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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

E quem não tem ninguém? Pessoas idosas na pandemia e as chances de solidão

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

22/03/2021 04h00

Quem tem um pai ou uma mãe, e aqui envolve não apenas os pais biológicos, sabe que a falta da troca de abraços vem deixando a gente um pouco triste.

Quem tem um avô ou uma avó, sabe bem que uma refeição não realizada junto deles está deixando a gente um pouco triste.

Quem tem tios ou tias mais velhas, sabe também que somente as ligações não são suficientes e a falta do contato está deixando a gente um pouco triste...

Eu poderia aqui trazer inúmeras outras situações, e talvez com essas citadas já tenha provocado em você, que lê essa coluna, mais situações em que a pessoa mais velha poderia estar junto de outras pessoas. O fato é que, apesar de tudo isso, ainda temos a esperança e o plano de que tudo isso vai passar e que os abraços, as refeições e os encontros presenciais estarão de volta.

E a pessoa idosa que vive só?

Viver sozinha ou sozinho é um dos grandes problemas sociais que países como o Brasil precisam enfrentar. Segundo o IBGE, mais de 4,3 milhões de pessoas idosas moram sozinhas no país. Somente no município de São Paulo são mais de 290 mil pessoas idosas que vivem sozinhas, o que corresponde a 16% do total da população idosa residente nessa cidade. Um pouco mais de 22 mil pessoas idosas sozinhas na capital de São Paulo têm 90 anos ou mais.

Essa condição tende a aumentar nos próximos anos devido a redução da taxa de natalidade, aos casais que vêm optando por não ter filhos e a expectativa de vida que vem aumentando na nossa população.

As mudanças refletem as escolhas feitas ao longo da vida, que retrata um exercício de autonomia, mas também das novas condições socioeconômicas desfavoráveis presentes no nosso país. Um país que, desde antes da pandemia, não se preparou para cuidar adequadamente de tantas pessoas idosas sozinhas.

Lembro de uma paciente que atendi por muitos anos que, sobre o fato dela ter uma filha apenas, dizia: "Quem tem um não tem nenhum". Ela dizia isso ao se referir que ter somente um filho ou filha é quase que uma "loteria" se pensarmos nas possibilidades de apoio ao longo da vida.

Ninguém tem a certeza de que esse ente familiar irá cuidar dos seus pais. E o outro ditado: "Uma mãe cuida de dez filhos, mas dez filhos não cuidam de uma mãe" coloca ainda mais incerteza em saber como essa pessoa idosa será cuidada, supervisionada, acompanhada ou visitada durante a sua velhice.

E o que a pandemia pode ter causado para as pessoas idosas que já viviam sozinhas?

São diversos os problemas causados para as pessoas idosas que estão enfrentando sozinhas ou em solidão esse momento tão catastrófico do nosso país. Escrevendo agora, penso até que essa solidão vivida por meses por idosas e idosos justifica, ainda que em partes, o baile ocorrido no município de São Paulo com 190 pessoas idosas, aproximadamente. Pode ter sido uma atitude daquela "não tenho mais nada a perder". Enfim, é uma hipótese.

Morar sozinho ou sozinha pode envolver a falta de apoio emocional e possibilidades maiores de adoecimentos por transtornos mentais, como a depressão, a ansiedade e a ideação suicida. Há também o aumento do medo de cair e, no caso de quem mora sozinha, mas tem amigos ou familiares vivendo em diversas partes do país ou até em outros países, o medo sobre como está a vida dessas pessoas que, muitas vezes, têm restrições para se comunicar a qualquer horário o dia, que não tem crédito no celular ou até que não tem condições psicológicas e emocionais para se comunicar.

O adoecimento da população brasileira não é só pelo vírus, já que muitas doenças refletem um efeito direto ou indireto dessa pandemia prolongada e esvazia os bolsos e contas bancárias de muita gente.

Afeta também o condicionamento físico para aquelas pessoas que saíam para suas atividades cotidianas que envolviam até a prática de algum exercício físico. Ficar mais tempo em casa gera a redução da força muscular, tanto dos músculos que geram a potência ou a resistência muscular, e isso pode implicar o risco para a ocorrência de quedas (e seria outro enorme sofrimento à pessoa idosa sozinha cair dentro da sua casa), na dificuldade para se levantar de uma cadeira ou cama com assento mais baixo e para andar algumas quadras para ir ao mercado ou a farmácia.

Sim, muitas dessas pessoas idosas que moram sozinhas têm saído de casa para fazer essas atividades. Pode ser pela falta de alguém mais jovem que não se colocou à disposição para ajudá-la, a dificuldade para o uso da internet e do celular e a necessidade de se mostrar viva para as pessoas do local onde moram e que funcionam como uma rede de apoio informal.

Por isso, tenhamos mais tolerância com as pessoas idosas que estão na rua durante o dia. A gente não sabe o real motivo dessa saída.

Viver sozinha ou sozinho pode também dificultar o melhor entendimento do cenário da saúde pública e da política que estamos passando. Saber que há meses estamos sem uma resposta eficiente para o enfrentamento da covid-19, ou de que o isolamento está menor que o esperado ou até mesmo de que as vacinas ainda podem demorar muito para chegar a toda a população brasileira são assuntos que pessoas idosas deveriam saber por fontes e pessoas de confiança.

E muitos familiares, vizinhos e amigos ficam também sem saber exatamente o que fazer em relação àquela pessoa idosa que mora sozinha. Algumas dessas pessoas há anos estão afastadas, mas outras querem proteger e não contaminar o idoso.

Mas o mais duro de viver sozinho é o fato de estar na solidão. A falta de parentes e amigos é maior para alguns grupos sociais, como idosos pretos que não se casaram ou que são solteiros, pessoas idosas LGBTQI+, idosos privados de liberdade (nem sempre estar no meio de outras pessoas faz a gente não se sentir na solidão), que foram abandonados em instituições de longa permanência, que estão em situação de rua e idosas viúvas ou solteiras.

Sozinho ou sozinha a mente viaja, visita locais inapropriados, lembranças dolorosas e indesejadas, construindo a solidão, sem alguém para advertir do caminho errado que pode estar sendo trilhado ou para promover alguma forma de diversão que lhe cause risadas.

Nem sempre há companheiro, filha, neta, vizinha, colega de trabalho, irmão, genro ou nora. Muitos experimentam, em diversas intensidades, o viver na solidão sem rede de apoio e de afeto, sem palavras afetuosas, sem orientações sobre como se comportar nessa pandemia, sem ganhar máscaras novas, sem ter quem abraçar, sobrevivendo a cada dia sem muito propósito.

Para essas pessoas o vírus pode ser menor que o sentimento da solidão. A dor da ausência pode ser maior que o medo da falta de ar.

E muitos idosos e idosas podem ter perdido a vez para tomar vacina porque não tiveram como ir, quem os levar, quem que se lembrasse dela ou que abrisse mão de sua rotina para, somente duas vezes, pensando nas duas doses, pudesse tratar essa pessoa idosa com mais dignidade.

Buscar manter algum tipo de comunicação, apoio e escuta é fundamental, ainda mais em tempos de pandemia. Muitos idosos e idosas precisam de ajuda na medicação que usam, no pagamento das contas, para ir a consultas que não puderam ser desmarcadas ou adiadas, nas compras de mercado e para colocar crédito ou aprender a manusear corretamente o celular. Videochamadas, áudio e mensagens de texto podem ajudar muito nesse momento.

O estrago, dano, abalo, terremoto, catástrofe, colapso causados pela covid-19 são imensos para pessoas idosas na solidão. Falta a abrangência da assistência social no cuidado a essas pessoas, há a ineficiência ou ausência de programas nacionais, estaduais ou municipais de proteção.

E isso não é culpa das e dos assistentes sociais e outros profissionais que vêm fazendo o impossível nos seus locais de atuação, como o Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF), de Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) e de alguns programas municipais como o Programa de Acompanhantes de Idosos (PAI), do município de São Paulo.

Falo aqui da falta de políticas públicas que promovam melhores resultados, de planejamento para aumentar a cobertura e de treinamento para a melhor escuta realizada pelos profissionais de saúde e da assistência social a esses problemas relacionados com o estar sozinho ou sozinha.

Precisamos diminuir os impactos desse isolamento vivido pelas pessoas idosas que residem sozinhas. A pandemia não tem poupado ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL