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Conheça o lar de Drácula, a Transilvânia, na Romênia

Dolores Roux

Do UOL, na Romênia

20/04/2012 07h00

Em latim, Transilvânia significa "além da floresta". A montanhosa região na parte centro-norte da Romênia, que compreende cidades características como Sinaia, Brasov, Sibiu e Sighisoara, ainda conserva ares medievais e passa a impressão de que parou no tempo. É em busca desse outro tempo que turistas se enveredam pelas rotas que levam a um personagem central, envolto em grande mistério: Vlad Tepes. De tão terrível, o príncipe da Valáquia inspirou Bram Stoker em seu romance “Drácula”. Em 1897, o escritor visitou a região e ficou assustado com seu ar sinistro e obscuro. Da experiência, tirou material suficiente para criar o personagem ícone do vampirismo.


E não é exagero do autor irlandês. A citadela onde Vlad nasceu é tão graciosa e sedutora quanto amedrontadora. Se durante o dia Sighisoara remete a um conto de fadas, à noite o ar sombrio leva à reclusão de todos os moradores. As raríssimas almas vivas que tomam coragem para sair à noite são os turistas. Conhecer a cidade, portanto, só durante o dia. Entender o porquê da lenda em torno de Vlad requer uma volta sob a escuridão. Por maior que seja o medo.

O homem que é conhecido mundo afora como o maior dos vampiros, dentro da Romênia é visto como um patriota e herói. O príncipe Vlad III viveu de 1431 a 1476 e foi uma figura essencial na luta contra os turcos. Sua fama tem origem nas mãos de ferro e na justiça, em que todos os crimes e qualquer tipo de ofensa eram punidos com a morte. O seu principal meio de execução era o empalamento, o que lhe rendeu o nome de Vlad, o Empalador. Aqueles que traíam sua confiança era mortos e erguidos com um bastão de madeira que atravessava o corpo e era fincado no chão de algum espaço público, para agonizarem até a morte. Como os 20 mil turcos e búlgaros capturados e empalados, após a derrota de 1462.

E apesar da ausência de indicações sobre Vlad ou qualquer retrato do temível nas igrejas medievais da região, o que sugere inúmeras tentativas de apagar a memória do Drácula na Romênia - especialmente na época do regime comunista de Nicolae Ceausescu -, o orgulho permanece em torno da figura vista como justiceiro e responsável pela independência nacional. A terra natal de Vlad Tepes está na lista dos patrimônios mundiais da Unesco e é a introdução perfeita para um tour pela Transilvânia.

  • Dolores Roux/UOL

    Parte baixa da cidade, vista da Torre do Relógio, em Sighisoara, na Romênia


Se a ideia é buscar raízes medievais, nada mais justo do que se hospedar na citadela. As opções dividem-se basicamente entre albergues e hotéis relativamente luxuosos para a região. O Hotel Sighisoara mostra-se um irresistível convite ao hedonismo, com um bucólico restaurante coberto por parreiras na parte de trás (www.sighisoarahotels.ro). Do mesmo nível, a Casa Wagner oferece aconchego e comidinhas tipicamente locais, como o delicioso queijo de cabra produzido na região (www.casa-wagner.com). Opções mais baratas podem não significar necessariamente desconforto. O Burg Hostel (www.ibz.ro) tem restaurante próprio, internet, lavanderia e é sinônimo de limpeza e calmaria, ao contrário de alguns albergues.

A nordeste da praça principal (Piata Cetatii) está a Torre do Relógio, cartão-postal da cidade. As lendas em torno da construção do século 13 (reconstruída e restaurada mais tarde entre os séculos 17 e 19) vão desde a figura de Vlad até as badaladas do relógio à meia-noite, quando uma das figuras de madeira sai do alto da torre sobre a pequena comunidade. A história da cidade orginalmente saxônica conhecida como Castrum Sex (Fortaleza Seis) pode ser vista no Museu de História. Apesar de quase todas as explicações estarem em romeno, ilustrações de Joseph Bacon, fundador da antiga Sighisoara, peças de cerâmica, objetos da escola de farmácia antiga e móveis de estilo medieval explicam a evolução dos fatos. 

Situada sob a torre está a Câmara de Tortura. Trata-se da passagem sul para a Torre do Relógio, que após ser fechada em 1556 por causa de um incêndio, passou a ser a sala onde vítimas, como suspeitos de bruxaria, eram amarrados e esfolados antes de serem desmembrados (uma engenhoca com cordas era responsável por afastar braços e pernas do torturado). O ar pesado arrepia os curiosos. A poucos metros dali, há o pequeno Museu de Armas Medievais.

O lugar onde Vlad nasceu fica a passos da torre. Envolta em mistérios, a casa era, em 1431, uma das três residências-armazém da Praça Muzeului. No número 6, especificamente, a sombra da Torre do Relógio invadia a casa enquanto uma mulher cujo nome foi perdido na posteridade dava à luz Vlad Tepes, que viria a ser o Cavaleiro da Ordem do Dragão. Hoje há uma referência singela a ele em uma placa do lado de fora da casa. Na parte de baixo, fica o restaurante Casa Vlad Dracul, longe de ser dos melhores da cidade.

Ao norte da Torre do Relógio encontra-se um monastério, hoje luterano, de 1298. O convento esteve em reforma entre 1484 e 1680. No verão, há recitais de órgão ao público. Dali para o centro da cidade alta são alguns passos. O coração da citadela é composto por algumas lojinhas e cafés que dão um toque agradabilíssimo à primeira refeição do dia. Sentar algumas horas e observar o ritmo medieval que ainda dita a rotina de Sighisoara é essencial para conhecer o espírito da Transilvânia. Não perca, por exemplo, os deliciosos muffins e tortas do International Café, feitos com extrema delicadeza.

Do lado oposto à praça, na outra ponta da cidade, está a parte mais pitoresca, uma escada de 175 degraus. A construção de meados do século 17 fica sob uma cobertura de madeira com teias de aranha e leva a uma escola. Ao lado, uma igreja de altares góticos fundada em 1345 e a entrada do Cemitério Saxão.

Nas últimas semanas de julho é comum o festival de artes medievais tomar as ruas da citadela, com performances e músicos vestidos a caráter. Em agosto, Sighisoara tem um Festival Cultural Interétnico.

 

  • Dolores Roux/UOL

    Busto em homenagem a Vlad Tepes, em Sighisoara, na Romênia

A parte baixa da cidade tem poucas características medievais, com construções mais modernas e menos interessante para o turista. Mas há pontos agradáveis como a Praça Hermann Oberth, onde se pode tomar um café e comer pizza, e escutar conversas em romeno, alemão arcaico e dialetos como o húngaro magyar.

As estações de trem e de ônibus centrais de Sighisoara ficam a 20 minutos andando da citadela e a cinco minutos da parte baixa da cidade. Apesar do apoio ao turista ser escasso - como o Centro de Informação Turística (do lado oposto à Torre do Relógio e outro na estação de trem) - há alguns caixas eletrônicos que permitem sacar dinheiro na moeda local e pontos de acesso à internet.

Para compensar o serviço turístico fraco, a Romênia tem uma das maiores malhas ferroviárias da Europa e é bem servida de trens para todas suas cidades. Muitos são extremamente lentos e requerem paciência. Mas ainda são a melhor maneira de se chegar à Transilvânia. Alugar um carro custa consideravelmente mais caro. Os ônibus, por sua vez, quase não existem. Portanto, a melhor maneira de se chegar à Sighisoara é de trem. Há mais de quatro trens partindo diariamente da principal estação de Bucareste, Gara de Nord. O preço varia de acordo com a velocidade. A viagem é ainda uma grande chance de observar o lado agrícola do país, com detalhes e personagens não comuns na capital. Há ainda trens que partem da capital húngara, Budapeste.

Se a Romênia já se mostra uma caixinha de mistérios e controvérsias em torno da própria história - um dos mais fortes governos comunistas do Leste Europeu deu fim ao regime fuzilando Ceausescu e toda sua família -, a figura em torno de Vlad causa ainda mais polêmicas dentro e fora do país. Havia a ideia de se construir o parque temático Draculândia, no sudoeste de Sighisoara, com direito a sorvete sabor alho, algodão doce cor de sangue e um centro para pesquisa sobre vampiros, mas o projeto rapidamente foi rejeitado por grupos como a Unesco e a Sociedade da Transilvânia do Drácula, que temiam misturar investigação acadêmica com sensacionalismo. Ainda hoje há quem defenda a ideia do parque, desta vez em Snagov, a 40 km de Bucareste, onde Vlad está enterrado.
 

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