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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma pluralidade de identidades: falando de avôs e avós

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

02/08/2021 04h00

Nessa semana comemorou-se o dia das avós e dos avôs. As redes sociais ficaram repletas de mensagens e fotos que demonstravam carinho, homenagens ou o reconhecimento de trajetórias de vida difíceis que tiveram que percorrer para, além de vencer na vida, constituírem suas famílias.

Tudo isso repleto de muita sinceridade e orgulho de quem as publica (e espero que não seja somente pela busca obcecada por likes). Mas precisamos apontar que existe uma diversidade de avós e avôs, de papéis desempenhados e atividades que realizam.

No mundo, desde 2019, o número de pessoas idosas com 65 anos ou mais já superou a quantidade de crianças de 0 a 4 anos. No Brasil não poderia ser diferente.

E isso quer dizer que, em muitos municípios, há mais braços querendo dar colo que crianças para recebê-lo. A oferta está maior que a demanda!

Assim como pais não precisam ser apenas aqueles biológicos, o mesmo ocorre quando netas e netos são adotados ou se convidam para estar com idosos e idosas que não foram, primeiramente, pais de seus pais.

Assim, uma vizinha pode virar avó ou o avô de um amigo pode se tornar o seu avô. Isto quer dizer que, demográfica e socialmente, há milhões de pessoas idosas que formam esse grupo de avós e avôs. E seu lugar no mundo ganha cada vez mais importância e protagonismo.

Por outro lado, temos avós cujas idades estão abaixo dos 35 anos e outras que se tornaram a partir dos 70 anos. As mudanças na idade da maternidade de filhas postergaram o ser avó ou avô de muita gente, trazendo consequências na forma como essas pessoas enxergam e exercem o seu papel.

Muitas poderão ter a experiência de, aos 50 ou 60 anos, conviver de forma bem diferente com netas ou bisnetos, pois aspectos físicos, cognitivos e psicológicos estarão influenciando essa condição.

O convívio intergeracional entre avós e netos, conhecido também como avosidade, tem diferentes apresentações e características. Se não idosos, aumenta a probabilidade de que o avô ou avó ainda estejam trabalhando, alguns estudando ou priorizando o seu tempo de vida pessoal e de oportunidades.

A visita a netos, netas, filhos e filhas poderá ter regularidades diversas. Em muitos casos, somente nos finais de semana, outras vezes, anualmente ou quando o dinheiro sobra para encher o tanque do carro ou para a compra de passagens aéreas nacionais ou internacionais.

Independentemente da quantidade de encontros, na equação da boa avosidade, pesa mais a afinidade ou o parentesco para a existência de um vínculo forte ou fraco?

Há vínculos baseados em convívios extremamente formais, muito na base de transmissão hierárquica de costumes e valores, ou seja, a mais velha ou mais velho ensina as pessoas mais novas. Essas podem gostar, outras não e acabam aprendendo somente o que tem significado para a sua geração, ou seja, o que faz sentido para o seu tempo e lugar.

Pode existir uma avosidade de transmissão de valores e costumes mais horizontalizados, desses que um avô aprende e valoriza o que a neta ensinou para ele, ou quando o neto quis aprender como fazer um prato que somente a avó conseguia fazer na família.

Muitos outros moram com bisnetas e tataranetos, em divisões de tarefas para os cuidados com esses, planejando atividades de lazer, fazendo os deveres escolares e até sendo os melhores confidentes de netas e netos adolescentes.

Avós podem ser grandes matriarcas, dessas que chefiam filhas, filhos, netas, bisnetos e até tataranetos. Tudo está sob seu controle, nada acontece sem a sua permissão. Pode existir uma seriedade exagerada, por vezes, mas intuito é de manter a família viva, unida e prosperando de alguma forma.

Outras avós, mais recentemente, assumiram-se como avôs e vice-versa, depois de muitos anos de dúvidas ou receios perante familiares e amigos. Talvez a liberdade trazida pela geração de netas e netos, que enxergam de forma menos preconceituosa a diversidade de gênero ou de orientação sexual, trouxe a coragem e o empurrão necessários para a busca por desejos que idosos e idosas tinham desde a sua juventude.

Há avós que fizeram uma boa herança para sua família e, ainda hoje, são o porto seguro para que seus familiares mais jovens estudem, ousem montar um novo negócio ou que não passem fome.

Outros avós largaram o vício depois que a neta mais nova nasceu, era a motivação que faltava ou a última possibilidade de mudar uma imagem negativa que toda a família construiu sobre ele.

Outras rezavam antes de serem avós, agora não mais e vice-versa. E aqui, aponto que o gênero pode definir atividades socialmente mais aceitas ou esperadas desse grupo social. E uma desconstrução dessa imagem precisa ser pensada não só para quem tornou-se vovô ou vovó, mas também como toda a sociedade os enxerga e quais estereótipos são positivos ou erroneamente adotados a respeito deles e delas.

Avôs com neto, idosos com criança - iStock - iStock
Imagem: iStock

Por outro lado, há avós e avôs, muitos desses viúvos, que já estão em maiores condições de vulnerabilidade ou de fragilidade. Estão aguardando, muitas vezes sem pedir, a visita ou ajuda de um familiar de quem já cuidou e que agora espera o retorno.

Nessa condição, quantos netos, netas, filhos e filhas respeitam a sua autonomia e mantém laços afetivos de seus avós com a rede de amigos ou da vizinhança da casa onde morava antes da instalação da dependência funcional?

Gosto de pensar também nos irmãos e irmãs de avós e avôs. Um tio ou uma tia mais velha podem também ser avôs e avós. Isso tende a ser mais natural, ainda que não na nomenclatura assumida, mas no papel desempenhado na vida de um sobrinho ou sobrinha.

Tio-avô ou tia-avó podem ter muito carinho e admiração por toda a família e nem sempre têm a oportunidade de uma convivência mais próxima, desperdiçando bons afetos ou, por outro lado, poupando desgostos.

A ambivalência de emoções sempre estará em jogo e pode ser uma oportunidade de aprendizado para filhas e filhos de sobrinhas e sobrinhos.

E os corpos de avós e avôs de hoje? Podem apresentar tatuagens envelhecidas ou recém-criadas, que estão sendo pintadas pelas inspirações dos dias atuais? O quanto pode pesar nas articulações a palavras vovô ou vovó? Devem pensar em ser exemplo? Para quem? Por quê? Devem adotar aflições pela vida de netas e netos criados por seus filhos e filhas e, com isso, seus corpos materializar a oscilação de felicidades, angústias, medos, alívios e raivas?

Ser avô e avó é também aumentar a estrutura familiar e, de certa forma, colocar mais complexidade nas relações, já que tornará quem antes era somente filha em mãe e quem acabou de nascer, instantaneamente, ser filho e também neto.

Que legados ou significados passam a existir a partir do nascimento de alguém da segunda geração dessa pessoa que se tornou avô e avó ou a partir de uma adoção realizada na família?

Quero propor, que seja para essa coluna ou para um uso mais ampliado, o termo avolescência, como uma construção social, diante de tanta diversidade, particularidades e complexidades do ser avó ou avô.

A avolescência que proponho não se restringe a uma perspectiva etária apenas, mas, sim, a interseccionalidade presente e que se refere aos processos psíquicos e emocionais, e aspectos culturais, de gênero, étnico-racial, socioeconômico, de classe e também pela experiência da avosidade.

Nesse conceito de avolescência podemos pensar em como permitir o desenvolvimento das diferentes identidades de avôs e avós, não necessariamente pessoas velhas, e como a sociedade as entenderá. E não importa usar termos como avolescentes ou outro qualquer. Mais importante é posicionar o mundo da diversidade de avós e avôs que existem e passarão a existir.

Penso dessa forma, comparando a um conceito criado por um dos ícones da gerontologia no mundo e no Brasil, o professor doutor Alexandre Kalache, que definiu a diversidade no envelhecimento como gerontolescência.

Serão necessárias discussões no campo da linguagem, das práticas e do entendimento das instituições e políticas públicas sobre o ser ou tornar-se avó ou avô.

O presente já nos lança desafios para pensar as mudanças e problemas que precisarão ser resolvidos para que a avosidade, a autonomia e os propósitos de vida, principalmente de avós e avôs idosos, possam ser mais respeitados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL