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Costurando momentos: o renascimento do bordado em tempos tecnológicos

Bordado de Pedro Luis - Pedro Luis/Divulgação
Bordado de Pedro Luis Imagem: Pedro Luis/Divulgação

Mariana Belley

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

11/06/2019 17h10

De um lado, o relógio, o celular, o trânsito; do outro, o tecido, a linha, o nó, as mãos. O silêncio. Há quem diga que trabalhos manuais são afazeres clássicos de pessoas mais velhas. E são, mas não só. A prática, que por anos ficou conhecida como passatempo de idosos, ganhou protagonismo nas mãos de jovens que elevaram o artesanato a outros patamares: o de refúgio contra dias agitados, de escape à pressa, de contemplação ao feito com as próprias mãos. O tempo entre a linha e a agulha são armas cada vez mais poderosas escolhida por pessoas que buscam desacelerar diante de um mundo que pisou no acelerador e está cada vez mais digital e tecnológico. Mais: o bordado foi ressignificado como uma técnica que visa o descanso do corpo e da mente, a expressar emoções e a desconectar do mundo on-line para se conectar com o universo off-line.

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"Não moro mais em São Paulo, mas engraçado que foi lá que retomei o bordado como prática (depois de muito anos sem pegar nas agulhas). Lembro que saía do trabalho bem apressada, pegava o ônibus e cruzava a cidade para ter aquelas horinhas de artesania. Era como estar em uma ilha de sossego, com conversas afetuosas, chá na mesa, vendo os trabalhos da professora Flavia Lhacer pela casa dela. Foi um jeito de delimitar uma pausa para a rotina na cidade quando ela começou a ficar pesada demais", conta a redatora Raquel Chamis, 35 anos, que olha para o bordar com olhos apaixonados "O bordado permite uma tradução do sentimento em algo visível. Sempre existe tensão na pontinha dos dedos de quem borda - um desejo, uma tristeza, uma alegria."

Reprodução
Imagem: Reprodução

Flávia Lhacer, 35 anos, a quem Raquel cita, é artista plástica, bordadeira e professora de bordado livre. Gosta de reunir um grupo pequenino de alunos ao redor de uma mesa de madeira em sua casa para ensinar. Entre um ponto novo e um gole do chá, que ela prepara com esmero, os ensinamentos vão acontecendo, as conversas desabrochando, e os desenhos vão ganhando forma e textura. "Acho que as pessoas procuram os cursos manuais porque a vida está muito chata no formato que está e elas precisam se sentir potentes. Elas não conseguem exercer criatividade em quase nada do cotidiano", diz a artista, que ganhou amor pelo ponto a ponto após ver a tia e a avó paternas. "Eu aprendo muito com cada um dos alunos e conheço as pessoas através dos seus pontos."

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Imagem: Reprodução

Mais do que despertar uma criatividade adormecida por conta do ritmo e da pressa que acompanha grandes cidades, o artesanato é uma poderosa fonte de conexão consigo mesmo, uma espécie de carinho no autocuidado. O artista Pedro Luís, 30 anos, também se expressa através das linhas. "O trabalho manual tem muitos benefícios já comprovados cientificamente, e tenho certeza que ele traz muitos benefícios internos também. É um momento que você passa só com você, colocando atenção e sentimento no que está fazendo, no movimento da linha e da agulha você também está mexendo em questões internas, ainda que sem querer. Acredito que se ficamos no rush da cidade, vamos perdendo um pouco essa sutileza. Acredito que o renascimento vem dessas duas coisas combinadas: autocuidado + vontade de desacelerar."

Existem infinitas possibilidades de aplicar a linha e dar vida a um trabalho super lindo e delicado: existe o bordado livre, aquele feito em tecidos, como o algodão cru, e não segue regras. Basta ter por perto o desenho ou a escrita e acionar a criatividade. Há a alternativa de bordar em camisetas, como fazem muito bem a marca Giu Couture e Mermaidss; há também quem usa e abusa do toque e da sutileza das agulhas para bordar em pétalas de flores e folhas, como Clarice Borian e Paula Costa; ou, ainda, dar vida nova a fotos antigas, como faz Pedro Luís na sua série "trabalhos autobiográficos com a memória alheia".

O bordado visto de pertinho. Christina Cupertino, 67 anos, começou a bordar depois que se aposentou. Foi atrás de atividades como o tricô e o crochê e, em 2018, se encantou pelo bordado. "Hoje bordo diariamente e faço todos os cursos que consigo. Adoro o processo criativo, os desafios dos trabalhos mais elaborados e aquilo que tricô e crochê já me davam, que é um ritmo mais lento de viver o processo de finalizar uma peça." Processo este que o bordadeiro acompanha minuciosamente. A começar pela escolha do desenho, das cores, das agulhas, do tecido - que passa, antes de tudo, pela aprovação do toque. Passasse, depois, pelo formato: vai ser um quadro ou uma camiseta? Escolhe-se as companhias: chás, amigos, natureza, músicas. Todos estão convidados e são bem-vindos! O caminho que se percorre do primeiro ao último ponto é bonito de ver. Mais do que pressão na ponta dos dedos, o bordado libera concentração, paciência, olhar atento e cuidadoso, calma. Fazer e refazer, tocar. Movimentos tão prazerosos, mas esquecidos diante do computador.

Reprodução
Imagem: Reprodução

"O que me encanta é acompanhar a ideia ganhar forma, o trabalho árduo da criação se transformando em uma peça apreciada. Diariamente eu cozinho, faço tricô, crochê ou bordo. Todas essas atividades me dão um sentido de produtividade diferente do que eu tinha no trabalho, uma sensação de investir nas coisas básicas da vida. A construção de uma peça de artesanato envolve conhecimento, desprendimento, generosidade e cuidado comigo mesma e com os outros." diz Christina. Raquel Chamis concorda: "No fundo, lidar com o que é tátil nos aguça a humanidade: exige colocar as mãos no mundo e não ficar vendo tudo à distância, com um celular no meio."

Vai lá:

Novelaria

Rua Mourato Coelho, 678 - Vila Madalena
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SESC

Aulas em diversas unidades
Mais informações no site.

Couture Lab

Rua Cardeal Arcoverde, 1749 - Pinheiros
Mais informações no site.

Cia do Tricô


Rua Tabapuã, 806 - Itaim Bibi
Mais informações no Instagram.


Clube do Bordado

Cursos diversos em datas esporádicas.
Mais informações no site.

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