PUBLICIDADE

Topo

Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sequelas sociais da covid marcarão idosas e idosos brasileiros para sempre

Getty Images
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

25/10/2021 04h00

Ainda não podemos soltar o grito preso em nossas gargantas e dizer que a pandemia acabou. Mas com o avanço da aplicação da dose de reforço, popularmente conhecida como terceira dose, muitas pessoas idosas começam a respirar um pouco melhor e também a fazer um dimensionamento do estrago e das sequelas que a pandemia deixará em suas vidas e nos seus lares.

Não serei o primeiro a comentar da tamanha incompetência da maioria dos nossos políticos e de gestores no manejo das intervenções para a redução de casos e mortes injustas por covid-19 em território brasileiro. Foram produzidas milhares de mortes e sofrimentos sem a menor necessidade.

Ao invés de respostas baseadas nos conhecimentos científicos e na comunicação adequada sobre o cenário epidemiológico e para oferecimento de condolências pelas mortes ocorridas, tivemos muitas iatrogenias, discursos de ódio, de "Não tô nem aí com o povo" e proliferação das fake news praticadas por quem deveria nos proteger.

Chega o momento de olhar as sequelas deixadas na vida de muitas pessoas idosas. Há feridas sociais que demorarão para fechar ou que jamais deixarão de machucar corações e mentes marcadas por mais um trauma social que aniquilou sonhos e expectativas de uma vida melhor e alegre para muitas famílias.

Muitas pessoas idosas agora vivem mais sozinhas, seja pela ausência do cônjuge, de uma filha ou filho mais velho e de algum neto ou neta. Além do enorme sentimento de tristeza em relação a alguém que se foi, também há redução da renda familiar, aumento do risco da insegurança alimentar, menos comida aquecida por um botijão de gás, acúmulo de aluguéis atrasados, ausência de alguém para acompanhar nas consultas médicas ou garantir a proteção contra a violência doméstica que agora será praticada sem ninguém para evitá-la.

A morte de uma pessoa idosa que era detentora da maior renda da casa, o arrimo, deixará suas gerações sem acesso ao mundo digital e, consequentemente, com menos chances de fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e ingressar na universidade, ou de possibilitar que filhas e filhos encontrem um emprego e, com isso, obrigando netas e netos a saírem da escola ou ingressarem ainda mais precocemente no mercado de trabalho, com uma qualificação inadequada para os bons salários, que não são muitos e não são para todas as pessoas. Não foi essa a herança que idosos e idosas pensaram em deixar para seus descendentes.

E os convívios intergeracionais perdidos para sempre? A avó morreu e a neta, recém-nascida durante a pandemia, não conseguiu ser segurada por uma das pessoas que mais a aguardava. Há netos que deixaram de ter a companhia de avós nos momentos em que seus pais estarão no trabalho. O adolescente poderá ser vítima fácil para uso de drogas, reprovações e evasão escolar. Posso estar exagerando? Talvez não.

A economia não podia parar, juravam ministros e um presidente deste país. Mas o que estamos vendo? Milhões de pessoas sem emprego, milhares desalentadas e agora, com a morte ou adoecimento de uma pessoa idosa que trabalhava antes da pandemia, a situação piorou drasticamente. Festas de aniversário não serão as mesmas este ano e no outro também.

Churrascos não ocorrerão como antes, e o motivo não será a necessidade do distanciamento social. Falo aqui dos milhões de reais que deixaram de circular. O dólar subiu, a gasolina subiu e quem ganhou com isso não foi a maior parte da população. Parece que pessoas negacionistas e sem empatia não conseguem entender isso.

Estamos vivenciando pessoas idosas pegando as sobras de dentro de caminhões recolhedores de lixo, em municípios como Fortaleza, fato registrado e que considero uma das piores cenas de ano e talvez do que se vê e sente durante a pandemia.

O nosso novo normal é pior que o mais terrível dos filmes de terror! Nenhuma equipe de roteiristas seria capaz de criar uma sequência sem fim de atos cruéis contra velhos e velhas.

idoso de máscara - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Vale relembrar que, pelo que se vê nas redes sociais, muitos políticos vão bem, saudáveis e sem vacinação (é o que dizem, mas já não acredito). Um desses, talvez o líder dos crimes, ostentou a carne do churrasco que ultrapassava mil reais o quilo. Fez esse churrasco em pleno Dias das Mães.

E muitas velhas mães não tinham o que dar para comer para seus entes mais novos. Isso foi a representação da despreocupação com os direitos humanos. Ficará uma disfunção social, gerando só um pouco de cidadania, um só gole de vida ou de respirações saudáveis, mas nada completo, tudo inconcluso, imperfeito, injusto e imoral.

Outubro de 2021, muitos idosos e idosas não têm como escolher o que comer para manter diabetes ou hipertensão arterial sob controle. A atividade física é a competição pela tentativa de olhar o saco de lixo primeiro e escolher a melhor sobra, o melhor resto de comida.

Essa aprendizagem ao longo da vida é novidade e não faz parte do plano escrito das políticas públicas para o envelhecimento ativo do governo vigente. Na prática, sim, são governantes que legitimam esse hábito horrendo de não oferecer comida saudável e outras práticas salutares para todo mundo. Estimulam a competição, a neo e falsa união democrática. Apontam armas invisíveis e conseguem matar de verdade. E isso não são efeitos criados nos estúdios cinematográficos.

Muitos propósitos de vida foram aniquilados, dizimados na vida de pessoas idosas. O roteiro de viagem já programado, a disponibilidade e motivação para fazer um trabalho voluntário, a reforma da casa tão esperada, o dinheiro para comprar um pedaço de terra na sua cidade natal, o dinheiro para ajudar na graduação do primeiro ente familiar. Tudo isso deixou de ter importância e possibilidades de concretização a partir das chagas deixadas pela pandemia.

A discriminação contra as pessoas idosas também piorou. Em tempos de pandemia, o agressor passou a ficar mais tempo agredindo e planejando formas de ocultar violências. É sangue, ódio, palavras ofensivas, gestos obscenos direcionados a essas pessoas.

idoso; máscara; mercado - iStock - iStock
Imagem: iStock

Avôs, avós, pais e mães mais velhos tentam diariamente esquecer o que aconteceu naqueles meses de maior confinamento. Não dá mais. Todo aquele sofrimento ficará tatuado para sempre em seus corpos ou relembrado por um sintoma psicossomático que, só de ouvir o barulho do portão, anunciando que a pessoa agressora chegou, desencadeia uma série de hormônios e de terríveis lembranças.

E aquelas pessoas idosas já invisibilizadas antes mesmo de a pandemia acontecer? Idosos e idosas em situação de rua, privadas de liberdade, estrangeiras de pele mais escura ou que estão doentes e morando sozinhas?

Qual a proteção social que receberão para continuar em um mundo onde os preços aumentam quase que semanalmente e não se sabe de plano para oferta de empregos para quem tem mais de 60 anos ou não se fala de ações governamentais para proteção de quem está ainda mais vulnerável?

Um novo Brasil para quem tem ou terá 60 anos não será tão bom quanto deveria ser. Podemos mudar essa parte da nossa história, mas do jeito que a estamos escrevendo, cada um a sua parte, sem consultar o parágrafo ou frase anterior, sem honrar quem fez a introdução e parte do desenvolvimento do nosso país, que são os nossos e as nossas mais velhas, caminhamos para um final infeliz e que poderá adoecer e matar ainda mais gente, seja idosa ou não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL