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Path transforma praça quase esquecida em cenário ideal para shows

Jaloo anima o público em apresentação no Festival Path 2019 - Mariana Pekin/UOL
Jaloo anima o público em apresentação no Festival Path 2019 Imagem: Mariana Pekin/UOL

Peu Araújo

Colaboração para o TAB, em São Paulo

04/06/2019 04h01

O Festival Path, que em 2019 foi apresentado pelo TAB, desenhou no fim de semana dos dias 1 e 2 de junho um quadrilátero na região da avenida Paulista, em São Paulo. Abrigando o roteiro de mais de 200 atrações do evento, estavam os hoteis Maksoud Plaza e Tivoli Mofarrej, o Club Homs, o cinema Reserva Cultural e a praça Alexandre de Gusmão, um dos maiores achados da programação de 2019.

A praça que recebeu os dois DJs e as 11 atrações musicais, ali pertinho do Parque Trianon e na beira da Alameda Santos, tem esse nome por causa de um diplomata nascido em Santos e que foi secretário particular do rei D. João 6º. Há também uma escola estadual no Ipiranga, zona sul da capital paulista, que carrega o nome do "avô da diplomacia brasileira". Mas a verdade é que ninguém conhece o local por praça Alexandre de Gusmão.

O espaço é conhecido pela presença policial em dias de manifestações na Avenida Paulista, enquanto suas noites são identificadas pela prostituição de rapazes. É mais fácil dizer "a praça dos michês" do que qualquer nome oficial.

Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

E esse talvez tenha sido um dos grandes acertos da produção do Path. Um endereço conservado, muito bem localizado, pouco utilizado para eventos gratuitos, com tamanho suficiente para suportar milhares de pessoas e ao lado do metrô.

Pois foi lá, nesse tesouro paulistano pouco valorizado pelos produtores culturais da cidade, que milhares de pessoas curtiram shows como Potyguara Bardo, Carne Doce, Jaloo, Quebrada Queer, BNegão com Black Mantra e muito mais.

A estrategista cultural Sarah Brito, que esteve no Path durante o sábado para curtir os espetáculos e palestras, conta sua visão sobre a escolha do lugar. "Acho que a proposta de percurso é maravilhosa, a nova localização me pareceu um avanço maior em relação à acessibilidade, falo econômica mesmo, em relação ao ano passado", afirma. Ela também já prevê outros passos para o festival. "Não vejo a hora do Path ocupar o centro e a periferia."

Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Foi lá que jovens fincaram o pé embaixo de chuva para ver o trio curitibano Tuyo, para após o show pegarem fila para uma foto, um abraço e meia dúzia de palavras com seus ídolos. Foi lá que o cantor capixaba Fabriccio cantou sua mistura de Max de Castro com John Coltrane e Madlib numa temporária cadeira de rodas após um acidente de bicicleta. Ele conta o motivo: "Eu quebrei alguns ossos do joelho, o trânsito de São Paulo é complicado."

A cidade de São Paulo ganhou um novo endereço para eventos de médio e grande porte, e o Festival Path ganhou pontos por ter olhado para as ruas na hora de escolher seu palco e fugir da obviedade.

Mas de que adianta ter um palco bem localizado, com excelente estrutura e não ter cuidado com quem sobe lá? O Path não deu esse vacilo, muito pelo contrário: a programação musical, aberta ao público, foi um dos pontos mais elogiados desta edição. Izabel Muratt, responsável pela área, fala sobre essas presenças:

Acredito que todos os artistas que pisaram no palco neste ano trouxeram uma mensagem de resistência, superação e de unidade, aquilo que chamamos de `tamo junto´. Mesmo com as suas diferenças de estilos musicais e formatos, trouxeram a sua identidade, sua luta, o seu comprometimento. Somos um país enorme, com estilos diversos, e isso que nos faz maravilhoso e nos une

Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Ela fala também como chegou a esse cenário:

O Festival Path traz diversidade em sua essência. Claro que focada em tecnologia e inovação, mas dentro desses temas você encontra inúmeros assuntos que se complementam. Foi pensando nisso, na diversidade, que me baseei para poder montar um line up que entregasse diferentes tipos de estilos musicais, ideias e formatos. Aproveitando o tema e tendo como gancho o cenário político atual, procurei enaltecer ainda mais as questões cotidianas, dando a oportunidade de artistas negrxs, mulheres, LGBQT+ e das quebradas do Brasil expressarem suas ideias em uma área nobre da maior cidade do país

Para manter a aura do Path, a tecnologia também esteve presente nas escolhas musicais, diz Izabel:

A criatividade e tecnologia foram importantes também para a realização da curadoria. Utilizei muito do ambiente digital para entender como cada um dos artistas se comporta nesse universo. Presença, engajamento em causas e até mesmo a forma como divulgam seus trabalhos. Foi assim que me deparei, por exemplo, com artistas fazendo clipe em libras (linguagem brasileira de sinais), grupos cujos integrantes fazem parte do movimento LGBTQ+ e artistas que buscam resgatar a nossa história musical com releitura de ídolos do passado

Mariana Pekin
Imagem: Mariana Pekin

Mesmo em espetáculos em que a tecnologia parece estar distante, como o encontro do BNegão com a Black Mantra cantando o clássico "Racional", lançado em 1975 por Tim Maia, a inovação está ali. Caio Leite, baixista da Black Mantra, fala sobre o relançamento do álbum nas plataformas de streaming. "Esse disco é o lançamento mais recente do Tim Maia nas plataformas digitais. Tem muita gente que acabou conhecendo essa obra agora com o auxílio desta ferramenta digital", afirma.

Na noite de domingo, com BNegão comandando a festa, o público que resistiu ao mal tempo e à lama transmitiu a sensação que a edição 2019 do Path foi bem sucedida. Mesmo sem uma mesa de debates, um workshop ou uma palestra no palco da praça Alexandre de Gusmão, a criatividade e a inovação foram discutidas, questionadas e colocadas à mostra nas apresentações ao público, que recebeu toda a vibe sonora com muito respeito na praça que tem nome de diplomata e ainda pouco celebrada por eventos culturais. Por enquanto.

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