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O poder do hábito em São Paulo: rotinas simples que podem melhorar a cidade

Marcela Braz

Colaboração para o Urban Taste, de São Paulo

03/07/2019 17h00

Quando a Copa do Mundo estava rolando por aqui, os torcedores japoneses coletaram o lixo dos estádios após os jogos, para nosso espanto e admiração. Quatro anos depois, durante o Mundial na Rússia, os brasileiros reproduziram o costume e, em ambas as ocasiões, isso virou notícia e viralizou no Whatsapp. Mas, no Japão, ser responsável pelo seu próprio lixo e pelo cuidado coletivo do espaço público não é algo a ser noticiado: é um hábito, assim como escovar os dentes todos os dias. E nós podemos fazer igual ou melhor no nosso dia a dia, mesmo numa megacidade como São Paulo. Basta inserir essas pequenas ações na nossa rotina e torná-las automáticas.

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"Se você agir, de repente você é aquilo que você faz. Nossa vida é feita de pequenos gestos. A transformação a partir do hábito pode ser uma coisa duradoura, até mais eficaz do ponto de vista individual e social", acredita Mauro Calliari, administrador de empresas, mestre em Urbanismo com foco em espaços públicos e caminhabilidade. Ele também é autor do blog "Caminhadas Urbanas" e do livro "Espaço Público e Urbanidade em São Paulo".

Aliás, o livro retoma o momento em que nós, paulistanos, nos distanciamos do espaço público, quando os carros começam a dar conta das ruas. A situação piorou com a violência das décadas de 1970 e 1980 e chegou "ao fundo do poço" na de 1990, quando parece ter se consolidado a sensação de falta de pertencimento à cidade. E dela não pertencer a nós.

Isso deve ter influenciado a cultura de reclamar sobre os problemas urbanos e a falta de atitude dos políticos, mas não agir, nem com um pequeno gesto, nem com a denúncia para a prefeitura. Sem contar as graves falhas de zeladoria por parte do município, que deixa as ruas em situação de abandono. "Medidas populares, como a Lei Cidade Limpa e o PSIU estão sendo ignoradas", aponta Gabriel Rostey, consultor em política urbana, patrimônio cultural e turismo, além de ser membro do Conselho Municipal de Política Urbana.

Além disso, Rostey integra o Conselho Participativo da Prefeitura Regional Sé. Por isso, testemunhou que a máquina pública não tem estrutura para fiscalizar a cidade e identificar suas falhas. "O subprefeito já me disse que não temos fiscais, então vamos atrás das denúncias da população. Jogam pra ela a responsabilidade, mas nem publicizam isso ou fazem campanhas. Se [alguém] não denuncia, o negócio fica parado", expõe.

Em abril deste ano, a prefeitura iniciou o projeto Mutirão nos Bairros, para fazer capinação, limpezas, varrição, pintura de guia, poda de árvore, despoluição mecanizada de córrego, tapar buracos nas vias e alinhamento e troca de tampas de bueiros. Isso vai rolar até o fim de maio em algumas regiões da cidade. Mas são ações pontuais, embora, segundo a prefeitura, o investimento na área subiu para R$ 1,5 bilhão. Antes era de 500 mil.

A boa notícia, lembra Calliari, é que estamos vivendo um momento de transformação lenta, de baixo para cima, de retomada das áreas urbanas pela população. Entre os exemplos de mudança da cidade estão a Paulista Aberta e a reforma da Praça a Roosevelt. "Tem gente plantando árvore, cuidando de praça, empresas cuidando do espaço público. Todas essas pessoas transformam um pedacinho ou pedação de onde elas vivem", observa.

E as redes sociais podem multiplicar essas ações, como mostrou o desafio viral #TrashTagChallenge, ou desafio do lixo. A proposta é tirar uma foto do antes e do depois de alguma área que precise ser limpa ou que necessite manutenção. O post gerou iniciativas em parques, estradas, praias e cidades de diversos países. E nos incentiva a sair da dinâmica da culpabilização: não importa quem jogou o lixo, as consequências do destino inadequado de resíduos chega para todos nós.

Mas isso não significa não acionar os políticos ou instituições responsáveis. "Não dá pra falar: 'deixa que eu faço, não tô nem aí pra prefeitura'. Ela tá devendo em zeladoria, em velocidade, em transparência. A gente não pode deixar de cobrar e trabalhar junto. Todas as coisas se complementam", acredita Calliari.

Nessa pegada, os especialistas dão algumas dicas de hábitos para inserir na nossa rotina. É uma forma de participarmos mais da vida na cidade de forma positiva, a trazer benefícios para todos. Bora lá?

Caminhar pela cidade

Davidson Luna/Unsplash
Imagem: Davidson Luna/Unsplash

Pode parecer pouco, mas é um bom começo. Calliari explica que um terço dos deslocamentos é feito a pé e dois terços juntam a caminhada com outro transporte. "Não consigo pensar em recolher o lixo se eu não estiver na calçada", lembra. Andar é experienciar a cidade em determinada velocidade, em contato com as pessoas, animais e espaços. "Você vê o mundo de uma maneira que quem tá dentro de um carro ou ônibus não consegue ver. Todos os outros hábitos derivam de um: o de estar na rua. O andar é transformador, porque te abre a cabeça pra outras coisas que você não teria pensado."

Praticar a civilidade: ter atenção e educação para com as pessoas

Danilo Verpa/Folhapress
Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Sim, os paulistanos geralmente estão estressados e com pressa quando andando pelas ruas da cidade. Mas simplesmente ser educado pode fazer a diferença na vida de outra pessoa, sem contar na sua. E, quem sabe, gerar um efeito dominó do bem. "Uma das acepções de 'urbano' no dicionário é 'civilizado', 'cortês', e isso deve ser desenvolvido como hábito", aconselha Rostey. Isso se traduz em esperar as pessoas saírem para então entrar no metrô, ouvir música com fones de ouvido, deixar o lado esquerdo livre na escada rolante para quem está com pressa, não tomar a calçada inteira quando estiver andando em grupo, limpar o que sujou e estar atento às pessoas no seu entorno.

Denunciar problemas urbanos

Reprodução
Imagem: Reprodução

Calçadas em péssimo estado, buracos na rua e lâmpadas queimadas, entre outros, podem ser denunciados pelo aplicativo SP156, que gera números de protocolo. Também dá pra ligar para o 156 e acompanhar a solicitação pelo site da Prefeitura de São Paulo.

Plantar e cuidar de árvores

Davi Costa/Unsplash
Imagem: Davi Costa/Unsplash

As árvores regulam a umidade e temperatura do ar, interceptam a água da chuva, proporcionam sombra, são barreiras contra ventos, ruídos e alta luminosidade. Diminuem a poluição do ar, funcionam como corredor ecológico (abrigam animais e ajudam outras espécies de plantas a se desenvolverem) e tornam a cidade mais bonita e agradável. E elas fazem tudo isso sozinhas, só precisam ser plantadas e cuidadas. Felizmente a prefeitura tem uma campanha permanente de incentivo à arborização, prevista por lei. Na prática, cada cidadão tem direito a receber até cinco mudas gratuitas, a serem plantadas dentro da cidade de São Paulo. Veja abaixo em quais viveiros você pode buscar a sua.

Vai lá:

Viveiro Manequinho Lopes
Parque Ibirapuera
Avenida Quarto Centenário, 1288, Ibirapuera, São Paulo.
Segunda a sexta, das 8h às 16h.
Telefone: (11) 3887-6761

Viveiro Arthur Etzel
Parque do Carmo
Avenida Afonso de Sampaio e Sousa, 951, Itaquera, São Paulo.
Segunda a sexta, das 9h às 16h.
Telefone: (11) 2742 8833

Viveiro Harry Blossfeld
Parque Cemucam
Rua Mesopotâmia, s/n, Jardim Passárgada, Cotia, São Paulo.
Segunda a sexta, das 7h às 16h.
Telefone: (11) 4702-4395

Participar ativamente da sua comunidade

Paulo Gabriel Bassino/Unsplash
Imagem: Paulo Gabriel Bassino/Unsplash

Isso inclui se envolver em reuniões de condomínio, virar síndico do prédio, fazer parte de associações de bairro ou se candidatar para conselhos (de saúde ou de transporte, por exemplo). "Pra mim foi um caminho. Se toda semana eu preciso ir na prefeitura, depois de um tempo, isso passa a fazer parte de você e transforma sua identidade", conta Calliari. Fora isso, Rostey indica fazer articulações com moradores ou frequentadores de um espaço público, mobilizar a comunidade para transformar praças, criar mutirões de limpeza, planejar eventos e atividades. É o caso do coletivo Ocupe & Abrace, que cuida da Praça da Nascente, na Pompéia. Até 2013, a área era abandonada, e foi um grupo de moradores do bairro que recolheram o lixo, plantaram mudas e instalaram bancos e balanços. O espaço foi completamente transformado e hoje é ponto de encontro para quem vive na região (e seus visitantes).

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