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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessoas idosas primeiro? O erro na escolha de quem pode morrer

"Vale dizer que "viveu mais" uma idosa que trabalhou dos 11 até os 67 anos e só agora consegue fazer algo que gosta" - IStock
"Vale dizer que 'viveu mais' uma idosa que trabalhou dos 11 até os 67 anos e só agora consegue fazer algo que gosta" Imagem: IStock
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do VivaBem

05/04/2021 04h00

É assim que começo a nossa coluna de hoje: com o texto da deputada estadual por São Paulo Janaína Paschoal (PSL), que, em 2018, teve a maior votação do país para esse cargo e que já foi cogitada para ser candidata à presidência do Brasil. No seu site pessoal, Janaína diz defender a saúde, a educação e a segurança pública.

Por mais que ela apareça na foto dessa rede social com uma imagem religiosa à sua frente, Janaína promove um discurso repleto de preconceitos e isso é extremamente preocupante para quem reside no Brasil, pois gera mais discriminações contra a pessoa idosa.

No Twitter, a deputada que também é advogada e livre docente escreveu: "Eu me preocupo com todas as vidas! Mas as vidas daqueles que viveram menos me preocupam mais."

Perceba que aqui há uma opinião de uma professora de bioética, como ela mesma relata nesta mesma rede social, e que defende a vida daqueles que viveram menos. Aqui cabe uma pergunta: viver menos é quem tem menos anos de vida? Aqui a deputada utiliza um critério etário para definir o "viver menos" e negligencia os conceitos da gerontologia que amplia a discussão sobre como definir o ser velho ou velha.

Ainda é necessário considerar a teoria da interseccionalidade, já defendida por outra professora norte-americana, que também leciona em um curso de direito, a doutora Kimberlé Crenshaw, que mostrou como as desigualdades e iniquidades entres os grupos sociais decorrem de não ter as mesmas condições de vida. Idade, gênero, raça/cor da pele, local onde reside, tipo de trabalho e outros indicadores sociais ajudam a entender a diversidade de grupos de pessoas idosas que constituem toda a população idosa brasileira.

Vale dizer que "viveu mais" uma idosa que trabalhou dos seus 11 anos de idade até os 67 anos e só agora consegue fazer algo que gosta? Ou de um idoso que somente agora, com seus 72 anos, é que parou de ajudar os filhos na construção de suas respectivas casas e pôde comprar seu carro zero, sonho da sua juventude? E o que dizer de uma idosa que se casou três vezes com homens, mas nunca os amou, e só agora assume seu verdadeiro amor, uma amiga do tempo de colégio? Talvez o critério etário não seja o melhor para dizer quem já "viveu mais".

Talvez se a deputada e professora de bioética trocasse o viveu por sobreviveu estivesse menos errada. São milhões de pessoas idosas que sobrevivem há anos e enfrentam, cotidianamente, a precariedade dos serviços de saúde, a falta dos bons empregos e da escolaridade adequada, a dificuldade para a obtenção da boa moradia, os escassos anos vividos sem dificuldades físicas, a presença de muita tristeza e angústia e o frequente hábito do enterro de vizinhos e vizinhas mais jovens que elas. A deputada também ignora o fato de diversas entidades, instituições e associações já terem manifestado suas indignações, por meio de diversas notas de repúdio contra essa discriminação.

E, quanto ao assunto abordado nessa mensagem: "(...) Penso que já estejamos no momento de estabelecer claramente regras para priorizar o uso dos recursos disponíveis: leitos, respiradores, etc...", a deputada ignora mais uma vez os profissionais e sociedades científicas que já estão mais avançados do que ela nessa pauta de quem tem mais direito aos cuidados. E, o que parece ser quase que uma unanimidade, é que o critério etário não é o mais importante ou essencial.

Nesse contexto da pandemia, idosos saudáveis e sem as comorbidades associadas ao maior adoecimento pela covid-19 não podem ser comparados a jovens que possuem duas ou mais dessas comorbidades. Mais: esses jovens não podem também ser culpabilizados por já tão cedo apresentarem um quadro clínico preocupante até para o seu envelhecimento. Caímos de novo na discussão da importância do sistema de saúde presente, com a cobertura e modalidades de assistência necessárias para manter toda a população menos doente e, cada vez, com mais oportunidades de buscar a saúde.

E nessa outra fala de Janaína, em outra rede social, evidencia-se a naturalização do idadismo, que é a discriminação contra a pessoa idosa, e que pode encontrar respaldo em disciplinas de bioética ministradas por docentes que ignoram o processo do envelhecimento, sua velocidade, a sua importância na perspectiva demográfica, as demandas não atendidas para esse segmento populacional e um modo de vida que estrutura ainda mais a sociedade voltada para o consumo. Todas e todos sabemos que jovens consomem mais e criam mais meios de consumir mais, mantendo o ciclo vicioso que contribui para o aumento das desigualdades sociais.