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Soldados arrependidos guiam tour por área do conflito Israel-Palestina

Marcel Vincenti

Do UOL, em Hebron (Cisjordânia)

02/10/2013 07h50

Parado em uma rua íngreme da cidade de Hebron, na Cisjordânia, o ex-soldado israelense Illian Fatchi aponta para um agrupamento de casas antigas e sujas, levantadas em uma colina bem à sua frente, e conta, de maneira pausada: “lembro que, uma noite, três pneus em chamas vieram rolando lá de cima em nossa direção. Não sabíamos o que queriam com aquilo, mas nossa resposta foi brutal: atiramos centenas de vezes, incluindo granadas, contra as casas. Até hoje não sei quantas pessoas podem ter morrido com o nosso ataque”.

A história é ouvida por 19 turistas que, após visitarem os monumentos sagrados de Jerusalém, escolheram fazer uma incursão a um dos lugares mais tensos do Oriente Médio. O “passeio” é promovido periodicamente pela “Breaking the Silence”, entidade formada por ex-membros do Exército israelense que, ao fim do serviço militar, resolveram contar ao mundo suas experiências nos territórios ocupados da Cisjordânia. 

O bairro de onde saíram os pneus e que depois foi bombardeado pelos soldados é um dos setores árabes da cidade de Hebron e, para Illian, aquela noite de 2002 condizia com sua dura rotina de trabalho. O levante palestino conhecido como Segunda Intifada (que teve como estopim o fracasso das negociações de paz de Camp David, em 2000, e uma incursão do líder israelense Ariel Sharon à área da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém) estava em seu auge. 

Revoltados com a atitude de Sharon (Al-Aqsa é a terceira construção mais sagrada do islamismo) e com as condições de vida na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, grupos palestinos organizariam, durante a Segunda Intifada, centenas de ataques contra Israel, que sempre responderia com violência ainda maior. Hebron (ou Al-Khalil, como chamada pelos árabes) era um dos centros nervosos deste conflito: parte dos que as Nações Unidas definiram como território árabe depois da Segunda Guerra Mundial, mas ocupada por forças israelenses desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a cidade abriga o túmulo de Abraão, figura bíblica sagrada para judeus e muçulmanos.

  • Marcel Vincenti/UOL

    Crianças de uma creche judaica cruzam com policiais e arame farpado no centro de Hebron

A partir da década de 1970, famílias israelenses (principalmente judeus ultraortodoxos) começaram a ter ajuda de seu governo para estabelecer moradia em Hebron, em uma ação tida como ilegal pelas Nações Unidas. Em 2002, o soldado Illian Fatchi estava na cidade para defender esses colonos (que na época já somavam quase 500 pessoas) da fúria palestina que movia a Segunda Intifada.

“Controlávamos a vida das famílias palestinas que moravam aqui”, lembra ele. “Limitávamos seus movimentos pela cidade, desapropriávamos casas para transformá-las em postos de vigilância e, se houvesse algum ataque contra nós, impúnhamos toques de recolher que trancavam as pessoas dentro de suas moradias durante semanas”.   

“Mesmo que houvesse ataques de militantes palestinos contra nós, os abusos que o Exército praticava contra a população civil eram injustificáveis”, continua Illian. “E nossa missão era defender colonos israelenses que se estabeleceram aqui de uma maneira totalmente discutível”.

Quebrando o silêncio   

Illian resolveu se juntar à organização “Breaking the Silence” em 2005, após terminar seu serviço militar. A organização, cujo escritório funciona em um bairro judeu de Jerusalém, tem uma posição altamente crítica a Israel. “A missão de Israel é tornar insuportável a vida da população palestina que vive em Hebron e outras cidades da Cisjordânia, fazê-los ir embora e abrir espaço para que mais colônias judaicas sejam estabelecidas”, afirma ele . “Já o objetivo da 'Breaking the Silence' é mostrar que há israelenses que não concordam com esses métodos e que querem expor ao mundo as más condições de vida dos palestinos”.

  • Marcel Vincenti/UOL

    Mulher sobrevivente do Holocausto protesta contra o tour que leva viajantes para conhecer o centro histórico de Hebron: "é um lugar sagrado e temos o direito de morar aqui", diz ela

Para divulgar essa situação, a “Breaking the Silence” realiza tours periódicos que saem de Jerusalém e levam turistas até o centro histórico de Hebron (30 km separam as duas cidades).

Graças ao chamado Protocolo de Hebron, firmado por Israel e Yasser Arafat em 1997, Hebron é hoje dividida em duas áreas: o setor H1, administrado pela Autoridade Palestina e onde vivem mais de 140.000 pessoas, e o setor H2, que abriga cerca de 500 colonos judeus, 30.000 palestinos e é controlado pelo governo israelense.

  • Arte/UOL

    Mapa mostra a atual divisão de Hebron: o tour é feito pela área H2, onde estão as colônias judaicas e o Túmulo dos Patriarcas

O ônibus estaciona dentro do setor H2 e, tão logo descem do veículo, os turistas são cercados por duas dezenas de policiais israelenses (um deles, com uma câmera, filma todos os presentes). “Eles não estão aqui para proteger vocês dos palestinos, mas sim dos colonos”, explica Illian.

Segundo ele, os tours realizados pela “Breaking the Silence” são repudiados pela comunidade judaica local, que chama os ex-soldados de “traidores” e, não raro, arremessam pedras na direção dos forasteiros.

O grupo mal entra no centro histórico de Hebron e já recebe uma amostra dessa hostilidade: uma senhora se aproxima subitamente dos turistas e, mostrando números tatuados em seu braço, grita em inglês: “eu estive em Auschwitz e meus parentes morreram em campos de concentração. Não queremos mais ser perseguidos. Temos todo o direito de morar aqui”.

Com 86 anos, a polonesa Anna Szpilman conta sua história: “vi minha família ser destruída no Holocausto e Israel foi nossa única esperança para sobreviver. Hebron é um lugar sagrado para os judeus e esses soldados [referindo-se aos membros do “Breaking the Silence”] só querem destruir nossa imagem”.   

O tour entra no coração do centro histórico de Hebron e mostra o apartheid que existe entre as comunidades judaica e árabe na cidade: a população que vive no setor H1 (árabes) não pode ingressar no setor H2. Já os palestinos que moram no setor H2 (que abrange o centro histórico de Hebron) são proibidos de entrar nas ruas em que vivem os colonos judeus – que, por sua vez, andam armados com metralhadoras Uzi para qualquer eventualidade.

  • Marcel Vincenti/UOL

    Estrelas de Davi marcam as portas do que era um centro comercial palestino em Hebron

O resultado dessa separação dentro do setor H2 são ruas cheias de barricadas, arames farpados e hordas de soldados israelenses fazendo patrulha. Para manter árabes e judeus bem distantes uns dos outros, o Exército desativou o comércio da rua Shuhada, que costumava abrigar diversas lojas de comidas e roupas administradas por árabes.

Hoje completamente deserta, a rua funciona como uma linha que separa palestinos de israelenses (e é local onde os primeiros não podem passar sob hipótese alguma – apenas alguns deles têm permissão para fazê-lo). Para marcar território, colonos judeus pintaram a estrela de Davi nas portas de muitas das lojas desativadas.

Hebron é citada no Livro do Gênesis, mas o cenário da rua Shuhada caberia muito bem nos versículos do Apocalipse. O lugar, porém, não assusta a população judaica que vive na área: sob prédios com marcas de tiros nas paredes, uma professora conduz tranquilamente um grupo de crianças de uma creche local. Cruza com uma patrulha de soldados pesadamente armados e com meninos que, de quipá na cabeça, tiram ervas-daninhas de um terreno abandonado.

O grito em hebraico de “traidor”, direcionado pelos civis ao soldado Illian, é ouvido algumas vezes no caminho.  

Túmulo dos Patriarcas

É inegável que Hebron é parte fundamental da história dos judeus, e esse é o principal argumento dos colonos que vêm se estabelecendo no centro e nos arredores da cidade: segundo sua fé, o lugar está profundamente vinculado às biografias do patriarca Abraão, do líder israelita (e sucessor de Moisés) Josué e do rei Davi.

A população judaica local também usa um precedente forte para justificar a presença de tantos soldados ao redor de suas casas: em 1929, quando a região estava sob protetorado britânico, 67 judeus foram assassinados por árabes em Hebron. Era uma época em que, devido ao antissemitismo na Europa e ao fortalecimento do movimento sionista, voltava a aumentar o número de judeus em diversas localidades nos arredores de Jerusalém. O massacre desmanchou a comunidade judaica na cidade.    

  • Marcel Vincenti/UOL

    Em Hebron, poucos palestinos são autorizados a circular pela rua Shuhada

Hebron adquiriu características muçulmanas após as invasões islâmicas no século 7 d.C., época em que o túmulo de Abraão e de sua família foi transformado em uma mesquita (no século 12, o edifício seria convertido em uma igreja pelos cruzados, mas Hebron voltaria a ser fortemente islâmica nos séculos seguintes, principalmente durante o domínio otomano). E esse sítio ainda é o principal símbolo religioso da cidade.

Conhecido como Túmulo dos Patriarcas, o lugar abriga o que seriam os corpos de Abrãao e de sua família (entre eles Isaac e Jacó), e possui espaço de orações tanto para judeus como para muçulmanos (o templo é mais acessível que outros lugares de Hebron aos palestinos locais). Para evitar hostilidades, o tour raramente conduz os turistas para dentro do lugar, mas conta uma história que explica bem como o radicalismo pode moldar as relações em Hebron. 

Em 1994, o médico judeu Baruch Goldstein – que vivia no assentamento de Kiryat Arba, ao lado de Hebron – entrou na mesquita do Túmulo dos Patriarcas e matou a tiros 29 muçulmanos que rezavam no local. Goldstein foi dominado e morto por pessoas que não foram atingidas, mas ganhou uma suntuosa sepultura em Kyriat Arba, hoje ponto de peregrinação para judeus de extrema direita.

Quando consideram o local seguro, os guias do “Breaking the Silence” levam os turistas até o túmulo de Goldstein – percurso que não ocorreu quando o UOL esteve na cidade.

A intenção dessa visita, segundo Illian, é mostrar “como o radicalismo pode ser contagioso”. Segundo o site da organização palestina Brigadas Al-Qassam, considerada terrorista por diversos países do mundo, Hebron foi a cidade de origem de boa parte dos homens-bomba que atacaram Israel durante a Segunda Intifada.

AVISO

Os tours do "Breaking the Silence" saem do Centro Internacional de Convenções de Jerusalém (Binyanei Ha'uma) e custam 100 shekels novos (cerca de R$ 63) por pessoa. Note que o tour só é realizado quando os guias consideram que Hebron está segura o suficiente para levar turistas até lá. Na última semana, por exemplo, muitas incursões à cidade não foram realizadas pois, por ocasião do aniversário da Segunda Intifada, o local foi palco de confrontos entre palestinos e israelenses. Tenha em mente que trata-se de uma viagem que apresenta riscos, visto que Hebron é um lugar com centenas de soldados armados e uma população sob clima de tensão constante.

Para fazer parte de um tour, entre no site do "Breaking the Silence" e registre-se em www.breakingthesilence.org.il/tours/1

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