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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Vacinação fake" em idosos: reflexões sobre o porquê disso ter acontecido

Divulgação/Prefeitura do Rio
Imagem: Divulgação/Prefeitura do Rio
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

22/02/2021 04h00

No primeiro vídeo que vi, não quis acreditar. Aí, na sequência, outros três vídeos e, agora, no dia 14 de fevereiro mais um registro de profissionais de saúde que não vacinaram adequadamente as pessoas idosas. A agulha até chega a ser inserida na região onde se recomenda a aplicação da dose, mas o líquido não é introduzido.

Logo, uma "fake vacinação", mais precisamente uma iatrogenia, um ato que coloca a vida de alguém em risco, uma atitude de não tratar da forma recomendada e necessária, ou de não fazer o bem.

É uma análise, um comentário, uma impressão nada prazerosa para se fazer ou para se ter de profissionais de saúde que estão atuando na aplicação das doses e pode ser que envolva até outras pessoas.

Alguns desses fatos ocorreram nos municípios de Rio de Janeiro, Petrópolis e Niterói.

Onde será que iremos parar com essas atitudes? Não conseguindo entrar na mente dos profissionais que agiram dessa forma, cabe aqui algumas hipóteses que, assertivas ou não, precisam ser debatidas em um momento no qual o Brasil ainda apresenta médias altíssimas de mortalidade pela covid-19 e vem vacinando menos pessoas do que se esperava, especialmente idosos e idosas:

Irresponsabilidade: aqui cabe apontar o desrespeito aos princípios éticos que todos os profissionais de saúde aprenderam e deveriam possuir em qualquer situação de atendimento. Nas festas de formatura chega a ser um momento com muito simbolismo o juramento realizado para que sempre façam o bem ao outro e que evitem o sofrimento decorrente de uma enfermidade;

Negacionismo: sim, como uma hipótese. Não aplicar a dose da vacina seria uma materialização de pensamentos e conclusões daquelas pessoas que negam a importância e os conhecimentos da ciência. Ainda estamos debatendo, de forma desnecessária, a procedência da vacina ou o percentual de eficácia, desconsiderando os pareceres de instituições e profissionais de alta credibilidade e profissionalismo;

Discriminação contra a pessoa idosa: até o momento, só conheço situações de pessoas idosas que passaram por esse constrangimento. Vi idosas brancas e pardas e um idoso não recebendo o cuidado para a proteção que mereciam. E sem mencionar o que pode já estar ocorrendo em outros grupos sociais de pessoas idosas, como aquelas de instituições asilares filantrópicas e com baixos recursos para o seu funcionamento, idosos que vivem em péssimas condições socioeconômicas, LGBTQI+ e tantos outros já discriminados antes mesmo de chegarem à velhice;

Destino incerto das doses não aplicadas: se há um controle de doses aplicadas e, não ocorrendo o mesmo, essas podem ter outros destinos, outros braços de pessoas fora das prioridades estabelecidas por especialistas. E isso pode gerar lucro para alguém;

Complicações da injeção de ar: segundo a pediatra e imunologista Fernanda Fernandes, a depender da dose de ar que se introduz intramuscular, pode surgir inchaço, dores e até embolia nessas pessoas;

Sobrecarga de trabalho das e dos profissionais de saúde: altas jornadas de trabalho, afastamentos de colegas, baixa remuneração e, em algumas situações, pouco reconhecimento profissional também podem ser fatores para tais situações, gerando desatenção ou algum tipo de adoecimento.

É justo destacar a grande quantidade de profissionais que estão honrando e dignificando seus papéis na pandemia, isto é, felizes por fazer parte de um momento histórico de combate a um vírus, que vêm abrindo mão do convívio com seus familiares e, muitas vezes, colocando-os em risco de adoecimento e morte, mas querendo contribuir. São muitas e muitos que estão na linha de frente e, por isso, obrigado em nome de quem quer ser vacinado!

O problema é muito sério. As profissionais envolvidas nesses atos foram afastadas ou exoneradas, mas o problema pode ser maior do que imaginamos. Pode ser que muitas pessoas idosas que foram sozinhas ou com acompanhantes que não se atentaram para esse momento da aplicação não saibam se aquela idosa ou idoso foram vacinados adequadamente.

Cabe um rigor e protocolos mais eficientes para a aplicação das vacinas. A pessoa idosa ou não idosa precisa ter a certeza de que está recebendo a dose correta. A fila vai demorar um pouco mais para andar, mas é isso que temos que fazer: aumentar a vigilância.

Precisamos de uma convocação geral, de um pacto pela vida, pela vida de quem precisa ser vacinado, de quem está vacinando, pelas pessoas que não poderão tomar a vacina por motivos de doença, pelas crianças, pelos adolescentes e pelas grávidas. Sempre pensando no lugar dessa outra pessoa que tem o mesmo direito que você para ficar vivo e com menos chances de se contaminar por esse vírus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL