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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Terceira dose, covid-19 e pessoas idosas: a sindemia continua

Rivaldo Gomes/Folhapress
Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

23/08/2021 04h00Atualizada em 23/08/2021 10h49

Estamos a caminho do mês de setembro e o que se observa é uma parte da população muito esperançosa de que o pior já passou, outra está na dúvida e outra muito receosa quanto o que ainda pode acontecer. Mas ainda estamos em sindemia, ou seja, além da pandemia, há outras coisas ruins acontecendo no nosso país e também fora dele, mas trazendo imediatas repercussões por aqui. São muitas as áreas afetadas e, na maioria delas, sofre muito quem é velho ou velha.

O termo sindemia (um neologismo que combina sinergia e pandemia) foi cunhado pelo antropólogo médico americano Merrill Singer na década de 1990 para explicar uma situação em que "duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam danos maiores do que a mera soma dessas duas doenças". A interação com o aspecto social é o que faz com que não seja apenas uma comorbidade.

A pandemia ainda dita o ritmo da nossa vida. Os noticiários, as conversas familiares e no trabalho ainda giram em torno do vírus. Vírus que até agora mostra sua capacidade de manter o mundo ainda em estado de alerta.

Os serviços de vigilância precisam ficar atentos quanto a novas variantes, como a delta, que podem trazer novas curvas de crescimento de casos e de óbitos. A epidemiologia continua o seu monitoramento nos municípios e estados, informando a população e os serviços de saúde, principalmente os hospitais.

Profissionais de saúde que, ao mesmo tempo que aprimoram o conhecimento e manejo da doença e dos seus desfechos clínicos, ainda estão cansados. E quando há oportunidades para o descanso, o tempo é insuficiente para uma reposição de forças e de esperanças.

A nova variante do vírus acomete mais netos, netas, filhos e filhas das pessoas idosas, o que retrata a sua alta capacidade de transmissão. E isso ocorre no mesmo momento em que as escolas voltam a funcionar. Agora temos toda a equipe escolar com uma ou duas doses já administradas, o que é bom. Mas não são somente profissionais da educação que voltam à rotina. Há uma cadeia de serviços e estabelecimentos comerciais que estão retomando um ritmo quase de pré-pandemia.

Há fatores fisiológicos que sustentam a recomendação da terceira dose para pessoas idosas, pois é frequente que o sistema imunológico diminua a sua competência com o passar dos anos, principalmente a partir dos 80 anos.

É necessário considerar a importância da boa alimentação, da boa e revigorante noite de sono e da prática de atividade física contribuindo para que velhos e velhas possam ainda ter um sistema imune ativo e atendendo às expectativas para o combate a vírus ou outros agentes externos.

Infelizmente, esses hábitos salutares não vêm ocorrendo na vida da maioria dessas pessoas, mesmo antes da pandemia chegar.

Muitas velhas e velhos perderam empregos que garantiam o seu próprio sustento ou da família intergeracional. Os números do desemprego são altíssimos nessa faixa etária e, com uma retomada tímida e incerta da economia, já se pode assinalar que esse é uma das sequelas sociais que a covid-19 trouxe: desemprego para idosos e idosas.

Como se não bastasse, nos bastidores desse cenário para o enfrentamento da covid-19, novas leis trabalhistas enfraqueceram os contratos entre empregadores e empregados e, na volta para esse novo normal, direitos trabalhistas quase que essenciais não existirão mais. Assim, a miséria e a fome poderão estar cada vez mais presentes nas vidas de quem reside em terras brasileiras.

No campo da violência contra idosos e idosas, muito pouco se fala de ações efetivas para a redução dos números de casos que, durante a pandemia, quintuplicaram. A casa tem sido o principal local das agressões. E outras violências ocorrem pelas perdas dos direitos, pelo não atendimento das novas demandas assistenciais e educacionais, pela não garantia da boa saúde. Veja que violência não se dá apenas por palavras ou contato físico.

Na aprendizagem ao longo da vida, tivemos uma altíssima oferta de cursos gratuitos no primeiro semestre do ano passado, quando achávamos que a pandemia não duraria tantos meses assim. Hoje, para quem tem pacote de dados, há muito material na internet.

A produção intelectual foi imensa, seja por necessidade dos problemas emergentes ou como forma de escapar, que fosse momentaneamente, dessa realidade. O outro problema é que muitas pessoas não estão com "cabeça" para realizar qualquer atividade de aprendizagem com propósito de crescimento profissional ou pessoal. Ainda há muitos idosos e idosas que precisam aprender a usar os celulares e notebooks para diminuir a sua exclusão digital.

E quanto a alimentação, a precariedade dela ou a sua ausência? Sim, falo do aumento dos preços do arroz, feijão, leite, da carne e do botijão de gás. Chegou-se ao ponto de pensar que a sobra das refeições das pessoas ricas pudesse ser uma ação chancelada pelos altos poderes da União!

Quaisquer duas sacolas de compras em um supermercado é todo um auxílio emergencial do mês que uma família recebe. A xepa, aquele momento final das feiras, já está virando um momento de luxo e prioridade para famílias que possuem pessoas idosas.

No campo da política, nunca se presenciou tamanho desrespeito aos direitos constitucionais. Tentaram lucro sobre lucro na compra das vacinas, isso para além das tantas negativas para a negociação das compras de doses, ainda no meio do ano passado.

Hoje, percebe-se a escolha pela estratégia de não preservação de vidas. Não há desculpas para planos de comprar doses a preços bem maiores de mercado, atrasos nas entregas e, consequentemente, maior exposição de pessoas ao adoecimento e morte.

Muitos políticos já não pensam na mitigação dos problemas atuais e já se preparam para as próximas eleições, o que é falta de compromisso com o seu eleitorado e também com os compromissos e responsabilidades dos cargos assumidos.

Trazendo um novo elemento para pensar a sindemia, agora estamos com um cenário mundial onde países que já oportunizaram vacinas para quase todas as faixas etárias, cogitam dar a terceira dose para pessoas idosas, mesmo não sendo um consenso científico até o momento.

Ao mesmo tempo, outros países ainda não aplicaram a segunda dose para seus mais velhos e velhas e outros ainda estão procurando doses para comprar e acelerar a imunização nos seus territórios. Segundo o professor doutor Deivison Nkoski, República do Congo e Haiti imunizaram precários 0,1% da sua população.

A sindemia trouxe novos dilemas éticos. Qual vida vale mais? De um jovem trabalhador? De uma criança? De um profissional de saúde? De uma pessoa idosa? A quantidade de doses que vão sendo disponibilizadas juntamente com o risco crescente para o contágio por novas variantes do coronavírus, ressalta a importância da resposta vinda das pesquisas científicas. Quem receberá as vacinas que estão chegando?

E no meio de interesses, necessidades e especulações é que a necessidade da terceira dose ganha força ou perde importância. Seria por interesse de empresas fabricantes? Cautela da ciência? Necessidade de vacinar todos primeiramente, seja no Brasil e no mundo? Comércio reaberto com força total ou com o que resta dela? Prudência para voltarmos, integralmente, daqui um tempo?

Para pesquisadoras e pesquisadores a terceira dose para a pessoa idosa pode trazer benefícios, como também chances para adoecer por situações até então consideradas como raras após as duas doses tomadas. Teriam os corpos envelhecidos resiliência ou tanta necessidade de mais doses?

É preciso entender que mortes, mesmo com o uso das vacinas, são esperadas, mas em uma quantidade muito inferior se as mesmas não fossem utilizadas. E, no caso de idosos e idosas, há de se considerar a presença de comorbidades sem um controle adequado nos últimos meses, com possibilidade de aumento da severidade de algumas dessas doenças, o que pode gerar mais mortes, infelizmente.

O nosso SUS (Sistema Único de Saúde), ainda que mostre toda sua competência, jogando tanto no campo na prevenção, da atenção primária, nas especialidades e nos hospitais, ainda é muito criticado e depreciado por pessoas que reforçam discursos e movimentos políticos para que não se aumente os investimentos e que a privatização seja a melhor salvação. Justo a população brasileira, uma das que sairá bem mais pobre do que entrou, depois que a pandemia passar!

Os conflitos raciais se acirram a cada dia, não importando a idade, o gênero, a classe ou local onde residem as pessoas negras. Fatos como os ocorridos em Gravataí, no passado e, o mais recente em Limeira, apontam que idadismo e racismo tem causado danos a muitas pessoas e familiares.

Muitos interesses ainda estão em jogo e, por esse motivo, não se pode desconsiderar que grupos ou instituições estejam interessadas nessa permanência de instabilidades, aumento de desigualdades e maior exposição a vulnerabilidades de segmentos específicos da sociedade, como pessoas idosas.

A sindemia não acabará no mesmo tempo da pandemia. O vírus poderá até parar de se autoconvidar para entrar nas nossas moradias, mas problemas sociais, econômicos e políticos perdurarão por muitos anos.

Ainda é necessária cautela para afirmar que a terceira dose seja essencial e urgente. Os efeitos colaterais decorrentes dessa dose adicional ainda não são conhecidos e talvez não existam.

No entanto, para o nosso país, sequelas e efeitos colaterais sociais é o que mais temos. Precisamos continuar a usar máscaras, álcool em gel e, sempre que possível, manter o isolamento ou distanciamento em espaço públicos e de pessoas que não estão completamente imunizadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL