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Muito antes da internet, Guia 4 Rodas foi Bíblia de viajantes brasileiros

Três edições do Guia 4 Rodas: em 1966, em 1977 e 1989 - Reprodução/Editora Abril
Três edições do Guia 4 Rodas: em 1966, em 1977 e 1989 Imagem: Reprodução/Editora Abril

Débora Costa e Silva

Do UOL, em São Paulo

03/06/2015 21h34

O cinquentão Guia 4 Rodas, considerado uma “Bíblia” de mochileiros e turistas do Brasil, está com os dias contados. A Editora Abril anunciou nesta terça-feira (2) mudanças em seus títulos. Entre as publicações, algumas continuarão apenas na versão online e outras, como é o caso do Guia, deixarão de existir.

A notícia entristeceu o universo dos viajantes, que por anos teve a publicação como principal fonte de informações para rodar pelas estradas brasileiras e consultar mapas, avaliações de hotéis, restaurantes e atrações turísticas.

Em 50 anos muita coisa mudou: o país, as tecnologias e o perfil dos turistas. “O mundo se transformou, a informática tornou tudo mais ágil e a gente tem visto uma grande parte dos meios de comunicação sendo substituída. E as coisas vão continuar mudando”, analisa o jornalista Maurício Kubrusly, da Rede Globo, que mantém desde 2000 o quadro “Me Leva Brasil” no programa “Fantástico”.

“Eu tenho o Guia 4 Rodas na minha estante até hoje, tive vários e usei muito para viajar. Mas hoje a informação é muito mais ligeira”, conta Kubrusly. “Mas não acho que há muito o que se lamentar, tem que acompanhar as informações de outra maneira”, defende. 

Da esquerda para a direita: Marcio Moraes, Mauricio Kubrusly e Artur Veríssimo, três repórteres que tiveram suas viagens marcadas pelo Guia 4 Rodas - Divulgação/UOL
Da esquerda para a direita: Marcio Moraes, Mauricio Kubrusly e Artur Veríssimo, três repórteres que tiveram suas viagens marcadas pelo Guia 4 Rodas
Imagem: Divulgação/UOL

Assim como ele, muitos outros repórteres também tiveram suas viagens marcadas pelo uso da publicação. É o caso do apresentador Marcio Moraes, que há 19 anos comanda um programa dedicado ao universo do turismo, o “Companhia de Viagem”.  “O Guia é uma referência nesse país para qualquer pessoa que já viajou. Antes da internet, era a única forma de saber a classificação dos hotéis, das atrações, dos estabelecimentos”, comenta.

O anuário não servia apenas para conhecer pousadas e praias Brasil afora, mas também para auxiliar no percurso na estrada. Marcio lembrou que, nos anos 70, durante a crise do petróleo, os mapas eram muito úteis, pois traziam as distâncias entre os postos de gasolina. “Os postos fechavam de fim de semana e, para saber o quanto de combustível seria necessário para percorrer determinado trecho, era preciso estudar o Guia”, relembra.

Os mapas eram essenciais para quem caía na estrada e faziam a diversão do repórter e apresentador Artur Veríssimo quando pequeno. “O Guia fez parte da minha infância, era minha enciclopédia, minha Barsa, minha bíblia! E eu adorava pegar papel manteiga e desenhar aquelas estradas por cima dos mapas”, recorda.

Repórter especial da revista Trip, Veríssimo viajou muito com sua família. O espírito aventureiro ele mantém até hoje, o que se reflete nas reportagens que faz para a publicação. “O Guia fez parte de todas as minhas viagens e da minha formação. Terei sempre boas lembranças”, avalia.

História

Três edições do Guia 4 Rodas: em 1997, 2004 e 2014 - Reprodução/Editora Abril
Três edições do Guia 4 Rodas: em 1997, 2004 e 2014
Imagem: Reprodução/Editora Abril

Com fórmula inspirada no guia francês Michelin, a primeira edição do Guia 4 Rodas foi publicada em 1965, mas com a data de capa de 66, o que viria a se tornar uma tradição. Desde essa época, duas regras norteavam o trabalho dos repórteres: sempre pagar as despesas da viagem e testar estabelecimentos anonimamente.

A apuração do primeiro Guia foi feita em 1964, por uma equipe de mais de 30 pessoas. Eles percorreram 40 mil quilômetros de avião, carro, ônibus, trem, canoa, balsa e até jangada. De lá para cá muita coisa mudou: as capitais Recife e João Pessoa eram praticamente isoladas, com asfalto apenas até as cidades vizinhas, e Belém e Cuiabá não eram nem acessadas por rodovias pavimentadas.

A publicação trouxe à tona destinos novos para o brasileiro, que na época ainda engatinhava no que diz respeito ao turismo. Na edição de 1967, por exemplo, Caldas Novas (GO) debutava nas páginas do anuário, destacando a recém-inaugurada Pousada do Rio Quente, que depois daria origem ao Rio Quente Resorts.

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