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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando a desavença entre Chronos e Kairós desagradou as pessoas idosas

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

26/04/2021 04h00

Contará a história que em 2021 Chronos, o deus grego segundo a sua mitologia, venceu velhos e velhas ao ser maior que Kairós, o deus do tempo das coisas e dos fatos, ou seja, das oportunidades.

Um deus quantifica e outro qualifica o tempo. Interessante é saber o quanto Chronos, ainda que nascido primeiro, respeita o tempo e a vontade de Kairós. Mas a pandemia trouxe o conflito entre eles e Chronos decide acelerar o tempo de vida de algumas pessoas após fechar o pacto com um ser minúsculo, microscópico, mas muito poderoso. Veja só o que aconteceu no futuro do ano de 2021 a partir destes relatos:

- "Tenho raiva daquele senhor Chronos, que começa com a mesma letra do vírus que fez um estrago na minha vida. Tinha eu 69 anos, recém-aposentada, com passagem comprada para a viagem mais longa que faria sozinha. Sim, não queria marido, nem filhos ou netos ao meu lado. Iria experimentar a experiência da liberdade, de fazer o quisesse, na hora que quisesse. Queria ficar sozinha, curtir a mim mesma. Mas aí esse tal Chronos apareceu junto com esse vírus e levou toda a minha família. Se tenho raiva? Tenho uma enorme raiva do Chronos e do vírus."

- "Tenho uma história semelhante à da senhora aí do parágrafo de cima. Mais velha do que ela, demorei para casar e, consequentemente, para ser mãe e virar avó. Havia poucos meses que meu neto tinha nascido. Lindo demais, olha só nessa foto! Meu filho e nora só não eram mais felizes que eu, avó 'fresquinha'. Ainda estávamos montando o enxoval dele quando descobrimos que meu filho e nora contraíram o vírus. Em 15 dias, morreram os dois. Agora, não sei se sou mais mãe ou avó. Do Chronos, nada a dizer, não gosto de falar palavrões para insultar alguém! Tenho rezado bastante para tentar ficar bem, mas tem sido insuficiente, confesso."

- "Sempre me achei forte, valente, o macho que não chora, ou melhor, que nunca havia chorado até o ano de 2021. Ano maldito para mim! Na minha rua, a molecada ficava o dia todo brincando e os jovens fumando. Todo o dia passava nas rodas que se formavam na minha rua de gente fumando junto esse tal de narguilé. Pegava o ônibus para ir ao trabalho de porteiro onde estou há mais de 50 anos sempre com alguns desses jovens. Não sei como peguei o vírus. E a minha vez para tomar vacina estava chegando. Sem querer, juro que foi sem querer, passei para todo mundo lá de casa! Agora estou só eu nesse mundo. Se choro? Não tem um dia que as lágrimas não me visitam. Para mim, o senhor Chronos é pior que o coronavírus."

- "A gente achava que só bastava a empregada ficar na nossa casa esse período todo que durasse a pandemia que nada aconteceria com a gente. Bastava que os entregadores, o porteiro e a nossa empregada, que não deixa de ser família também, se cuidassem adequadamente e nossa vida e saúde estariam garantidas. Mas teve um dia que a neta adolescente dela ligou chorando muito, dizendo que dois meses sem ela voltar para casa era um exagero. Veja só, a avó dela comendo do bom e do melhor e a neta ainda nos acusando de maus-tratos! Pois bem, demos a tal folga para ela!

E, maldita hora, depois que ela retornou para casa e a trabalhar como sempre vinha fazendo, todo mundo aqui pegou o coronavírus. Tá bom que nossos netos fizeram uma festa para os amigos de infância aqui no quintal, ensaiaram dancinhas todos juntos, tomaram no mesmo copo a vodca guardada aqui para ser aberta só quando a pandemia passasse. Culpo a empregada por ter trazido essa doença para casa e matado meus três netos e uma amiga deles. O senhor Chronos não tem nada a ver com isso, na minha opinião e das minhas amigas do grupo de oração do WhatsApp e que também me atualizam sobre os tratamentos para a covid-19. E existe cada medicamento tão simples que mata esse vírus... "

Para muita gente idosa, o ano de 2021 interrompeu a cronologia normal dos fatos, das mortes e até dos lutos. A nova face ou manifestação da covid-19 tem matado mais jovens. Jovens que vêm se arriscando mais, seja pelo anseio da liberdade, do retorno aos velhos tempos pré-pandemia quando tudo, ou quase tudo, era motivo de confraternização.

Há outros jovens que, na informalidade, buscam "fazer o certo pelo certo", pelo pão, pelo gás e pela luz da casa, do barraco, e manter acesa a esperança de que tudo isso passará. Eles sabem que não são novos empreendedores, são os novos sobreviventes. Muitas e muitos deles e delas viverão menos tempo de vida que seus avós, já que a covid-19 afetou a expectativa de vida da nossa população. Velho pobre vivendo menos que velho rico não é o novo normal.

Kairós pode ser também o tempo certo para o bom resultado de um tratamento. Infelizmente, Chronos ganhou esse duelo novamente aqui no Brasil. São quase 400 mil mortes injustas, 400 mil oportunidades e encontros e risos perdidos de pessoas com outras pessoas.

E Kairós perdido na sua função já que a dupla coronavírus e Chronos decidem quem vive e quem morre no Brasil. Em outros países, Kairós e Chronos estão voltando a viver em harmonia e pessoas idosas observam filhos, filhas, netos e netas crescerem, como tem que ser em um mundo normal.

Quanto aos adultos nada é muito diferente dos jovens. Pode ser que boa parte necessite trabalhar fora de casa. Afinal, ou a escolaridade, ou a renda, ou o tipo de trabalho ou a distância até o trabalho os obriguem a maior exposição. A máscara é a mesma do começo da pandemia. Aquela mais cara não dá para comprar toda hora. Ou é ela ou é mais comida na mesa ou um boleto a mais pago.

Tem adulto, assim como jovens, que continua não acreditando nisso tudo. Querem invadir hospital para saber se é verdade, fazer passeata para reivindicar o retorno da censura, dos "bons modos", segundo eles. Sim, dos modos que criaram tanta discriminação e desigualdade. O mundo não é só para um grupo social se dar bem na vida!

Kairós, que representa a forma boa de aproveitar o tempo, de abraçar a felicidade e de afastar o caos, já não estampa a mesma alegria e vigor. Agora é só preocupação e angústia. Muitas idosas e idosos deixaram de ser avós e avôs pela morte de seus netos e netas.

Idosos e idosas agora são avós apenas, pois filhas e filhos descumpriram a cronologia dos fatos e morreram antes, por culpa da covid-19, não pelas empregadas domésticas, entregadores e balconistas como muitos e muitas ainda querem defender.

O futuro para idosos e idosas que perderam entes queridos pela pandemia já não será o mesmo. O presente poderia ser o passado quando todas e todos ainda estavam vivos, compartilhando das oportunidades que a vida proporcionava.

Kairós, na mitologia grega, é o deus do tempo oportuno, enquanto Chronos é de natureza quantitativa, o "tempo dos homens"; na mitologia grega, Chronos era a personificação do tempo eterno e imortal, e governava sobre o destino dos deuses imortais. Na filosofia, Chronos era descrito como o senhor do tempo e da pressão das horas comandadas pelo relógio. Kairós, por sua vez, era um jovem destemido que não se importava com o tempo cronológico do relógio ou com o calendário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL