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Mais espaço para as mulheres: o que rolou no primeiro dia de Universa Talks

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Lia Rizzo

Colaboração para Universa

13/07/2020 17h04

Imaginar o que será quando a pandemia estiver controlada pode parecer um questionamento apenas sobre o presente. Porém, quando falamos no futuro da mulher no mercado do trabalho e também em sua situação na sociedade, não há perguntas exatamente novas. O primeiro dia de Universa Talks foi marcado pelo resgate de aspectos já muito críticos. Como lembrou a atriz e roteirista Kenia Maria, defensora dos direitos das negras pela ONU Mulheres, no discurso de abertura do evento, há anos o Brasil está entre os dez piores países para mulheres viverem no mundo. Conforme dados da OMS, o país é o quinto em número de feminicídios e as maiores vítimas - dois terços delas - são negras.

Universa Talks - Kenia Maria - Arte/UOL - Arte/UOL
Kenia Maria é Defensora dos Direitos das Mulheres Negras pela ONU Mulheres Brasil
Imagem: Arte/UOL
Kenia foi nomeada como defensora pela ONU Mulheres há cinco anos, para apoio a duas iniciativa, a Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), e o pacto global "Por um Planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gêneros". Além da luta por espaços igualitários nos ambientes profissionais, na cultura e nas áreas, a atriz atentou para a vulnerabilidade extrema do grupo de mulheres formada por negras, quilombolas, indígenas e trabalhadoras do campo e outras classes que não puderam parar durante a pandemia.

"O Brasil ainda é um país escravocrata. Mais de 60% das trabalhadoras domésticas são mulheres negras, que não deixaram de trabalhar, ainda que seus serviços não sejam considerados essenciais", pontuou Kenia. "Por isso, pensando em chegar a um país 50-50, em que todas as mulheres participem dessa agenda, inclusive as indígenas, é promover o debate dessa pauta com honestidade e atenção".

Racismo, o verdadeiro inimigo

Advogada e especialista em transformações digitais, Lisiane Lemos é também ativista de movimentos nacionais e internacionais pelos direitos de grupos de baixa representatividade. Primeira convidada a falar no painel "O Reset Mundial", conduzido por Tatiana Schibuola, gerente geral de conteúdo do UOL, ela atentou para o fato de apenas cerca de 0,5% das cadeiras de liderança serem ocupadas por mulheres negras e nenhum Conselho de Administração no Brasil contar com conselheiros negros.

Lisiane Lemos  - Arte/UOL - Arte/UOL
LIsiane Lemos é advogada e especialista em transformações digitais
Imagem: Arte/UOL
"Vínhamos em um momento de aumento da visibilidade da causa racial e de minorias, embora ainda existisse dificuldades em transformar as intenções em ação e oportunidades", disse Lisiane sobre o período que antecedeu a pandemia. Num primeiro momento, sua sensação é de que a diversidade ficaria em segundo plano com a crise instalada, já que em suas vulnerabilidades econômicas, as chamadas minorias primeiro precisam pensar em como sobreviver. "Hoje, penso que por força de algumas tragédias que nos atingiram como população negra, nos unimos neste momento de dor em não há espaço para um novo normal. Mas para a construção de uma nova história bem diferente do antes", completou.

Egnalda Côrtes, que após duas décadas de vida corporativa criou um negócio pioneiro para inserir personagens negros na indústria de influência digital, trouxe a questão da disparidade salarial entre profissionais quando observados gênero e raça. Assim como no mercado corporativo, onde mulheres negras ganham quatro vezes menos que mulheres brancas, modelos negras têm remuneração quase dez vezes inferior a pares brancos. No futuro, ela afirma, não deve haver espaço para estas regras. "Não é uma questão de disputa de narrativas, mas de enxergar potência econômica em perfis diversos, se interessar pelas outras histórias e dar valor a todas elas", disse Egnalda. "Acredito que o mercado está disposto a ouvir mais e penso que mulheres podem acelerar isso."

A era da coerência

Não obstante aos papéis individuais, também as corporações precisarão incorporar a diversidade em seus times e atitudes. "É uma grande jornada em que se erra e acerta. Mas precisamos ir além do vender produto e fazer algo que realmente provoque e transforme", afirmou Daniela Cachich, VP de Marketing de alimentos da Pepsico. E o compromisso precisa vir da alta liderança, para que as transformações aconteçam e encontrem eco dentro e fora das companhias. "Vivemos em uma sociedade extremamente preconceituosa, que reforça diariamente vieses inconscientes. O privilégio branco deve ser usado para essa virada".

Daniela Cachich - Arte/UOL - Arte/UOL
Daniela Cachich é VP de Marketing de alimentos da Pepsico
Imagem: Arte/UOL
Há ainda o consenso de que atualmente, discursos que não estejam alinhados a ação ficaram cada vez mais evidentes. E as marcas pagarão o preço. "Empresas não são entidades, são feitas de pessoas. E tudo o que pessoas fazem causa impacto", fala Laura Chiavone, sócia da Sparks&Honey. Para ela, a maior clareza sobre a responsabilidade das empresas - tanto com a comunidade em volta, como com a sociedade como um todo - e as consequências que a falta de coerência entre o que se faz e o que se fala podem acarretar aumenta a possibilidade de mudanças reais e positivas.

Um olhar coletivo e, de novo, diverso é a chave para entender e responder adequadamente a que mudanças serão esperadas. O que, para Lisiane, passa por exemplo por incluir negros nas equipes se o objetivo é implementar projeto antirrascistas. E outras minorias que representem outras causas. "Há ajustes finos para se atentar, mas que podem gerar um grande impacto", explica a advogada. Por fim, também não parece haver mais margem para o chamado "ativismo de sofá". É preciso se posicionar e, como completou Egnalda, "dar a mão para uma mulher negra para começar a mudar a estruturalmente".

Regras no trabalho remoto

É fato que as mulheres terão um papel decisivo na continuidade das principais mudanças necessárias. No entanto, elas estão exaustas. Ainda que o home office seja visto como um caminho sem volta, será necessário que corporações e profissionais encontrem um equilíbrio no pós pandemia.

Laura Chiavone - Arte/UOL - Arte/UOL
Laura Chiavone é sócia da Sparks&Honey
Imagem: Arte/UOL
Laura Chiavone acredita: "o que vivemos hoje não é um modelo a ser seguido, mas uma estrutura a que fomos submetidos num contexto em que ela precisava ser possível". Ao reagir à ameaça da pandemia, Laura crê que não houve tempo para estabelecer regras claras de produtividade, horários e estrutura. O que faz com que as pessoas, sobretudo aquelas que dividem a rotina de trabalho entre cuidados com filhos e casa, estejam sobrecarregadas.

Liderando uma equipe em que mais de 70% dos profissionais são mulheres, Daniela Cachich concorda que estão todos exaustos e que, desde já, é preciso adaptar as cobranças e dia a dia profissional de acordo com as realidades diferentes de cada colaborador. Para ela, as companhias precisarão apoiar seus funcionário na adaptação com um olhar mais humano e de forma a evitar que estejam 24 horas conectados.

Outro ponto de atenção é em relação a acesso digital. "A tecnologia mostrou que o impossível era possível. Como eventos, viagens, reuniões, uma série de situações que correram bem à distância", considera Daniela. "No entanto, hoje temos mais claro o tamanho da desigualdade digital no país. E é preciso entender como usamos o que estamos vendo para melhorar o acesso e não criar mais um filtro que elimine chances de quem já está em situação de não privilégio."

Mulheres no front da mudança

Egnalda Côrtes - Arte/UOL - Arte/UOL
Egnalda Côrtes é CEO da Côrtes
Imagem: Arte/UOL
"O mundo será diferente e as mulheres têm um grande espaço para juntas construírem o futuro que queremos. Sem esperar que ele aconteça, para então reagir", pontuou Laura Chiavone. A questão de gênero será definitiva. "Sofremos mais assédio, somos as mais atingidas em qualquer setor, somos mais vulneráveis", diz Egnalda Côrtes. "Por isso nosso olhar precisa ser considerado", completa ela, lembrando também como plataformas e redes sociais têm sido cobradas em função dos discursos de ódio.

Para Lisiane, a transformação acelerada pela Covid-19 trouxe junto a pergunta chave, não o que as pessoas querem para depois da pandemia, mas o que não fará mais sentido depois dela.

Empreender é a solução?

O segundo dia do Universa Talks 2020 vai falar sobre o cenário de desemprego no Brasil, que afeta especialmente as mulheres, e sobre os caminhos do empreendedorismo, única solução para quem não vê perspectiva no mercado de trabalho.

Teresa Vernaglia, CEO da BRK Ambiental, abre a discussão desta terça (14/7). Em seu speech, a executiva falará sobre a crise sanitária que estamos vivendo e seu impacto sobre as mulheres.

Logo em seguida, será realizado o painel "Apoio ao Caminho Empreendedor", mediado pela jornalista e colunista de Universa Cris Guterres. O debate terá participação de Ana Fontes, CEO e fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), Gal Barradas, Gal Barradas Brand&Ventures, e Verônica Oliveira, fundadora da empresa Faxina Boa.

Universa Talks será realizado dos dias 13 a 17 de julho, sempre às 10h30. Acompanhe pela home do UOL, pelo Youtube, Twitter ou Facebook de Universa. Não é necessária inscrição.

Confira a programação completa do evento.