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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As perdas que vêm com o avançar da idade

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

13/09/2021 04h00

Recentemente uma campanha linda e repleta de emoções, realizada por uma indústria automobilística, retratou as sensações envolvidas na vida de pessoas idosas que não podiam mais dirigir. A equipe de publicidade conseguiu traduzir emoções presentes nesse não mais poder fazer algo que se gosta tanto.

Dirigir chega a ser um papel social tão importante para os nossos mais velhos e também para as mais velhas, pois sempre possibilitou estar próximo de pessoas queridas, ir ao trabalho, ao hospital, à maternidade, levar as crianças à escola, curtir as férias de final de ano e estar nos funerais.

E essa perda da capacidade de dirigir costuma ser gradativa. As renovações da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) vão ocorrendo em períodos de anos cada vez menores, alguns exames passam a ter mais importância, até que chega o dia do "não dá mais".

Ainda há aquelas pessoas idosas que são temerosas em ouvir esse "não dá mais" e não vão fazer a renovação, mas sabem também que não dirigirão mais. E pedir para outras pessoas as levarem de um lugar para outro é tão difícil, duro e constrangedor.

Lembro de certa vez, em uma concessionária de veículos, ouvir de duas mulheres que conversavam, uma vendedora e outra cliente, sobre o não desfrute do carro novo por parte do pai da cliente. Uma doença o acometeu e não houve tempo para que ele dirigisse. E eventos como esse são marcadores de que uma fase da vida está terminando e outra no seu início.

Essa nova situação é repleta de medos, inseguranças e expectativas. A chegada dos aplicativos que facilitam o transporte de pessoas é um acontecimento muito recente na vida de pessoas idosas e não permite a mesma sensação de ter o controle da direção de um automóvel.

Esses eventos que marcam fases da nossa vida trazem emoções diferentes. Talvez passar da infância para a adolescência tenha certas emoções diferentes se comparadas àquelas da juventude para a fase adulta. E da fase adulta para a velhice, talvez essas emoções tragam sentimentos associados a perda, incapacidade, luto, desistência e finitude.

Idoso ao volante, idoso dirigindo - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

E essa condição ou sensação de perda pode tornar-se um grande problema para pensarmos no reforço do estereótipo negativo sobre a velhice, garantindo imaginários para a discriminação contra a pessoa que envelhece. Algumas coisas velhas perdem sua importância, outras ficam inadequadas para um momento atual.

E há ainda nossas inabilidades sobre como lidar com o luto relacionado às mudanças de trabalho, de estilo de vida, de amizades e, principalmente, das pessoas que construíram a nossa história de vida e, fisicamente, podem já não estar conosco.

As perdas com um pouco mais da nossa percepção começam a ocorrer lá pelos nossos 40 anos de vida. É a força muscular diminuída para subir lances seguidos de escadas ou para segurar objetos mais pesados, é a dificuldade em trabalhar tantas horas intercaladas com poucas horas de sono, o cansaço que parece chegar cada vez mais cedo, as reações um pouco mais lentas e algumas dores que se tornam novas moradoras dos nossos corpos.

Podem ser de sobrenome Físicas, como aquelas dores do joelho e ombros, ou de sobrenome Emocionais, como aquelas que expressam a casa vazia ou a perda ou afastamento de uma pessoa muito querida.

A gerontologia até consegue, de certa forma, mensurar o tamanho dessas perdas. Economistas também conseguem dimensionar os impactos na vida e na sociedade, inclusive da perda da capacidade para o trabalho, mas só quem está perdendo algo sente o tamanho e o peso dessa provável ausência de algo ou de alguém.

E as pessoas que ainda não experimentaram grandes perdas e que seguem suas vidas, talvez não saibam como acolher essa velha pessoa que está perdendo algo. Seria o momento de fazer uma homenagem? De ficar do lado? De tomar a dianteira? De tentar uma reposição, o mais rápido possível? De propor uma viagem? Mas a capacidade de viajar pode estar sendo perdida. E aí?

O simbolismo para a chegada da velhice pode ser as inúmeras e quase que concomitantes perdas que afetam a vida de alguém que tem lá suas cinco, seis ou sete décadas de vida e, que por viver tanto, é bem provável que tenha muitas conquistas, capacidades e pessoas a perder. É uma alegria e, ao mesmo tempo, uma tristeza saber que se tem tanto e que se irá perder muito.

Perder o tempo pensando nas perdas pode ser a perda maior para pessoas idosas. E o mundo e todas e todos nós precisamos parar de ficar lembrando e enaltecendo todas as perdas na vida de um idoso ou idosa. Pensar no meio copo ainda cheio pode ser uma solução.

Pensar positivamente também. Não é fácil, já que o mundo com suas desigualdades, injustiças e tantas outras condições e situações desagradáveis impactaram e ainda impactam a vida de velhos e velhas, direta ou indiretamente, gerando perdas de expectativas.

Perdemos, enquanto sociedade, até um pouco do amor, da escuta e do tempo para que os espaços deixados pelas perdas sejam ocupados por novas conquistas.

Gosto de cenas simples da vida. Não sei se é uma solução para isso. Cenas de pessoas idosas podendo fazer suas atividades diárias sozinhas, ou com pouca ajuda ou no controle de todas as tecnologias que permitam que sigam exercendo sua autonomia.

Depois, que possam realizar suas vontades para além de suas casas. Pode ser a ida ao mercado, ao trabalho, uma visita ao trabalho de uma filha ou ao bar no final da tarde. E os planos, que possam ainda ser ousados: a viagem em duplas ou trios de pessoas velhas, o início de um curso de idiomas, o início dos treinos de basquete, o aprender a andar de bicicleta.

Perder para ganhar, é uma frase que já ouvi e não lembro onde e de quem, mas para esse texto parece fazer sentido citá-la. Ganhar oportunidades para fazer a vida ainda valer e ser desejada.

Autonomia e independência física continuam a ser condições necessárias para equilibrar perdas e conquistas durante a vida. É fácil? Já disse que não, mas é perda de tempo achar que não vale a pena tentar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL