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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Velhice não é doença! A ameaça para quem "ousar" envelhecer no mundo

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

14/06/2021 04h00

Passará a vigorar em janeiro de 2022, dentro da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), um novo código —que são aqueles conjuntos de letras e números que médicas e médicos utilizam ao diagnosticar uma doença— referente à velhice: MG2A.

Sim, essa fase natural da nossa vida passará a ser considerada como uma doença, algo não desejado.

Numa primeira análise isso parece ser aceitável, já que é esperado que nossas mortes ocorram nesse momento da vida. Seria uma grande alegria morrer de tanto viver, de tanto rir, chorar e ser consolado, de fazer novas amizades ou reatar aquelas consideradas perdidas, de tanto beijar e de tanto abraçar.

Entretanto, há muitas armadilhas, interesses privados e riscos de anteciparmos a vida de muitas pessoas que, mesmo não idosas, poderão morrer de velhice e não ter tido as boas experiências que somente os muitos anos vividos nos proporcionam.

Existe uma parte das indústrias farmacêuticas e do ramo da estética que visa cada vez mais e precocemente alcançar um grupo de pessoas que veem como negativas e indesejáveis as mudanças decorrentes do envelhecimento, principalmente nos aspectos físicos.

Cirurgias, cremes, suplementos, medicamentos já existentes e outros que poderão ser produzidos segundo a prescrição genética de cada corpo, aparelhos e muitos outros procedimentos teriam, com a existência desse código, maiores possibilidades de consumo.

Rugas, peles flácidas e outras marcas do muito viver seriam agora sinais patológicos, de uma doença que precisa ser tratada à base de muitos medicamentos, ou submetida a diversos procedimentos até então estéticos, mas que agora serão para evitar o avanço de uma "doença".

Curiosamente, já há dados demográficos garantindo que essa "doença" vai aumentar nos próximos anos, uma vez que a população idosa brasileira e mundial tenderá a crescer ainda mais nos próximos anos.

Haverá também um grande problema no campo da epidemiologia com aumento da invisibilização dos reais problemas que afetam a população idosa, já que as causas comumente sabidas e investigadas sobre as mortes de pessoas idosas poderão ser todas sintetizadas em uma única causa que, por não ser doença na sua essência, não teria critérios adequados.

Sem dados assertivos, não será possível fazer investimentos para o controle e redução de mortes por causas já conhecidas, como as cardiovasculares, oncológicas e neurológicas.

Para quem defende o código, essa mudança decorre porque, em linhas bem gerais, o envelhecimento acaba sendo um importante e contínuo processo inflamatório e daí ser considerado como doença.

A versão da CID que ainda vigora já consta um código falando sobre senilidade, mas que acabou sendo muito pouco utilizado. O que é bom, na perspectiva da gerontologia, a grande área do saber que estuda o envelhecimento e que agrega a área da geriatria, que é o campo clínico da gerontologia, muito conhecida pelas práticas médicas.

Sair de senilidade para virar velhice seria a "evolução ou melhor adaptação" dessa definição dentro da CID.

Quais seriam os sinais e sintomas de velhice, considerando que nossa sociedade ainda discrimina, e não é pouco, a pessoa idosa? Gagueira, "chatice", "surdo", "desdentada", "falante demais"?

Nem pensar a velhice como uma síndrome seria interessante, já que poderia restringir as ações de outros profissionais não médicos que precisariam sempre de uma solicitação médica para iniciar seu trabalho de prevenção, promoção ou de cuidados para o envelhecimento, algo que não está, obrigatoriamente, relacionado a presença de doenças já conhecidas, como hipertensão, diabetes, artrose e outras doenças que, por décadas, afetavam somente as pessoas mais velhas, mas que hoje, em razão das nossas condições de vida, dos nossos cotidianos que não privilegiam o bem-estar, vêm acometendo pessoas adultas cada vez mais precocemente.

Um outro problema que poderemos ter, se aprovado esse código na CID, é que deixaremos de ter o interesse de profissionais de saúde na investigação mais aprofundada do diagnóstico mais assertivo de algum agravo ou doença que afeta uma pessoa idosa.

O termo velhice seria um grande "guarda-chuva" que permitiria concluir que muitas anormalidades ou maus funcionamentos de órgãos ou sistemas seriam decorrentes da velhice. Simples assim, mas muito incorreto.

Como pensar em tornar patológica a velhice se ainda estamos lutando pelo direito de envelhecer de muitos grupos sociais de pessoas idosas negras, LGBTQI+, em situação de rua, indígenas e até de algumas pessoas que realizam atividades específicas de trabalho, incluindo profissionais da medicina que, em alguns estudos nacionais, precisam aprimorar suas práticas e formas de realização do trabalho, já que mulheres médicas podem ter no suicídio uma causa importante de óbito e que nem permitiria ter a chance de morrer de velhice.

E o suicídio na velhice? Quando a sociedade esvazia todas as possibilidades de a pessoa idosa sentir-se viva no mundo, privando-a de saúde, de lazer, de oportunidades de trabalho, de aprendizado ao longo da vida?

Quando essa ausência das políticas públicas ganha muita proporção e afeta milhares de pessoas idosas que começam a cogitar a interrupção do curso da vida, isso será considerado uma violência contra a pessoa idosa ou simplesmente velhice?

Com essa nova classificação, ironicamente e da noite para o dia, pessoas idosas pobres poderão morrer mais de velhice, uma vez que residir em áreas com muita precariedade de serviços e condições mínimas de vida reflete na expectativa de vida menor se comparada a outras pessoas idosas que moram em melhores bairros cujas condições de saneamento, acesso a água potável, segurança e oportunidades de aprendizado, lazer e educação são melhores.

A linha de cuidados necessários para a saúde da pessoa idosa ainda é muito incompleta e necessita de mais profissionais especialistas, mais locais para atendimento, menos práticas discriminatórias pela idade, mais disciplinas nos cursos de graduação e necessidade de ouvirmos mais e com muita atenção as novas e antigas necessidades de cuidados de velhos e velhas.

Como, se ainda não criamos essa linha em todos os municípios do Brasil, vamos deixar um código, uma classificação, englobar toda a defasagem e insuficiência de serviços necessários para quem virou idoso ou idosa no país?

E o que pensar e o que fazer quanto aos milhares de profissionais que se especializaram no estudo do envelhecimento e que aprenderam que nessa fase da vida muito ainda está por fazer para quem envelhece e para quem já virou idosa ou idoso?

Que sabem que envelhecimento não é apenas ter saúde? Como enaltecer e justificar as milhares de ações que são realizadas em prol do aumento da expectativa de vida?

Quantas empresas de seguro de vida e empresas dos planos privados de saúde terão seus valores ajustados de acordo com análises genéticas, que também estão cada vez mais no nosso cotidiano? Ser longeva e longevo não deveriam ser definições de pessoas cronicamente doentes de velhice!

Pensar que velhice é uma doença será um dos maiores erros cometidos com as pessoas idosas e aquelas que terão 60 anos ou mais, ou seja, toda a população viva!

Uma mobilização nacional e internacional com sociedades da gerontologia, políticos, movimentos sociais e ativistas vem crescendo na tentativa de não validar esse código internacional de discriminação contra a pessoa idosa. Faça parte desse movimento você também!

#velhicenãoédoença

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL