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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O choro é necessário: lembranças do convívio com nossas idosas e idosos

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Imagem: iStock
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

17/05/2021 04h00

A receita é antiga: açúcar e leite. Estamos aqui, minha mãe e eu, querendo saber se vai leite condensado e coco ralado na receita para fazer o doce no fogão, preparado no fogo baixo e na agilidade dela com a colher de pau.

Sinto que minha mãe sorri facilmente ao se lembrar da receita ou pelo fato de saber que ainda me lembro do doce que ela faz desde a minha infância. Receita simples e barata, mas de um sabor incomparável, não só neste mundo, mas sem nenhum igual no Universo.

Doce da mãe do colunista Alexandre - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Esse é o doce da minha mãe: carregado de afetividade
Imagem: Arquivo pessoal

É um prato rico em afetividade, de energia e que não engorda tanto (risos). Vocês poderão dizer que estou exagerando, mas não estou (risos).

O fato é que todos e todas estamos sentindo saudades das coisas e dos gestos mais simples da vida, que tanto nos alegravam regularmente e, às vezes, diariamente.

Era o filho que tomava café com a mãe, a avó que buscava a neta no balé e juntas ficavam lembrando do tempo no qual era a avó que, quando criança, dançava na sua cidade natal.

É também o neto, o filho e o avô que não deixavam de estar juntos em um sábado pela manhã para acompanhar o treino de futebol do mais novo, mas ali já tinha carvão, carne e bebida gelada para passar uma manhã e quase toda a tarde rindo, confraternizando com a vida simplesmente a possibilidade de se aglomerar, de abraçar e de cantar alto o hino de um time.

Era também sentir o cheiro de pão que sempre vinha da casa de uma vizinha e que bastava bater na porta que, por "coincidência", éramos recebidos com uma fatia quente do pão com manteiga ou margarina derretida. Se tinha café acompanhando, aí a refeição era mais que especial!

E tem som mais encantador para uma idosa ou idoso que os gritos e risadas das netas, netos, bisnetos, bisnetas enfim, a turma toda brincando no quintal? Entrando com os pés sujos dentro de casa, continuidade do quintal no contexto da brincadeira? O silêncio ensurdecedor que somos obrigados a cultivar atualmente incomoda demais nossos mais velhos e mais velhas.

Dia 6 de maio de 2021, ainda refletindo a chacina ocorrida na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Dentre as milhares de fotos e vídeos, uma me chama a atenção: o senhor que, sentado, com olhar vazio, não parecia pensativo, era vazio mesmo, pensamento tão leve que poderia nem mais estar ali, ao lado do filho morto, coberto.

Eram dois corpos sem vida, dois corpos sem esperança. Um desses corpos continuaria a sofrer aqui na terra, mas agora já não mais pai daquele filho. E fiquei ali analisando aquela foto pelo meu celular e me perdi no tempo, não tanto quanto aquele senhor que nunca irá mais se achar, nunca mais terá a oportunidade de construir boas memórias com o filho morto fisicamente.

Beco na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio, com projéteis de bala no chão após chacina - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
Beco na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio, com projéteis de bala no chão após chacina
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Penso em todas as senhoras que vivenciaram, ouviram e sentiram o cheiro de pólvora misturada com sangue e suor das vítimas da chacina ocorrida no Rio de Janeiro. E para que máscara?

Não é hora de esconder a tristeza, o desapontamento com o ser humano, com os valores que norteiam ou desnorteiam nossas vidas! Esse cheiro de morte não sairá tão facilmente das narinas e das mentes de senhores e senhoras que presenciaram a crueldade humana, a raiva, a vontade de fazer mal, não importando quem estivesse presenciando e registrando para sempre as cenas de horror!

Ainda nessa mesma semana, morre o ator Paulo Gustavo e todo o país é tomado pela comoção. Me preocupa a tristeza de todas e todos que o conheciam e o amavam: do marido, filhos, irmã, amigas, amigos e também da mãe.

A mãe, que não foi apenas a companhia e porto seguro para o seu desenvolvimento enquanto pessoa, mas que também o ajudou no reconhecimento da sua competência profissional. Ela mostrou que o poder de uma mãe é infinito.

Talvez Paulo tenha aceitado partir tão precocemente porque sabia que a mãe ajudaria nos cuidados com seus filhos! A lágrima, o lamento, o silêncio, as reflexões, o olhar também perdidos no horizonte da senhora Déa Lúcia merecem todo o respeito.

E assim outras idosas, outros idosos vão acumulando as maiores tristezas da vida. Tristeza que não há consolo, não há remédio. A única alternativa que existe é refazer rotas de vida, construir novos propósitos para ainda ter vontade de sair da cama, dizer bom dia para quem ainda tem motivos para viver e que não foram destruídos pela omissão da ajuda de alguém.

A pandemia deve ser muito pouco para uma pessoa idosa que chora nos dias de hoje e pior para quem não consegue derramar uma lágrima e deixa tudo ali internalizado no coração, na alma, no ar que entra e não sai e fica ali, viciado, gerando um mal-estar sem fim. "A lágrima que pesa uma tonelada", já profetizada pelos artistas Edi Rock, Ice Blue, Mano Brown e KL Jay.

Mas o cenário pode ficar pior se o choro for solitário, na casa arrumada, sob uma janela onde bate o sol de fim de tarde, querendo trazer alguma animação para quem ali reside, energia na forma de luz solar para essa pessoa idosa.

Os motivos dessa tristeza e necessidade de chorar não caberiam nesse parágrafo: tristeza com a vida, medo do que ainda está para acontecer, desilusão com aquilo que já aconteceu, com a palavra que machucou mais que a dor do membro fraturado, queimado e arrancado à força. E, sim, as palavras têm a capacidade de nos matar.

E podem matar quando são pronunciadas por diversas vozes juntas: "Eu não ligo para ele!", "Eu tô nem aí com ela!", "Ai, que saco!"; "De novo vem com essa história", "Que velha chata!", "Que velho gagá!"; "Tem que ficar em casa mesmo!", "Não dá para fazer mais nada sozinha", "Só faz besteira", e por aí vai.

Tem choro de quem está preso e não pode receber ninguém e de quem não consegue visitar alguém. Falta dinheiro, sobra vírus, falta lugar para ficar, sobra desassistência, falta coragem, sobra vergonha.

E a vida segue em frente, sem parar, sem olhar para trás. E, com isso, essa finitude fria e cruel se aproxima e nos ameaça com o término de nossa passagem por esse mundo. As pessoas mais velhas sabem melhor que outras sobre a reta final da vida.

O cheiro é de flor, daquela que mais gostamos, do prato que mais gostamos, do perfume que mais gostamos. A memória, em milésimos de segundos resgata a cena, as pessoas, o ano, o lugar onde o fato marcante ocorreu.

E dói saber que hoje muitas dessas pessoas já não permitem que essa recordação seja compartilhada. E dor e choro ocupam esse espaço cedido por quem já se foi.

O momento é de chorar também. Chorar alivia, chorar fortalece! Choremos sem vergonha, choremos pela ousadia ou falta de respeito de quem poderia ter evitado fazer o mal. Choremos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL