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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma carta para Tim Maia: falando de masculinidade e envelhecimento

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Imagem: Divulgação
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

11/10/2021 04h00

Tim Maia, ou senhor Sebastião Rodrigues Maia, faria 79 anos no dia 28 de setembro. Para mim e para muitas pessoas, Tim Maia não morreu. Ele se eternizou pelas suas obras, pela sua presença, pela sua entrega e por todos os sentimentos expressados nas suas músicas e atitudes.

Há quem ouse olhar o outro lado, aquele que muitas e muitos possuem, mas sabem disfarçar muito bem. Ele nem isso fez questão. Foi autêntico, não foi produto comercial, garoto-propaganda ou imagem exemplar. Tim foi um dos seres humanos mais interessantes e inteligentes que já conheci.

Para ele escrevo uma carta, imaginando como seria o Brasil, e talvez o mundo, se ele, fisicamente, ainda pudesse estar entre nós:

"Caro Tim Maia, que minha intimidade com o senhor me permita chamá-lo assim. Sou Alexandre, filho do seu Sérgio e, nos churrascos familiares, foi ele quem me apresentou toda a sua obra. Depois, fui me aprofundando e curtindo também outros churrascos, festas black, casamentos e tantos outros encontros ouvindo toda a sua obra. Incrível, sou um fã incondicional, que ficaria trêmulo se estivesse frente a frente com o senhor.

Uma carta dessa não dá para ser escrita dentro de um escritório, ou sobre uma mesa da sala ou da cozinha. Essa carta é escrita no quintal, com gente perto de mim e, lógico, ouvindo suas músicas que servem tanto como inspiração, mas também registro de como sua masculinidade ajudou, e ainda ajuda, a vida de tantas pessoas negras ou com uma identidade negra, ou com bom gosto para a MPB, Música Preta Brasileira. Seus versos e rimas retratam o quanto homens negros são sensíveis, carinhosos e atentos ao mundo que os cerca.

Sua música não enaltecia o falo, como parte da sociedade faz ao ver homens negros. Ao contrário, sua música inclui toda a corporeidade e espiritualidade afro-brasileira. Dessa forma, peço licença para usar trechos de suas músicas para mostrar essa masculinidade negra e, diante dessa expectativa de vida que aumenta entre todas as pessoas brasileiras, precisa ser conhecida, respeitada e muito bem compreendida. Os contextos irei fazer de acordo com minha vontade e intenção de construir uma narrativa da masculinidade negra e anciã, porque cada vez mais ela faz sentido.

Mas quem sofre sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar razão para viver / Ver na vida algum motivo pra sonhar / Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar. (Música: Azul da cor do mar. Composição: Tim Maia)

A determinação social de quem sofre ou de quem faz sofrer poderia estar descrita nesse refrão. Ter algum motivo para sonhar não depende somente da vontade própria, como muita gente diz que é. O senhor sabia que não era assim. Sofreu tantas injustiças e discriminações.

Talvez, nos dias de hoje, sofreria muitos cancelamentos, mas poderia também ter mais braços que quisessem ajudá-lo. Uma medicina que entende melhor os problemas que afetam mentalmente nossas vidas. Nos serviços públicos ou privados, alguém poderia ser capaz de ouvi-lo e acolhê-lo.

A razão para viver está no direito que todas e todos temos garantidos pela nossa democracia. O idoso Tim Maia não teve sequer o direito de existir. Morreu aos 55 anos, como muitos homens pretos e pardos ainda hoje morrem, injustamente ou por causas tratáveis e evitáveis.

Todo pranto sumiu / Um encanto surgiu / Meu amor / Você / É mais do que sei / É mais que pensei / É mais que esperava. (Música: Você. Composição: Tim Maia)

Como o amor sempre esteve presente na sua vida, senhor Tim Maia! E na vida de tantos homens também! Mas o machismo tenta disfarçar o amor que homens sentem por mulheres, por outros homens, pelas crianças, pelas pessoas mais velhas ou por qualquer outra pessoa.

Aí pode surgir a violência que machuca a pessoa agredida, sua família e o próprio agressor que, perdido, continua as agressões e isso pode ser transmitido, social e culturalmente, para outras gerações. Famílias machistas vivem se agredindo e se matando. Caro Tim, qual seria a música que o hoje o senhor faria denunciando esse machismo que tanto faz mal para nossa sociedade?

Se eu soubesse onde ela foi, iria atrás / Mas não sei mais nem direção / Várias noites que eu não durmo / Um segundo / Estou cansado / Magoado, exausto / Ei! E nunca mais voltou / Ela partiu, partiu / E nunca mais voltou / Ela sumiu, sumiu / E nunca mais voltou. (Música: Ela Partiu. Composição: Beto Cajueiro e Tim Maia)

E quantos homens sentem a dor, não a física, mas a emocional, a dor da partida de alguém, ou de quem não chegou, de quem mexeu com aquilo que era mais sagrado, ou de quem deixamos ir sem mostrar gestos ou emoções que se ficasse seria melhor para ambos.

A vida de muitos idosos é solitária porque foi difícil para ele mostrar que sentia saudades, remorso, arrependimento, amor, culpa e intenção de fazer diferente, de recomeçar. O homem que envelheceu tinha que se mostrar forte, valente, destemido. Daí que caiu na armadilha.

Sem família, às vezes com muitos filhos e filhas, não criou vínculos afetivos fortes ou não deixaram que ele os criasse. E agora vive esperando que alguém o entenda, sem que ele tenha estabelecido alguma forma de diálogo ou comunicação. Houve silêncio, ou violência, ou muitas horas de trabalho fora de casa. Muitas vezes, encontrava um bar no meio do caminho.

Não sei por que você se foi / Quantas saudades eu senti / E de tristezas vou viver / E aquele adeus não pude dar. (Música: Gostava tanto de você. Composição: Edson Trindade)

Talvez essa música sirva, nos dias de hoje, para retratar a perda injusta de alguém pela pandemia. Parte da história de nossas vidas é perdida quando alguém que amamos muito morre de forma inesperada. E essa morte pode, indevidamente, levar muitos homens ao uso em excesso da bebida alcoólica ou de outra droga de fácil acesso.

Muitos homens começam a beber à medida que as decepções surgem repetidamente nas suas vidas. Morte de filho, filha, neta ou neto deve ser uma dor sem qualquer tratamento ainda inventado.

Ora bolas, não me amole / Com esse papo, de emprego / Não está vendo, não estou nessa / O que eu quero? / Sossego, eu quero sossego. (Música: Sossego. Composição: Tim Maia)

E fala-se tanto sobre o ócio criativo, da importância do lazer, mas o que muitos homens tiveram sempre que fazer? Trabalhar e trabalhar. Há uma classe social no Brasil que sempre trabalhou, desde criança ou muito jovem. E quando envelheceu, ficou sem emprego e sem ter aprendido o ócio, o lazer.

Agora, não tem dinheiro para o lazer, o tempo que há é pouco aproveitado e algumas doenças ou incapacidade funcionais surgiram já no começo das suas velhices. Aí complica, o senhor não acha?

Meu filho a vida é isso aí / Se às vezes fico sério / E só pra ver você sorrir / Pra ver você sorrir / E corta o pão que dá pra dois / Pra dez, pra cem, pra mil / Eu corro o mundo atrás de quem / Fizer você chorar, você chorar. (Música: Pais e filhos. Composição: Arnaud Rodrigues e Piau)

A paternidade também esteve presente na sua obra. Essa canção, para mim, é uma das minhas favoritas! Emociona a mim e minha filha mais velha. Sua música ajudou na conexão afetiva de muitos pais, filhas e filhos, Tim.

Obrigado por essa sensibilidade e relato de um homem que aceita a paternidade e sabe que amar não é fácil, tem dias de lutas e fases de muitas batalhas. Mas um sorriso e um abraço sincero dessa criançada é fantástico, o senhor sempre achou isso, não foi?

Minha carta está virando um diário, caro Tim. Mas o que gostaria de deixar registrado é o quanto sua presença, na forma de ancestralidade, ainda está entre nós. O quanto muitos homens cantam sua música e conseguem expressar melhor os seus próprios sentimentos.

A masculinidade bem vivida salva, faz muitos homens, velhos ou não, ficarem menos doentes. A vida pode ser melhor vivida quando a trilha sonora nos ajuda a vivenciar o ser humano afetivo, emotivo e imperfeito que existe dentro de nós.

Por menos velhos machistas e que disfarçam uma masculinidade própria! Não precisamos de tantos padrões ou regras morais. Ainda há tempo de ser mais feliz a partir dessa autoaceitação.

Como professor doutor Sidnei Nogueira aponta, a imortalidade e a continuidade são um legado da ancestralidade, que não é esquecida e pode ser vivida diariamente. Cada música, cada homenagem ao senhor Tim nas redes sociais é um gesto que o mantém vivo entre nós.

Há ensinamento e transmissão de valores culturais quando pessoas ouvem sua música e aí a mágica da vida acontece: corpos dançam livremente, cada pessoa tem uma coreografia e vozes se unem para cantar com você, sejam as músicas gravadas em estúdio ou ao vivo. E tudo isso é incrível, dá força e alegria para a semana que se inicia! Velho Tim Maia, sua presença ainda emociona muitos homens, mulheres, pessoas LGBTQIA+, crianças, velhas, velhos e, quando reunidos, cantam suas músicas e fazem a energia da vida se potencializar.

Um abraço.

Alexandre da Silva

PS: Avise o senhor Reinaldo, eterno príncipe do pagode e do samba, que escreverei em breve para ele."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL