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Noronha proíbe carros a combustão e plástico por turismo sustentável

A partir 2022, apenas veículos 100% elétricos poderão entrar em Fernando de Noronha - Zaira Matheus/Administração de Noronha)
A partir 2022, apenas veículos 100% elétricos poderão entrar em Fernando de Noronha Imagem: Zaira Matheus/Administração de Noronha)

Eduardo Vessoni

Colaboração para o UOL

27/01/2020 04h00

O destino mais cobiçado do Brasil tem assistido a um preocupante aumento de visitantes. Há dois anos, cerca de 100 mil pessoas têm desembarcado, anualmente em Fernando de Noronha, a 545 quilômetros do Recife. São 13% a mais, aproximadamente, do número proposto no plano de manejo do arquipélago.

Para o destino seguir como um dos mais exclusivos e sustentáveis do Brasil, seu futuro depende de ações que precisam ser colocadas em prática no presente. É o caso da lei do Carbono Zero: a partir de 10 de agosto de 2022, estará proibida a entrada de qualquer novo veículo que não seja 100% elétrico.

Sancionado no último dia 7 de janeiro pelo governador de Pernambuco, Paulo Câmara, a lei prevê também, em uma etapa seguinte, a retirada total de automóveis movidos a gasolina, álcool e diesel, incluindo sua circulação e permanência, a partir de 2030.

Automóveis a combustão, como os bugues, não poderão mais circular na ilha a partir de 2030 - Eduardo Vessoni/UOL
Automóveis a combustão, como os bugues, não poderão mais circular na ilha a partir de 2030
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

"A nossa premissa é termos uma gestão sustentável que deixe um legado para Noronha. Não fosse esse turismo ambiental cuidadoso, não teríamos toda essa economia que gira em torno da ilha. Noronha também está se cuidando", explicou Guilherme Rocha, advogado e administrador da ilha desde julho de 2018.

Os primeiros elétricos

Em parceria com a Renault Brasil, que oferecerá condições especiais para a aquisição de carros elétricos para moradores e empresas que atuam na ilha, Fernando de Noronha já recebeu seis automóveis elétricos e quatro carregadores, em regime de comodato. Os modelos cedidos (Zoe, Twizy e Kangoo) têm autonomia que varia de 100 a 300 quilômetros e carga de bateria que dura, em média, 1h40.

Segundo Rocha, a fabricante francesa foi a única interessada em participar do projeto, sem que houvesse qualquer exclusividade de mercado. Os futuros compradores terão liberdade para adquirir veículos elétricos de qualquer outra marca.

Ainda de acordo com o administrador da ilha, a proposta de doação feita pela própria Renault, cujos primeiros carros chegaram por lá em maio de 2019, ajuda na economia da administração pública no que se refere à aquisição de gasolina para veículos oficiais, bem como seu aluguel. O gasto com a tarifa da companhia de distribuição de energia, por exemplo, cairia dos atuais R$ 500 mensais para R$ 50 por veículo.

No início de janeiro, a administração local divulgou a lista com os 130 classificados (100 pessoas físicas e 30 pessoas jurídicas) para aquisição de uma autorização ecológica, a chamada Declaração para Aquisição de Veículo Elétrico, que garante frete social ao comprador pessoa física.

Atualmente, o custo para levar um carro de passeio do continente para a ilha gira em torno de R$ 7 mil, segundo Antônio Gomes de Morais Júnior, um dos diretores da Noronha Tour, agência de receptivo e passeios no arquipélago.

Adeus, plástico

O projeto quer eliminar o uso de plástico em Noronha - Divulgação
O projeto quer eliminar o uso de plástico em Noronha
Imagem: Divulgação
A iniciativa de zerar a emissão de carbono em Noronha faz parte de diversas ações sustentáveis que a administração da ilha vem encabeçando nos últimos anos. Em vigor desde abril do ano passado, a iniciativa Plástico Zero proibiu a entrada, o uso e a comercialização de produtos plásticos descartáveis, como garrafas, copos, talheres, canudos e sacolas.

O projeto, que levou o primeiro lugar na categoria Inovação e Sustentabilidade do Prêmio Pernambuco de Turismo, rendeu a Noronha o título de a "primeira ilha sem plástico do Brasil".

Na onda de neutralização de carbono, em 2014, o destino recebeu 18 bicicletas elétricas para aluguel, mas o serviço foi descontinuado, devido aos altos custos de manutenção e a baixa procura por conta do terreno irregular que nem sempre convida para pedalar.

Uma das maiores preocupações com a chegada dos futuros carros elétricos é o uso de geradores a diesel para produção de energia, cujo consumo mensal atual é de 450 mil litros de óleo. Conforme informou a Administração de Fernando de Noronha, 75% da energia atual é gerada a partir da queima de diesel e apenas 25% provém de placas solares.

Primeiro ecoposto de Noronha: desde 2016, o local é abastecido exclusivamente com energia solar - Celpe/Divulgação
Primeiro ecoposto de Noronha: desde 2016, o local é abastecido exclusivamente com energia solar
Imagem: Celpe/Divulgação

Para diminuir o impacto, foi inaugurado o primeiro ecoposto da ilha que, desde 2016, é abastecido, exclusivamente, com energia solar e mantido pela Celpe (Companhia de Eletricidade de Pernambuco). O destino conta também com duas pequenas usinas solares e nove sistemas de geração de energia a partir de painéis fotovoltaicos.

Em nota ao UOL Viagem, a empresa responsável pela distribuição de energia elétrica em Pernambuco afirma que "está intensificando a viabilidade técnica com a intenção de ampliar os pontos de abastecimento, dentro dos critérios estabelecidos pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica)".

Outros voos

Entre as propostas sustentáveis a médio prazo, a administração da ilha lembra que está em discussão também a compensação da emissão de carbono pelas companhias aéreas e empresas de jatos particulares que atuam no destino.

Segundo Guilherme Rocha, estão sendo negociadas práticas ainda para o primeiro semestre deste ano como o compromisso de plantio de árvores, de acordo com o cálculo de quilômetros voados até o arquipélago. Atualmente, Noronha recebe quatro voos comerciais por dia, operados pela Azul e pela Gol.

Está em discussão a compensação da emissão de carbono pelas companhias aéreas que atuam no destino - Eduardo Vessoni/UOL
Está em discussão a compensação da emissão de carbono pelas companhias aéreas que atuam no destino
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

"Estamos em uma nova fase [da consciência ambiental] e o uso de energia solar é uma ótima ideia para eliminar a queima de combustível fóssil, cujo transporte é insano, como o que aconteceu no Brasil, recentemente [com o derramamento de óleo que chegou ao litoral nordestino]", explica a fotógrafa e bióloga marinha Zaira Matheus, moradora da ilha, há 21 anos.

E o futuro?

Mas o que preocupa Zaira com relação à chegada dos carros elétricos não é apenas ter esse tipo de combustível como matriz energética, mas o descarte das baterias que serão usadas nos novos veículos.

"São baterias enormes e com vida útil de 10 anos, aproximadamente. Será que vamos ter que esperar 10 ou 20 anos para saber qual será o destino delas? É um problema a ser pensado a longo prazo", completa Zaira.

Para o empresário Antônio Gomes de Morais Júnior, um dos entraves será o desenvolvimento no Brasil da tecnologia de propulsão elétrica para camionetes e micro-ônibus, os veículos mais usados para passeios turísticos.

Outro problema apontado por ele é a matriz energética a ser utilizada nos futuros veículos, uma vez que, atualmente, a capacidade de geração dessa fonte de energia limpa atenderia apenas 10% do consumo na ilha, de acordo com o setor de comunicação da Celpe.

Por isso, a empresa tocada por Júnior já se adiantou não só na aquisição de dois veículos elétricos mas também na criação de uma estação própria com placas solares para a recarga de baterias.

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