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Em Londres, garçons cegos servem jantar no escuro total - e contamos como é

Entrada do restaurante Dans le Noir?, na cidade de Londres - Marcel Vincenti/UOL
Entrada do restaurante Dans le Noir?, na cidade de Londres Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL, em Londres

06/06/2019 04h00

"Coloque a mão no meu ombro e venha atrás de mim", me diz a garçonete Allie Martins logo após minha chegada ao restaurante Dans le Noir? ("Na escuridão?", em tradução livre), na região de Farringdon, em Londres.

Sem demora, Allie me conduz para dentro de um corredor à meia luz, através de uma cortina e, finalmente, para o interior de uma sala completamente escura, onde é impossível enxergar qualquer coisa.

A sensação inicial é de claustrofobia: tenho a impressão de que, a qualquer momento, irei tropeçar, chocar a canela contra alguma cadeira ou bater a cara na parede.

"Não se preocupe", avisa a garçonete, como que lendo meus pensamentos. "Acabamos de chegar à sua mesa".

Clientes são conduzidos por garçons cegos rumo à sala de jantar do Dans le Noir?  - Divulgação/Dans le Noir?
Clientes são conduzidos por garçons cegos rumo à sala de jantar do Dans le Noir?
Imagem: Divulgação/Dans le Noir?

Ela, então, pega no meu braço e me acomoda com segurança no assento e, sem deixar de me guiar, continua explicando: "diante de sua mão esquerda está o garfo. À direita, a faca. Mas se você quiser comer com as mãos, vá em frente. Ninguém vai estar vendo mesmo".

Todo este roteiro é apenas o começo do inusitado jantar frequentemente oferecido pelo Dans le Noir?.

A brincadeira, aqui, é curtir uma refeição na total escuridão - e tudo servido por garçons e garçonetes cegos, como Allie.

Aguçando os sentidos

Allie coloca um copo de vinho em minha mão, me deixa sentado à mesa para pegar meus pratos e, rapidamente, seus passos se distanciam.

A refeição é surpresa: não sei exatamente o que irei comer.

Após comer, clientes deixam a sala de jantar escura do restaurante - Divulgação/Dans le Noir?
Após comer, clientes deixam a sala de jantar escura do restaurante
Imagem: Divulgação/Dans le Noir?

Percebo que estou em uma mesa longa, feita para ser compartilhada por diversas pessoas.

Ao meu lado, há dois casais que chegaram aqui em momentos distantes (e que não se conhecem).

Sem se enxergar, e nitidamente animados por alguns (ou vários) drinques, eles interagem com brincadeiras, tentando adivinhar como é aparência da dupla oposta: "eu acho que você é alto e tem bigode", diz a mulher ao homem à sua frente. "E eu apostaria que você tem cabelo longo e um rabo de cavalo", rebate ele.

Entro na conversa e, rapidamente, a claustrofobia dá lugar a uma agradável sensação de liberdade.

Sem ser visto, sinto uma enorme espontaneidade ao bater papo com estes estranhos incógnitos. Estou bem vestido? Meu cabelo está desarrumado? Estas perguntas, que às vezes surgem em ambientes sociais, desaparecem completamente na escuridão.

Londres abriga o restaurante Dans le Noir?, que oferece uma experiência sensorial única para os clientes - Getty Images/iStockphoto
Londres abriga o restaurante Dans le Noir?, que oferece uma experiência sensorial única para os clientes
Imagem: Getty Images/iStockphoto

À qualquer piada, o grupo solta altíssimas gargalhadas (atitude que, talvez, não seria adotada em um ambiente iluminado). O vinho parece bater mais rápido.

Do olfato ao tato

Allie chega com a entrada e, logo depois, com o prato principal: sinto enorme dificuldade em pegar os ingredientes com o garfo e resolvo comer com a mão mesmo.

A refeição tem sabores marcantes e, sem a ajuda da visão, coloco mais ênfase no meu paladar e no meu olfato para adivinhar o que estou ingerindo e curtir os sabores ali inseridos: sinto, completamente focado, o gosto de uma carne bem temperada, de um purê adocicado e de algo que lembra gengibre com molho oriental.

E pode parecer meio nojento, mas o fator tato é extremamente interessante nesta experiência: com a ponta dos meus dedos, passeio pelas texturas macias e cálidas encontradas no prato, o que se revela bem agradável.

O trabalho de Allie, por sua vez, é extremamente eficaz: ela sabe exatamente em qual assento está localizado cada cliente, chama-os pelo nome e se aproxima frequentemente para trazer mais vinho ou comida.

Recepção de uma das unidades do Dans le Noir? que existem pelo mundo - Divulgação/Dans le Noir?
Recepção de uma das unidades do Dans le Noir? que existem pelo mundo
Imagem: Divulgação/Dans le Noir?

Depois de terminar o prato principal, sou presenteado com a sobremesa, composta por um sorvete levemente (e deliciosamente) azedo (mas cujo sabor não consigo adivinhar) e um doce que, por causa da crocância de sua cobertura, me dá quase certeza de ser crème brûlée.

É mais uma receita cheia de contrastes de sabores que é muito interessante de curtir no escuro, com as papilas gustativas trabalhando a todo vapor.

Invertendo papéis

Segundo Bart Kosinski, gerente do Dans le Noir?, um dos objetivos do restaurante é justamente este: "a visão é o sentido no qual nós mais confiamos", afirma ele. "Mas os outros sentidos têm sua sensibilidade aumentada no escuro. E há também a questão social: na escuridão, não nos sentimos tão julgados pelos nossos interlocutores. Então, aqui, a comunicação entre as pessoas que compartilham a mesa fica mais intensa, sincera e espontânea".

Bart também fala do trabalho das garçonetes com deficiência visual no estabelecimento: "no escuro, os papéis se invertem. O cliente se torna dependente das pessoas cegas para se locomover e até para comer. Isso dá ao público uma nova perspectiva das coisas".

Eu, por minha vez, despeço-me dos casais com quem dividi a mesa (que continuam comendo) e, ao caminhar (com a ajuda de Allie) para fora da sala de jantar, sinto que fiquei na escuridão por uma eternidade (a refeição, entretanto, durou pouco mais de uma hora).

Clientes têm que apurar o olfato para curtir a comida e as bebidas no Dans le Noir? (imagem ilustrativa) - gilaxia/Getty Images
Clientes têm que apurar o olfato para curtir a comida e as bebidas no Dans le Noir? (imagem ilustrativa)
Imagem: gilaxia/Getty Images

Sou, então, apresentado ao cardápio que traz as imagens do que acabei de ingerir.

No prato principal, havia carne de cervo e batatas salteadas, além de salada de beterraba, com couve e acelga, tudo precedido por uma entradinha de barriga de porco com bacon e couve-lombarda.

O vinho era um tinto húngaro bem encorpado, enquanto a sobremesa foi composta por um brûlée com sorvete de framboesa harmonizada com um vinho italiano Moscato d'Asti.

E fico me perguntando como raios percebi um gosto de gengibre com molho shoyu durante a refeição.

O Dans le Noir? também tem unidades em locais como Paris (França), Madri (Espanha) e Melbourne (Austrália). O estabelecimento de Londres recebe cerca de 25 mil clientes por ano.

Os preços mudam constantemente: quando o UOL visitou o local, havia refeições (incluindo entrada, prato principal, sobremesa e bebidas) custando mais de 60 libras esterlinas (mais de R$ 305)

Mais informações: www.danslenoir.com/en/welcome/

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