O Xou de Leticia

Atriz fala sobre a vida de paquita, assédio, nudez e beleza: "Pedi ao médico um peito caído. Acho bonito"

Luiza Souto De Universa
Jorge Bispo/UOL

Duas imagens não descolam de Leticia Spiller: a de paquita —com a qual começou a carreira, ainda adolescente, no Xou da Xuxa, ao lado da rainha dos baixinhos— e a da cabeleireira Babalu, da novela "Quatro por Quatro", que a fez entrar nas casas de milhões de espectadores e conquistar um público mais velho.

Com uma, garantiu um dos cargos mais cobiçados pelas garotas dos anos 1980. Com a outra, viu sua nudez se tornar cobiçada pelas revistas masculinas.

Leticia diz que aprendeu com as duas sem se prender a elas. Aos 46 anos, a dona de enormes olhos azuis jura que não se vê como padrão de beleza, diz que carrega a história em suas rugas e garante que, na hora de colocar próteses, pediu ao médico para deixar o seio caído. "Queria sentir o peso do meu peito."

Mãe de dois filhos, Pedro, 23, e Stella, 8, Leticia fez mais de 20 novelas, mas não se limitou aos folhetins. Hoje, produz cinema, escreve poesia e canta em musicais. Tudo isso com a disciplina herdada dos tempos de Pituxa Pastel, quando folgava dois dias por ano. "Pude fazer coisas que todo adolescente fazia, como dar uma festa em casa, dormir às 4h, e depois ainda acordar às 6h para me apresentar com a Xuxa na chegada do Papai Noel no Maracanã."

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Que padrão?

O perfil da mulher branca, loura, de cabelos lisos e olhos claros —no qual Leticia facilmente se encaixa— foi por muito tempo considerado o padrão ideal de beleza. Era assim com Xuxa e as paquitas. E, por várias gerações, meninas que não se encaixavam nesse estereótipo não se viam representadas nos programas a que assistiam ou nas bonecas que ganhavam, por exemplo.

Leticia, que estrelou novelas, filmes e campanhas publicitárias e estampou tantas capas de revista, não se vê como representante desses padrões. Mas elogia a derrubada deles.

"Acho as mulheres negras, morenas, mulatas as mais lindas. Não acho que eu sou um padrão de beleza. Não mesmo. E fico muito feliz por esse olhar estar se abrindo cada vez mais, porque são tantas as paletas de cores. Temos que aproveitar todos os tipos disponíveis de beleza, de mulher. Lastimo muito que a sociedade brasileira ainda seja machista, racista e homofóbica."

Praticante da ioga e de ritos tibetanos —que mexem com a energia vital e ajudam a manter seu corpo flexível e forte— há mais de dez anos, a atriz carrega aquele ar e discurso zen de quem não gasta energia para alcançar objetivos estéticos.

"A beleza é um estado de espírito, vem de dentro para fora. A gente tem que estar sempre alerta, ter um cuidado interno, porque a mente é a traiçoeira e prega peças, seja pelo ego, seja pela vaidade."

Sua nudez será cobiçada

Ter o corpo nu de Leticia Spiller estampado na capa era o objetivo de várias revistas masculinas. As tentativas foram várias. Ela entrega que ficou tentada no primeiro convite, mas declinou a oferta temendo prejuízos para a carreira. Leticia, que já fez "fotos mais ousadas", nas suas palavras, para o fotógrafo Yuri Sardenberg, em 2016, e ainda posta poses sensuais --caseiras ou profissionais-- no seu Instagram, acredita que a nudez por pura exibição contribui com a banalização do corpo da mulher:

"Mas é uma coisa minha. Cada um faz o que quer do seu corpo. Meu corpo, minhas regras. Agora, tem gente que julga, acusa. Aí, é diferente. Isso é machismo, por parte até de mulheres".

Quanto valeria a nudez de Leticia? R$ 20 milhões. Ou ao menos foi esse o preço que a atriz declarou que cobraria pela exposição, numa entrevista dada em 2013, quando estreou a novela "Joia Rara". Ela ri ao ser lembrada da declaração: "Tem que valer mesmo".

"A nudez pode ser muito linda ou horrorosa. Dependendo de como você mostra, ela pode ser de mau gosto. Jamais criticaria nenhuma atriz que fez. Já vi capas lindas, em que falava: 'Nossa, se eu eu posar, quero que seja assim'. Mas só faço se me pagarem bem. Para mim, nunca compensou", diz.

"Acho que existia uma banalização da mulher com essas revistas. A própria mulher, posando nua, contribuiu para que nós fôssemos vítimas de ataques machistas. Nunca quis ver meu pôster nua no quarto dos meus primos, dos meus irmãos. Acho que não contribui para a gente ser tratada de forma diferente, com respeito."

Minhas rugas, minha história

Leticia afirma nunca ter sentido pressão para manter o dito corpo ideal. No máximo, faz um detox de uma semana, para desinchar. Nas férias, se permite comer de açaí a sorvete. Também não é adepta de intervenções cirúrgicas ou tratamentos estéticos radicais. Diz não acreditar em ilusões.

"Acho que as mulheres têm muito essa ilusão de que vão preencher tudo e vai ficar bonito. A gente tem que ter expressão. Nossa história emocional está nas nossas rugas, nas nossas linhas de vida", diz ela, que, no lugar de procedimentos estéticos, prefere banhos de cachoeira, caminhadas e aulas de dança.

Mas, aos 40 anos, após o nascimento da segunda filha, Stella, de seu casamento com o diretor de fotografia Lucas Loureiro, ela decidiu colocar silicone.

"Eu sempre tive um peito maior que o outro, mas nunca foi um problema. Depois que amamentei a Stella, resolvi colocar uma prótese mamária porque começou a incomodar um pouco. Quando a gente amamenta, depois do segundo, terceiro filho, realmente o peito murcha. Quis fazer para me sentir melhor."

Mas, também na hora de colocar silicone, Leticia não quis criar ilusões.

"Falei para o médico que queria natural, olhando para frente, caído. Queria sentir o peso do meu peito. Acho tão bonito. Mas tem mulheres que convivem muito bem [com as mudanças nos seios] sem fazer. Eu acho bárbaro. Admiro mais ainda essas mulheres que conseguem não fazer nenhuma intervenção."

Um cascudo no assédio

Na TV desde os 15 anos, quando entrou para o elenco do Xou da Xuxa, na pele da paquita Pituxa Pastel, a artista garante que foi apenas fora dos estúdios que sofreu assédio. E uma única vez. O episódio aconteceu quando ela estava grávida do primeiro filho, o ator Pedro Novaes, 23, de seu casamento com o também ator Marcello Novaes.

"Fui fazer um evento com o [ator] Rodrigo Santoro num colégio e, na hora de sair, um infeliz, de 18 anos, passou a mão em mim. Não foi uma simples passada de mão. Ele enfiou o dedo lá", diz a atriz, com o rosto rosado e gesticulando bastante.

"Catei ele pela orelha. Fiquei fora de mim, ainda mais porque estava grávida. Mas era um garoto. Espero que ele tenha aprendido a lição. Não pode mais haver atitudes assim. Os pais têm que ensinar seus filhos a terem respeito pelas mulheres, assim como não se pode mais jogar uma lata de refrigerante pela janela do ônibus. Não existe mais espaço para esse tipo de atitude no país em que a gente vive."

Disciplinada como uma paquita

"Paquita trabalha pra caramba, sabia?", pergunta Xuxa, em uma cena de seu antigo programa, a uma aspirante ao cargo de assistente de palco mais cobiçado pelas garotas da década de 1980. De cabelos longos e franjinha tampando a testa, a jovem Leticia, então com 15 anos, aparece no vídeo sendo testada pela apresentadora e assegura que isso é o que ela sonha. "Eu sempre quis trabalhar em televisão. Quero ser atriz, então quero começar a conhecer isso tudo", justifica a futura Pituxa Pastel do programa Xou da Xuxa, posto que ocupou de 1989 até 1992.

A vida de paquita não era mole mesmo. Com apenas duas folgas no ano, Leticia garante que um dos maiores aprendizados que teve com a rainha dos baixinhos foi mesmo a determinação.

"Uma das principais coisas que eu pude aprender foi a disciplina, a dar conta do trabalho. Faça sol ou chuva, se estou triste, tenho que fazer meu trabalho. Às vezes, a gente está doente, com infecção intestinal, e tem que fazer a peça porque não tem ninguém para substituir", diz.

Mas, antes da disciplina, a gaiatice. Tentando conciliar a rotina como paquita com as aulas de teatro que fazia, Leticia certa vez, aproveitando que sofria de bronquite alérgica na infância, inventou uma crise de asma para não sair em turnê com Xuxa pelo México. Ela só revelou a mentira pregada na rainha dos baixinhos recentemente, no programa "Que História É Essa, Porchat?". Rindo, ainda pediu perdão à ex-chefe.

"Eu queria fazer teatro, ficar com os meus amigos. Para mim, isso era mais importante do que ir ao México", justifica ela a Universa.

Apesar da preferência pelos amigos, não deixou de levar bronca pelas vezes em que deixou de ficar com eles para trabalhar.

"Eu estudava com uma das minhas melhores amigas, e ela falava: 'Poxa, o tempo que eu tenho para ficar com você, no recreio, você dorme'. Era a única hora que eu tinha pra dormir. Mas pude fazer coisas que todo adolescente fazia, como dar uma festa em casa, dormir às 4h, e depois ainda acordar às 6h para me apresentar com a Xuxa na chegada do Papai Noel no Maracanã."

Nunca quis ver meu pôster nua no quarto dos meus primos. Acho que não contribui para a gente ser tratada com respeito

Leticia Spiller

Jorge Bispo/UOL Jorge Bispo/UOL

Eterna Babalu

Só dois anos separam a despedida de Leticia do posto de paquita de seu primeiro papel de sucesso na TV: a cabeleireira Babalu da novela "Quatro por Quatro" (1994). Após o estouro da personagem --sua mais lembrada até hoje--, nunca mais saiu do ar. Ainda assim, tinha medo de não ver a carreira deslanchar por causa do passado de animadora de baixinhos ao lado de Xuxa.

"Olha, existia um preconceito no início. Depois, não. E as pessoas ficaram um tempão sem lembrar que eu tinha sido paquita. Agora que eu e Xuxa retomamos a relação, que as paquitas resolveram se encontrar, estão lembrando mais. Acho legal. Fez parte da minha história, contribuiu muito profissionalmente", diz.

Assim como ao papel de paquita, Leticia também está grudada à persona de Babalu, como ainda é chamada pelo público. "O Raí e a Babalu são queridos até hoje", diz citando o mecânico Raí, seu par na trama, vivido pelo ator Marcello Novaes, seu ex-marido e também um dos seus melhores amigos. "A gente até brinca, pensa como seria a vida deles hoje em dia. Em cinco minutos, já inventei várias coisas, que eles teriam vários filhos, metade adotada, e por aí vai..."

Nossa história emocional está nas nossas rugas, nas linhas de vida

Leticia Spiller

Filho no sapateado, filha no futebol

Com Marcello, a atriz teve Pedro. E cora ao falar do primogênito, hoje protagonista de "Malhação". "É um menino tão bom, tão livre de preconceitos, de amarras, sabe?", diz, tomando para si e para o ex-marido os créditos pelo comportamento do rapaz.

Leticia acredita que é importante deixar os filhos livres para escolher o que bem entendem, como a roupa a usar e as brincadeiras a jogar. A filha, Stella, de 8, por exemplo, adora futebol. Pedro estudou dança.

"Houve uma época em que o Pedro se apaixonou por uma menina que fazia sapateado. Dei uma força, comprei um sapato e ele ficava dançando. Poderia ter mais meninos fazendo aula de dança. Meu irmão, que é historiador, tinha o sonho de dançar balé. Meu pai não deixou. Mas ele está com 94. Minha mãe tem 87. Eles vêm de uma geração ainda mais machista, conservadora."

Maconha liberada, graças a Deus

Em abril de 2018, o filho de Leticia foi detido com maconha durante uma blitz policial, na estrada entre Saquarema e Maricá, na região dos Lagos (RJ). Ele estava na companhia de uma namorada e três amigas, além de uma criança, filha de uma delas. Leticia nem esquentou com o episódio.

"Uma besteira, gente. Nem era dele. Só que as pessoas se aproveitam para criar celeuma. Uma caretice. Acho que a maconha tinha que ter sido liberada. Agora já foi, medicinalmente [no início de dezembro, a Anvisa autorizou o registro e fabricação de remédios à base da maconha no país]. Graças a Deus. Vai me dizer que a maconha é pior que o álcool, que está aí para todo mundo?", questiona, para depois frisar que confia plenamente no filho, que hoje mora com o pai.

"Fico com saudade. Ele já virou um homem. A gente não se vê tanto quanto eu gostaria. Mas entendo que ele tem que seguir o caminho dele."

Vai me dizer que a maconha é pior que o álcool, que está aí para todo mundo?

Leticia Spiller

Nada contra, mas...

"Graças a Deus, eu continuo produzindo", comemora Letícia, que, no ano passado, produziu e atuou nos filmes "Eu sou Brasileiro" e "As Almas que Dançam no Escuro", esse último em parceria com Marcos de Brito. Em janeiro, lança uma música do marido, o uruguaio Pablo Vares. Ela faz os vocais. "E estou correndo atrás de captação para filmar um outro projeto."

Leticia se diz feliz por seguir produzindo num cenário em que o cinema nacional enfrenta falta de verbas do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), principal fonte de fomento de produções audiovisuais no país. Diversos projetos estão parados por conta da crise institucional da Ancine (Agência Nacional do Cinema), e o presidente Jair Bolsonaro já declarou que queria a extinção da instituição.

"Nunca tive oportunidade de fazer um projeto com esse tanto de milhão de que falam. Mas, se a gente quer realmente evoluir em termos de efeitos especiais, nas coisas lúdicas, precisamos ter acesso. Não pode cortar [incentivo]." O rosto de Leticia ruboriza quando desata a falar de política.

"Quem disse que, em três meses de novo governo, tudo estaria diferente? Espero que o presidente faça alguma coisa pelo meio ambiente, pela educação, pela segurança, o que nos é de direito. Não tenho nada contra ele nem contra ninguém. Meu candidato é aquele que tiver coragem de romper com esquemas. Acho que ele ainda não nasceu."

Ouça a íntegra da conversa com Leticia Spiller no podcast UOL Entrevista. A entrevista completa em vídeo está disponível no canal do YouTube do UOL.

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