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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem envelheceu ainda tem um propósito para chamar de seu?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

18/10/2021 04h00

Quando se pensa no bom envelhecimento há certezas muito reforçadas pelas evidências científicas, ainda que durem até o final deste ano:

- Boa alimentação (sem exagero);

- Atividade física (praticada de forma moderada ou intensa);

- Trabalho (que seja voluntário, preferencialmente);

- Sono (dormir bem e em um lugar que traga prazer e descanso para o corpo e para a mente);

- Meditação (aqui ampliando para uma boa espiritualidade);

- Propósito de vida. E é esse último que quero abordar um pouco mais hoje.

Todos temos algum propósito de vida? Será que ele muda ao longo da nossa vida? Quem envelheceu ainda tem um propósito para chamar de seu?

Quando crianças que vivem suas infâncias e não precocemente uma vida adulta, repleta de trabalhos e obrigações, o propósito é brincar a todo instante. Ter uma boa amizade, preferencialmente com quem tem o mesmo propósito, torna essa fase da vida ainda melhor. O gostoso é, ao final do dia, "capotar de sono" de tanto brincar. Esquece-se de comer, porque a meta é brincar, porque brincar não tem hora.

Depois, já adolescente, um dos propósitos é mostrar que já não se é criança, que dá para pensar em outras coisas, se identificar com algum grupo, ainda que a convivência dure um verão. Os sonhos mudaram. Já se começa a pensar o que pode ser essa tal de fase adulta e nas paixões e o quanto elas mexem com nossas cabeças e corpos, borbulhantes de hormônios e desejos.

Quando adultas e adultos já se percebe que propósito tem versões que são influenciadas por gênero, classe social, cor da pele e renda. Aqui, nota-se a invasão de valores e tendências nunca antes pensados. Lucro, reconhecimento profissional, pensamento na aposentadoria, mais especificamente, na melhor forma de investimento, se ter ou não filhos —e olha que muitas e muitos colocam até isso na planilha de custos!

Os propósitos aqui variam muito e, infelizmente, tenho a impressão de que a maioria se perde na diferenciação entre propósito, obrigação e imposição. Ter que fazer, ou possuir ou admirar, por quê?

E quando se chega na velhice, o que se percebe é que envelheceu bem quem nunca deixou de ter um propósito, algo que motivasse o despertar, o dormir mais cedo ou mais tarde, malhar ou meditar mais, querer aprender o que for necessário e interessante, criar novos vínculos e ampliar suas redes sociais, enfim, essa motivação que faz mudanças no nosso organismo, mente e espírito.

Mas não é tão simples ter ou manter um propósito em um país como o nosso que, constantemente, faz questão, e de forma muito mal-educada, de lembrar que aquela pessoa é velha e que é estranho pessoas idosas ainda terem algum propósito. Onde já se viu isso? Para que tanta ousadia? Será que essa velha ou velho ainda "bate" bem da cabeça?

Propósito é mais que uma motivação. Propósito precisa da motivação para ser assim chamado, mas envolve um comprometimento consigo mesmo ou mesma, envolve um olhar ampliado e refinado para um futuro próximo, sabendo que é dele que se construirá um futuro mais distante. É fazer um planejamento, ciente de que precisará de rearranjos e que tudo bem, esses não serão suficientes para mudar o que se quer.

Mas propósitos de vida precisam ultrapassar alguns obstáculos, principalmente aqueles que ficaram evidentes lá na fase adulta. Há fatalidades que precisamos considerar também. A morte que chega sem avisar, seja por meio de um acidente ou uma doença que se descobre tardiamente.

E para algumas velhas e velhos há chances desses obstáculos acontecerem com maior frequência, em função da discriminação pela idade ou por outras que se acumularam ao longo dos anos.

Há uma barreira socioeconômica, mantida principalmente pelo nosso sistema econômico vigente, que exige ou determina que um grupo trabalhe sem parar, sem poder pensar até mesmo se ainda faz sentido trabalhar daquela forma, com aquelas pessoas, para alcançar aqueles objetivos.

Por essa perspectiva, parece ser até proibido ter a ousadia em ser feliz com aquilo que se deseja. Outras barreiras são impostas por um corpo com incapacidades funcionais, doenças não bem tratadas ou ambientes que não ofertam conforto e acessibilidade.

Propósito de vida tem que arrancar um sorriso fácil na gente, ser como um hormônio do prazer! Uma bebida gelada que se toma naquele dia mais quente do ano! É algo que se contempla sozinho, na hora de dormir ou durante o caminho até um lugar qualquer.

A ciência já tem mostrado o quanto nosso engajamento em algo que gostamos, não algo que precisamos fazer em troca de dinheiro apenas, pode nos fazer bem. Daí podemos até cuidar melhor do corpo, porque não queremos deixar de reviver, de repetir aquilo que nos dá esse prazer, essa alegria interior.

Temo que muitas pessoas idosas morreram sem saber qual era exatamente o seu propósito de vida, outras morreram sabendo qual era, mas sem condições de chegar até ele. Situações extremamente precárias e violentas ou necessidades de sobrevivências são inimigas do propósito. Felizmente há outras pessoas idosas, essas vivas, com possibilidades de chegar até ele.

Num mundo onde não se vive sozinho, o propósito é o nosso momento de individualidade e é preciso que o respeitemos. Mas o quanto se carrega de "culpa", "não permissão" para sonhar com os nossos reais propósitos? Idosas e idosos são autorizados ou se sentem permitidos a ir em busca dos seus propósitos de vida? Não são compromissos da vida, nem imposições da vida, como cuidar da saúde e pagar as contas regularmente.

Propósitos de vida têm uma dimensão variada, não têm cor definida e não são escritos em um único idioma. Ah, e também não têm manual ou receita! O propósito é construído ao longo da vida, com a soma de experiências, com erros e muito com os acertos, com nossas afinidades, com o nosso autoconhecimento e com nossas aceitações sobre o que não dá para ser mudado.

E pode fazer um bem unicamente para quem o realiza, mas também pode alcançar outras pessoas, outros povos, outras gerações, já existentes ou não. Quem faz poesia, pinta um quadro ou já plantou uma árvore que vive mais de cem anos sabe bem disso.

Não vou terminar com qualquer recomendação ou sugestão. Quero finalizar torcendo para que você encontre o seu propósito de vida e que possa executá-lo o quanto antes e da melhor forma possível.

E que pessoas idosas possam ser capazes de fazer o mesmo! Nunca será tarde para que se encontre um propósito de vida para chamar de seu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL