durante toda uma vida, seja quando criança, jovem, adulto ou na velhice. Infelizmente, foram tantos pensadores, aqui falo mais de homens, que registraram o lado negativo ou refletiram mais nas perdas das décadas de quem hoje é uma pessoa velha.

A construção desse olhar que a sociedade tem de velhas e velhos parece não aceitar essa fase que antecede a morte e, com isso, passa a não querer estar nela, como que aceitando um fim que se aproxima. Foi uma dura e triste constatação quando a média de anos vividos não chegava aos 50 anos, mas que mudou para grande parte de quem reside no Brasil e em outros países com proporções expressivas de velhas e velhos constituindo a sua população e que estão para chegar aos 80, talvez 90 anos nas próximas décadas.

Velhas e velhos precisam ver plenamente e integralmente suas velhices e não aquela que foi criada e estereotipada por discriminações que os afetam internamente!

Se assumir idoso ou idosa parece ser uma estratégia para a mitigação do idadismo, que também guarda um pouco de semelhança quando, na intenção de dizer que não foi uma boa atitude assumida diante de uma situação, dizemos que a pessoa foi "infantil demais". E, contrariamente, quando se quer valorizar a ação tomada, foi uma atitude "madura".

Sejam as velhas e idosas, sejam os idosos e velhos, ambos precisam se encontrar e se identificar na mesma pessoa. Esse é um desafio enorme que precisamos encarar o quanto antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL