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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem é quem na fila da vacinação? Pessoas idosas e o direito à prioridade

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do VivaBem

08/03/2021 04h00

Idosas e idosos se aglomerando para tomar a vacina contra a covid-19. Essa é a cena que retrata a desorganização para o controle da pandemia, refletindo uma desorganização e desarticulação nacional para elencar as pessoas idosas como uma das prioridades no Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a covid-19. Enquanto esteticistas e professores de pilates já estão tomando a vacina —não que não seja um direito deles, mas não é a prioridade na pandemia, tem algo estranho acontecendo e que aumenta a vulnerabilidade de pessoas idosas.

Ainda há o agravante de que a possibilidade da prioridade depende do local onde as pessoas residem, ou seja, têm municípios que estão priorizando idosas e idosos com as doses de vacinas que têm à disposição, outros tentando fazer isso e outros que já não colocam pessoas idosas como um dos grupos prioritários. E essa "logística" não vai dar certo.

Para a epidemiologista Ana Maria Britto, pesquisadora da Fiocruz de Pernambuco, parte maior desse problema é do governo federal. Nosso ministro da saúde tem falado que... (silêncio). Pois é, tem falado muito pouco ou quase nada nem tem um plano apresentado para a sociedade e pensado com a sociedade.

Entendo perfeitamente a necessidade de todas as pessoas em voltar ou continuar o seu trabalho que sustenta famílias e permite à economia não parar. Mas estamos tratando de uma pandemia causada por um vírus. É um dos maiores problemas de saúde pública mundial e que vem sendo combatido sem um planejamento dialogado com todas as pessoas interessadas na melhor resolução desse enorme problema. Parece mais um caos o que estamos vivenciando no ano de 2021. Um ano que já vem se configurando pior que 2020.

Era tudo o que o vírus queria para se propagar: desorganização no momento da imunização pela vacinação

A desorganização ocorre em Belford Roxo (RJ), Unidades Básicas de Saúde da capital do estado de São Paulo e em todo o país. Nessas últimas semanas estamos acompanhando em diversos municípios formas diferentes de priorização de quem toma a vacina. Observamos filas quilométricas em Duque de Caixas (RJ) e em Pedro Leopoldo (MG). Nas duas, cidades há muitas pessoas idosas convocadas para a vacinação e um número muito insuficiente de doses, gerando aglomerações desnecessárias e expondo idosos e acompanhantes para a contaminação pelo vírus.

Os profissionais de saúde que estão na linha de frente, ou seja, que atuam nos hospitais, nas instituições de longa permanência e outros que lidam diretamente com pessoas acometidas pela covid-19 ou com grandes risco de contaminação precisam ser um desses grupos prioritários, mas os profissionais de saúde que não estão na linha de frente poderiam esperar. As doses da vacina ainda são muito escassas se comparamos o total de pessoas idosas que residem no país e que precisam ser vacinadas.

Poderia ser uma estratégia aumentar o número de profissionais de saúde prontos para oferecer os cuidados para mais pessoas, acometidas ou não pela covid-19, já que a pandemia gera muitos desfechos de saúde (ou doença, para ser mais exato), como transtornos mentais, piora das doenças crônicas como diabetes, hipertensão, artrose, lombalgia e tantas outras.

O Plano Nacional de Imunização não definiu com exatidão quais os profissionais de saúde que são prioritários nesse momento e isso gerou uma maior distribuição de doses para quem não é velho. E agora corremos o risco de deixar passar pessoas idosas sem vaciná-las, mantendo o risco alto de morte. Até o dia 17 de fevereiro, cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Cuiabá, Rio Claro já anunciavam a interrupção temporária da aplicação da vacinação por não terem mais doses disponíveis.

O mundo já enfrenta uma distribuição desigual de doses de vacinas entre os países, aumentando a exposição de diversos grupos de pessoas idosas no planeta, o que não é bom. No Brasil, nós poderíamos estar em uma outra situação de dependência dos insumos necessários para o preparo das doses se cientistas fossem ouvidos e ouvidas. Temos diversas instituições, como o Butantã e a Fiocruz, que poderiam ter recebido o apoio necessário para a criação e produção de uma 100% vacina brasileira. Erramos nisso e continuamos a falhar na proteção às pessoas que estão em território nacional.

Ainda há tempo para organizarmos as pessoas idosas nas filas para receber a vacina. Para isso, precisamos de mais diálogo com sanitaristas, epidemiologistas, infectologias, profissionais da gerontologia e da demografia, além da sociedade civil. Sim, tudo precisa ser bem pactuado. E esse espaço para o diálogo sempre esteve garantido dentro das diretrizes e princípios do nosso sistema público de saúde. Pena que articulações maldosas e desinteresse na escuta do problema do outro estejam prevalecendo nos dias atuais, da mesma forma que o número de mortes e internações estão batendo recordes diários.

Ainda assim, dá tempo para melhorarmos isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL