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Patrimônios e litoral em risco: como a tragédia da Samarco afeta o turismo

Lama tóxica ao atingir a foz do Rio Doce, no litoral capixaba - Instituto Últimos Refúgios
Lama tóxica ao atingir a foz do Rio Doce, no litoral capixaba Imagem: Instituto Últimos Refúgios

Adriana Terra

Colaboração para o UOL, de São Paulo

02/12/2015 23h03

Um desastre ambiental e social que altera a vida de milhões de pessoas, mata um rio, condena a área de maior biodiversidade marinha do país, interdita praias, afeta parques e destrói parte do patrimônio histórico de uma cidade traz também efeitos no turismo. Consequentemente, compromete a economia de regiões que dependem, em maior ou menor grau, do fluxo de viajantes.

Para saber mais sobre o impacto do rompimento da barragem do Fundão, responsabilidade da mineradora Samarco - ocorrido há cerca de um mês em Bento Rodrigues, Mariana (MG) - o UOL conversou com turismólogos, um órgão que cuida de patrimônios históricos, um biólogo que atua no litoral capixaba e outros profissionais envolvidos com o setor em Minas Gerais e no Espírito Santo -- Estados onde, até agora, a lama tóxica despejada pela empresa provocou mais danos.

Por conta da tragédia ainda estar em curso, é difícil precisar quão prejudicados serão os destinos nos próximos anos, mas alguns relatos ajudam a dimensionar o problema. Seja por meio do turismo ambiental, histórico ou de praias, infelizmente ninguém parece sair ileso. Abaixo, profissionais contam como enxergam a situação e como vêm atuando para reduzir perdas. 

Turismo afetado por tragédia

  • "Acreditamos que o que foi diagnosticado ainda seja muito pouco diante do real. Não há uma perspectiva de fim da tragédia"

    Marcos Paulo Miranda, coordenador do órgão que cuida de patrimônios históricos de MG
  • "Se quebrar a barragem de Germano, você pode imaginar o litoral de Pernambuco ao Rio Grande do Sul com problema"

    André Ruschi, biólogo
  • "A gente vai usar essa situação triste pra levar o turista no problema, pra ele ver como está. Não tem como fugir, esse é o momento"

    Luciana Cunha, proprietária de agência de ecoturismo local

Turismo histórico: igrejas de Mariana e Estrada Real
O centro histórico de Mariana (MG) não foi afetado, mas quatro igrejas (três delas centenárias) localizadas em outros distritos sofreram os impactos da lama, além de construções na Estrada Real e diversas peças sacras.

"Alguns patrimônios destruídos são de impossível e outros de difícil reparação. Fechamos um diagnóstico preliminar dos distritos mais afetados que são Bento Rodrigues, Paracatu e Barra Longa. Um grande trecho da Estrada Real foi afetado, então temos um prejuízo muito grande ao roteiro turístico", explica Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador da área de Patrimônio Histórico e Cultural do Ministério Público de Minas Gerais.

"Estamos fazendo tratativas com as empresas responsáveis sobre o que é possível reparar. A pedido do MP, foram contratados arqueólogos e já foram encontradas imagens sacras numa ação de prevenção e resgate. São 310 peças afetadas, de esculturas a pratarias e vestimentas", conta o promotor, alertando que esse número possivelmente é maior do que o encontrado até agora. "Acreditamos que o que foi diagnosticado ainda seja muito pouco diante do real. Não há uma perspectiva de fim da tragédia".

As igrejas afetadas são a de São Bento, em Bento Rodrigues, totalmente levada pela lama; a de Santo Antônio, em Paracatu de Baixo; a capela de Nossa Senhora da Conceição, em Barra Longa; e a capela de Nossa Senhora das Mercês, também em Bento Rodrigues, que ficou ilhada.

A cidade de 58 mil habitantes costumava receber, em alta temporada, até sete mil turistas ao mês, entre muitos grupos de estudantes. Lívia Castro, coordenadora do setor na Secretaria de Turismo de Mariana, conta que isso já mudou: "Nas primeiras semanas [após o rompimento da barragem], tivemos uma redução drástica no fluxo de turistas, chegando quase a zero mesmo. Hoje já estamos percebendo um aumento gradativo, mas ainda lento".

Ressaltando que Mariana tem outros distritos não impactados - são nove, no total - e que a parte tombada não foi afetada, ela diz que eles buscarão manter as atividades culturais do fim de ano. Comerciantes da cidade, no entanto, têm reclamado bastante do baixo movimento. Nas redes sociais da Secretaria, estimula-se o turismo como forma de solidariedade ao ocorrido.

Sem ajuda das empresas responsáveis pelo desastre, um grupo de artesãs hoje improvisa para preservar uma tradicional feira que ocorre em dezembro na cidade. "Elas alugaram um espaço, porque o centro de convenções onde a feira acontecia está tomado por donativos. Fizeram isso pra não deixar o evento morrer", conta Lívia.

Turismo ambiental: escolas e parques
"O Parque Estadual do Rio Doce é uma área de extrema relevância para a preservação da biodiversidade e um dos que tem a maior visitação no Estado de Minas", explica o promotor Marcos Paulo, citando um dos patrimônios naturais afetados pelo desastre. A lama atingiu a região do parque e foi descendo pelo Rio Doce até chegar ao mar, no Espírito Santo. No último dia 22, a imagem que chocou o mundo era da larga mancha marrom no litoral norte capixaba.

Na composição dos rejeitos, um laudo recente do MP apontou a presença de metais pesados como chumbo, cromo e manganês em grande escala.

Conhecida como Giro de Vitória, a área atingida era considerada a "Amazônia Azul", por conta da biodiversidade. Também foi afetada a região chamada de Banco de Abrolhos, que vai do centro do Espírito Santo até o sul da Bahia, onde estão concentradas as algas calcárias que fixam o gás carbônico livre na atmosfera - sem elas, a temperatura da Terra pode aumentar, um dos possíveis desequilíbrios ambientais decorrentes da tragédia.

Quem fornece as informações é André Ruschi, diretor da Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), também litoral norte do Estado. "Minha instituição é uma escola de ecologia, se o ecossistema morrer vai ficar difícil continuar o exercício da minha profissão. Toda a região era visitada por um turismo didático, de universidades", explica ele, que em 2001 já havia denunciado a atuação da Samarco na região (os vazamentos de lama também não são novidade).

Em Regência, distrito de Linhares onde a foz do Rio Doce desemboca no mar, há uma importante base do Projeto Tamar, que também atraía viajantes e onde a lama já atingiu os locais de desova. "Temos intensificado nosso monitoramento de praia específico para as tartarugas. A rotina da vila mudou completamente", diz Denise Rieth, coordenadora técnica do projeto na região. O Centro Ecológico administrado pelo Tamar ali recebe cerca de 400 visitantes ao mês.

Surfe, praia e passeios no litoral capixaba
"A previsão para o fim de ano era de 200 mil pessoas nas praias da região. Podemos ter um caos de até 80%, 90% de baixa destes turistas que vêm todo ano", prevê o Secretário de Turismo de Linhares (ES), José Carlos Fiorotti. "Hoje as pousadas estão lotadas com um 'turismo da tragédia', de negócios da tragédia", diz Rodrigo Paneto, Secretário do Meio Ambiente da cidade.

A chegada da lama alterou totalmente os planos da população de Regência. Na vila, o surfe e o ecoturismo atuavam com força, junto à pesca. "A gente estava contando muito com esse verão, foram feitos investimentos em infraestrutura. Toda vez que tem previsão boa de ondas, tem mais de 500 surfistas aqui na praia em um fim de semana, vem muita gente de cidades vizinhas, Vitória, Vila Velha", conta Rodrigo Venturini, presidente da Associação do Surfe local.

Apesar da tristeza, Rodrigo lembra que o turismo na cidade não é só ligado ao meio ambiente: "Regência tem a Festa do Caboclo, bandas de congo, Festa de São Benedito".

Duas praias da região estão interditadas. Embora o número seja baixo diante da dimensão do ocorrido, há a possibilidade de uma faixa litorânea maior ser atingida. "A lama está chegando em Aracruz [ao sul] e São Mateus, ao norte, e também a Vitória. E se chover muito vai descer mais lama pelo rio", disse o biólogo André Ruschi em conversa na última segunda-feira (30).

"Se quebrar a barragem de Germano, você pode imaginar o litoral de Pernambuco ao Rio Grande do Sul com problema", aponta Ruschi. A rota da lama no oceano tem sido influenciada pelos ventos.

"De um ano e meio pra cá teve um aceleramento no turismo na região, estávamos num momento muito bom e agora nossa atividade chegou a zero", conta Luciana Cunha, proprietária da Regência Ecotur, que fica no vilarejo capixaba. A agência, que existe há sete anos, tinha como principal atividade um passeio de caiaque no Rio Doce. Agora, busca alternativas para não ficar parada.

A agência de ecoturismo tenta suprir uma demanda que vai além do econômico. "Nossa grande preocupação é proporcionar lazer aos nativos, porque nos últimos meses eles foram nossos principais clientes. Fizemos uma campanha com preço popular, eles se encantaram e valorizaram mais a área em que vivem. Estamos bolando um roteiro novo na Lagoa Parda voltado pra eles, pedindo o apoio da Samarco na logística. Porque eles tiraram a água do nativo, ele não tem mais um lugar pra dar um mergulho sequer, coisa que era parte do seu dia a dia", diz Luciana.

"Neste fim de semana colocamos nosso barco no rio e vimos que é possível levar as pessoas [usando capas de chuvas para evitar o contato com a água], então  a gente vai usar essa situação triste pra levar o turista no problema, pra ele ver como está. Não tem como fugir, esse é o momento", acredita Luciana.

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