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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Irmãs, irmãos e velhices: o que os anos são capazes de fazer?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

28/06/2021 04h00

Irmãos e irmãs todos sabemos são pessoas que nasceram dos mesmos pais, ou somente da mesma mãe, ou somente do mesmo pai, ou criados juntos desde a infância, adotados com todo o carinho possível ou por outras circunstâncias da vida, que viveram no mesmo quintal ou nos mesmos espaços onde se dividia a comida, onde se fazia as lições de casa, ou onde se levava as broncas pelas brincadeiras e brigas.

Ou seja, irmãos e irmãs não dependem exclusivamente do vínculo biológico. É conexão.

Irmãs e irmãos se conhecem muito e se identificam com situações, comidas, músicas, programas de rádio e de televisão e objetos que lembram um do outro. Os encontros, festivos ou não, sempre têm um crescimento maior dessa conexão. Ou era assim que imaginaríamos que deveria ser.

O envelhecimento traz alegrias e tristezas quando pensamos nas relações sociais vividas entre essas pessoas. É possível que pessoas idosas consigam manter e até ampliar os contatos e as trocas entre pessoas de sua geração e de outras também. Mas irmãos e irmãs são parte da nossa história, que nos constituem como pessoas, seus olhares e suas ações ajudam a formar a nossa personalidade.

O que quero propor hoje é uma reflexão sobre o quanto as trajetórias de vida podem aproximar ou afastar irmãos e irmãs que envelheceram. O que pode manter irmãos e irmãs unidos e o que faz com que se afastem e se distanciem por anos? É um assunto bastante complexo e seria ousadia minha tentar chegar a uma solução para todas e todos.

As relações entre irmãos podem ficar enfraquecidas quando temos à disposição as desigualdades sociais marcadas pela falta de dinheiro e aí um irmão consegue comprar a casa e educar os filhos e filhas até a faculdade. A outra irmã, não.

A presença de um companheiro pode afastar o convívio entre irmãs, já que a relação com um dos cunhados sempre teve desavenças religiosas e partidárias. Um, de forma preconceituosa, é considerado "macumbeiro", e a outra acha que isso pode até fazer mal para a saúde dela.

E quando tem herança envolvida? Desde terreno no cemitério, lote de terra em uma cidade pequena do interior, a casa dos pais já bem acabada pelos anos e falta de reformas, a conta corrente com dinheiro dos últimos três meses de aposentadoria da pessoa falecida, a joia que ninguém sabe se é de ouro mesmo?

O dinheiro separa tantas famílias, tantos irmãos, irmãs, primos e primas e quem lê esse parágrafo já pode ter se lembrado de alguma situação.

E também existem as dificuldades criadas pelas limitações físicas. O irmão está usando cadeira de rodas e residindo em alguma cidade do Norte do país e a irmã, que usa bengala e andador, mora há anos na metrópole de um estado do Sul do país.

Quantos familiares entendem a necessidade de manter a conexão entre esses irmãos e irmãs? Alguém perguntou se é vontade delas e deles de se encontrarem nem que seja uma vez por ano?

E mágoas, ódio, rancor, desapontamento, inveja e brigas que promovem distanciamentos maiores que os preconizados em tempo de pandemia? Quanto de mal-entendidos e telefones sem fios mentirosos!

Talvez conversas sinceras, dessas que irmãos e irmãs tinham quando dormiam no mesmo quarto daquela casa pequena e sem a interferência de ninguém, poderiam ter aproximado essas pessoas idosas e fazer com que os anos da velhice fossem melhores, que as lembranças de sua progenitora e progenitor fossem rememoradas frequentemente, exaustivamente até que a mais nova ou mais novo membro da família soubesse de todos os "causos" da família.

Para muitas pessoas religiosas e algumas espiritualistas, irmãos são seres que tiveram, por alguma ou por diversas razões, que nascer em uma mesma família, enfrentando ou usufruindo as mesmas situações para que algo de outra vida pudesse ser resolvido nesta passagem pela Terra.

Irmãs idosas ao celular - iStock - iStock
Imagem: iStock

E quando se afastam, a "dívida" ou a pendência só aumenta. Na perspectiva da metafísica e da genética, irmãs e irmãos carregam 50% da vida do mesmo pai e ou da mesma mãe. Dessa forma, algumas explicações energéticas, algumas formas específicas de adoecimentos e até alguns tipos de traumas podem estar presentes nesses irmãos e a parceria ao longo da vida seria importante aliada para que a vida pudesse ser melhor.

Irmãs e irmãos idosos podem também ser abandonados pela família e contar com a ajuda, em algumas situações, de pessoas que encontraram ao longo de suas vidas. Gatos e cachorros até tentam suprir a ausência de filhos, sobrinhos, primos e primas, mas nem sempre esse objetivo é alcançado.

A situação de vida dessas irmãs e irmãos fica em maior vulnerabilidade quando as incapacidades funcionais, os problemas de memória e as limitações financeiras começam a surgir e até a sociedade os deixa sem resposta, sem solução.

Daí em diante, muita sujeira acumulada, medicamentos com datas vencidas, alimentos mal preparados e contas sem pagar passam a habitar também com essas irmãs e irmãos.

E quando o irmão idoso nunca foi pai e agora quer ser avô? Como fica o comportamento de filhos, filhas, sobrinhos e sobrinhas? Acolhe-se ou não essa pessoa idosa? E se esse pai e tio idoso foi pego pelas armadilhas da vida, como desempregos constantes, vícios, relacionamentos conjugais com pouca troca de afetos sinceros e até adoecimentos mentais que ninguém conseguiu identificar naquela época?

Todo esse afastamento não precisaria ser revisto? Não digo que o perdão tenha que ser dado, mas só o fato de cogitá-lo poderia ser muito salutar para todas as pessoas envolvidas.

Mas pode também o tempo, os anos vividos aproximar irmãs e irmãos e tornar cada encontro uma fonte de alegria sem fim, de não pensar nas horas, no relógio. Alegrias com as conquistas das sobrinhas, dos sobrinhos.

Sentir-se feliz por ser tia-avó ou tio-avô. O que pensar de irmãos velhos e irmãs velhas cuja lealdade e companheirismo são maiores que aqueles presentes entre muitos casais?

Cuidam um do outro e assim podem criar até uma tribo, não necessitando identificar os graus de parentesco de quem mora na mesma casa, seja grande ou pequena. Irmãs e irmãos que envelhecem juntos, numa mesma moradia, também refletem o sentido de família e sobre como os vínculos podem trazer afetos e responsabilidades.

Muitas mulheres, principalmente as negras, que precisaram criar filhas e filhos sozinhas podem ter na presença de um irmão a figura masculina que poderá ajudar na criação de suas crianças.

É um convite dado pelos olhares das mulheres e pelo sentimento que esse homem tem pelas sobrinhas e sobrinhos que podem ter por ele muito respeito, admiração, orgulho, amor e sensação de estarem seguras.

Em alguns povos africanos isso ocorre de maneira mais fluida, não necessitando o falecimento do pai das crianças. No Brasil, para algumas famílias negras, isso ainda está presente.

Ainda temos muito o que pensar, refletir e fazer para que irmãos e irmãs possam usufruir juntos de bons momentos, desde de que isso seja uma vontade mútua.

Estado, serviços, instituições, familiares e amigos têm um papel importante na concretização desses encontros e convívios. A conexão pode ainda estar lá, escondida, adormecida ou pouco estimulada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL