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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Idosos e idosas na rua: cadê a sopa, o cobertor e o teto com paredes?

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

05/07/2021 04h00

O som das ruas é muito ensurdecedor. Não há tantos carros. Há muito silêncio presente no ar. Alguns ônibus tentam ser mais barulhentos, mas não conseguem. É uma atmosfera que incomoda e lembra passagens de alguns rituais de luto quando as pessoas estão quietas, pensando sabe-se lá o que da pessoa que, fisicamente, já não estará mais presente.

As igrejas, as poucas abertas, têm menos frequentadores e suas vozes não parecem concorrer com o silêncio que continua seu mantra sem ser atrapalhado.

As pessoas que circulam nas ruas estão em comportamentos extremos: sem máscara e cantando, talvez para espantar um pensamento ruim, como a falta do dinheiro para comprar algo essencial, a recordação de mais um "não" para a coleção da busca por um emprego ou o medo de voltar para casa e ser ameaçada e desrespeitada.

O canto não parece ser de alegria. Outras pessoas estão com máscara e a cabeça mais barulhenta que o centro urbano em um dia normal sem pandemia. Estamos em junho de 2021.

Mas nessa rua, de algum lugar do Brasil, tem o céu iluminado por uma lua cheia maravilhosa que tenta trazer luz para uma pessoa idosa em situação de rua. Ele está ali, com o seu cobertor em um dos braços e no outro uma sacola de plástico onde carrega toda a parte material da sua vida. Seus sonhos devem estar na cabeça ou no coração. É o que quero acreditar.

Não há razões óbvias para que pessoas envelheçam nas ruas ou cheguem já idosas. São tantas outras causas: problemas familiares, alívio, busca por paz, presença de doenças e vícios, solidão, desilusões, sequelas de um modelo econômico idadista (que discrimina as pessoas mais velhas) e falta de casa própria que formam um desses mosaicos de motivos de quem hoje é uma pessoa idosa em situação de rua.

Os poucos dados estatísticos apontam que em grandes cidades como São Paulo e Belo Horizonte os números possam estar próximos a 20 mil pessoas em situação de rua em cada uma dessas cidades, sendo um perfil predominantemente masculino e não tão idoso. Em São Paulo, havia 4,7% de pessoas idosas na rua em 2015, número que deve ter aumentado nos últimos anos. Nesse censo havia o registro até de um idoso com 94 anos.

Diante dessa situação injusta, a pergunta é o quanto de visibilidade ou qual visibilidade tem sido dada a pessoa idosa que continua a envelhecer nas ruas, agora mais vazias, sombrias e repletas de perigo e que, a cada dia, geram mais condições de vulnerabilidade para quem envelhece sem ter um endereço fixo, sem um teto onde a cama, a cadeira e a mesa repleta de comida fresca e saudável possa sempre ser encontrada?

Até o lixo, onde tem restos e recicláveis, anda mais vazio. E aí o ministro da Economia sugere oferecer mais restos de comida, aquelas que muitas pessoas ricas não querem mais, que enjoaram de comer. É assim também que se descontrói a dignidade de pessoas em situação de rua.

E o mundo vive de paradoxos relacionados a quem vive, quem morre e quem sobrevive. Chegamos a um momento no qual planejamos a viabilidade para morar em um outro planeta, dadas as condições ideais de pressão e temperatura para a nossa raça humana.

Pensamos em formas de ofertar o direito à eutanásia quando inúmeras pessoas idosas ricas podem alegar que já cansaram de viver. E, ao mesmo tempo, naturalizamos a fome e o aumento da insegurança alimentar que muitas pessoas idosas em situação de rua vivem há anos, talvez uma vida inteira.

Como um país tão religioso que desrespeita espaços que deveriam ser laicos para reforçar que Deus está acima de todos e ainda assim deixa centenas de milhares de pessoas passarem fome, frio e sede nas ruas? Pessoas idosas poderão morrer sem ter tido o direito à dignidade em algum momento da sua velhice!

Nossa Justiça por vezes injusta não pune quem permite que pessoas idosas fiquem na rua ou que ofereçam como única opção esse espaço sem teto, sem parede ou mesa cheia de comida e bebida boa. Nossa sociedade já criou uma forma de "sentença de morte" para pessoas idosas pobres, ou sem uma estrutura familiar ou sem um real propósito de vida.

Quantas pessoas idosas já perderam parte significativa do seu tempo de vida durante essa pandemia? Em diversos municípios, presencia-se as madrugadas mais frias do ano, e quantas pessoas idosas em situação de rua morreram ou ficaram temerosas da sua finitude?

Morrer pelo vírus, pela fome, pelo frio ou pela omissão de diversos atores sociais? Páginas de jornal e pinga são importantes aliados para manter o corpo aquecido. Pode ser que no dia seguinte esta mesma página de jornal que o protegeu do frio, estampará a sua foto esvaziada dos direitos e gelada pela ausência de humanização.

Outras pessoas em situação de rua fazem programas sexuais para viabilizar um quarto para dormir, tomar banho e comer. Muitas delas têm mais de 50 anos e possuem filhos e filhas que estão sob cuidados de outras pessoas, ou até sendo violentadas sem a mãe saber.

Agora, além do preservativo, essas mulheres precisam ser orientadas quanto ao uso álcool em gel e máscara. E isso não é fantasia sexual, é equipamento de proteção individual, semelhante aqueles usados em empresas.

Sobra ainda a exclusão digital e tudo que poderia vir de positivo desse mundo virtual, como falar com outras pessoas, ler poesia, ouvir música e saber das boas novas. Há muitas pessoas politizadas em situação de rua e que já entenderam quem são as pessoas culpadas pelo seu risco aumentado de morrer.

Temos, felizmente, muitas pessoas das mais diversas religiões e áreas de atuação, da assistência social, organizações não-governamentais e tantos outros grupos que buscam, incansavelmente, amenizar o sofrimento dessas pessoas idosas. Sopa, água, blusa, cobertor, álcool em gel, uma escuta, um caderno, um livro ou uma conversa. A todas e todos, recebam esse registro de agradecimento!

Há albergues, abrigos e casas de passagem que procuram dar um pouco de cidadania para essas pessoas idosas. Mas pessoas idosas em situação de rua nem sempre estão sozinhas: têm suas carroças e seus cachorros e, por esse motivo, nem sempre esses espaços são alternativas viáveis. É preciso ampliar espaços que considerem esses fatores porque na manhã do dia seguinte, esse trio precisará voltar para as ruas e seguir sua rotina de sobrevivência.

É urgente ampliarmos as discussões sobres esses espaços, ouvindo as pessoas que, de fato, fazem uso deles. É apenas esse modelo que temos para ofertar ou podemos e devemos construir novos modelos e espaços que garantam e respeitem as diversidades e singularidades das pessoas que estão em situação de rua?

É possível destacar a importância da educação em saúde em tempos de pandemia e reforçar todas as recomendações para quem vive nas ruas, desde o uso de álcool em gel e até a importância de manter-se bem, para garantir uma boa imunidade e distância de pessoas que queiram machucá-las e até queimá-las.

Precisamos também rever as políticas que reduzam as causas estruturantes de quem vai parar na rua e como ajudar quem lá se encontra, incluindo as pessoas idosas com suas incapacidades funcionais.

O Movimento Nacional da População de Rua defende que a moradia deve ser uma prioridade, pois desta forma a pessoa passa a estar inserida em um território e novos vínculos são possíveis para melhorar sua condição de vida. Pensando em pessoas idosas, incluo que seja uma moradia que garanta a mobilidade e a autonomia.

As reformas previdenciárias que vêm ocorrendo de forma acelerada e diminuindo a possibilidade de equidade poderão manter pessoas idosas em situação rua com pouquíssimo ou nenhum poder aquisitivo para viver, alimentar-se bem, comprar crédito para o celular ou um objeto de uso pessoal indispensável.

E nós ainda nos sentimos no direito de reclamar quando muitas dessas pessoas vêm nos pedir esmola ou bater no vidro do carro ou quando no nosso bairro é criado um espaço para dar melhor atenção a essas pessoas.

O frio visto da janela de nossas casas, onde há sopa quente saindo do fogão, uma bebida quente, sofá e cobertor jamais poderá refletir as desigualdades sociais que colocaram nas calçadas e embaixo das pontes e viadutos outras milhares de pessoas idosas ou não que, quando muito, terão um cobertor e uma sopa quente para degustar, mas mãos e pés sempre mais frios pelo contato da temperatura do ar das ruas, a sua realidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL