A dona da xana toda

Gaby Amarantos fala da descoberta tardia do prazer, vibradores, racismo e aceitação do próprio corpo

Luiza Souto De Universa
Rafael Roncato/UOL

Gaby Amarantos já chega chegando ao estúdio com um pedido: "Não faça nenhum retoque na celulite, na gordurinha, em nada. Deixe aparecer". Esse seria o primeiro de muitos sinais, dados durante a entrevista e o ensaio de fotos para Universa, de que a cantora paraense, aos 41 anos, não tem nada a esconder.

Quando recebe elogios pelas unhas gigantes e pontiagudas, garante: "Já aprendi até a bater siririca com ela". Outra coisa que Gaby não tem são papas na língua.

Uma das primeiras representantes do estilo tecnobrega a invadir o eixo Rio-São Paulo, Gaby no início era conhecida como Beyoncé do Pará. Logo se livrou do apelido, emplacou o hit "Ex Mai Love" em abertura de novela global e virou apresentadora do programa Saia Justa, do GNT.

Batizada de Gabriela em homenagem à famosa personagem do escritor Jorge Amado, hoje a artista está a fim mesmo de falar sobre a sua sexualidade aflorada. Tanto que lançou recentemente o clipe da música "Xanalá", em que, junto com a recifense Duda Beat, canta versos como "hoje a tua meta é me dar prazer" enquanto as duas desfilam por um cenário repleto de referências sexuais.

Mas a desbocada, despudorada e extravagante Gaby nem sempre foi assim. Até a gravidez de Davi, seu único filho, de dez anos, só usava roupas escuras, numa tentativa de disfarçar o corpo dito fora do padrão. Perdeu a virgindade aos 21 e só começou a namorar aos 24 porque não se encaixava no estilo "Barbie, bibelô". Fez cirurgias, sofreu bulimia, teve depressão e sangrou, literalmente, para ter seu corpo aceito.

Até que aceitou se aceitar. Hoje, é casada com o inglês Gareth Jones, seu produtor e "o primeiro homem a me dar brinquedos sexuais voltados para o meu prazer". E se orgulha de ser negra, nortista e fora dos padrões. "Se pudesse voltar no tempo, falaria para essa Gaby, que tinha vinte e poucos anos: 'Não faça cirurgia, não alise seu cabelo'." Deixe aparecer.

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O poder da xana

Um dos nomes usados por Gaby para se referir à vagina, a xana é também tema e musa do clipe que ela acaba de lançar. Com o hit tocando ao fundo, durante o ensaio para esta reportagem, ela garante estar na sua melhor fase sexual: mais segura, confiante e desencanada.

"Tô com um fogo na xana que não sei de onde vem. Sexo, pra mim, era uma parada que eu curtia, mas que era ok. Hoje em dia, meu amor, virou uma questão, uma coisa que eu quero cada vez mais explorar."

E esse é um fogo bem recente. Ela conta que, por ser negra, nortista e fora dos padrões, enfrentou dificuldade em encontrar um parceiro que a assumisse. A primeira vez também veio tarde, ela diz, e foi péssima.

"Do ponto de vista da mulher negra, a gente demora mais a ter um relacionamento. Só fui ter um namorado que pegou na minha mão e falou 'essa é a minha namorada' com 24 anos. Fui perder a virgindade com 21. É o padrão de beleza. É como se o cara falasse: 'Qual é a menina que eu tenho que assumir? É essa Barbie, essa branquinha. A sociedade vai me achar foda porque tenho essa mulher'", exemplifica.

"Para eu sentir prazer, demorou muito, até que uma pessoa falou: 'Vem cá que eu vou te tratar com respeito, com carinho, vou fazer tu gozar do jeito que tu merece'."

Depois de tanta espera, agora, Gaby quer mais é aproveitar.

"Tenho muita coisa para descobrir. Essa abertura aconteceu agora, amor. Tem um ano. Tenho muita suruba pra fazer. O certo mesmo é a gente ir ao sex shop se descobrir. Quero experimentar várias coisas. Sobre mulher, não digo que dessa água não beberei. Suruba, eu ainda não sei como é. Ménage, já fiz. Indico, galera."

A presença de um parceiro que embarca nesses temas foi fundamental para as descobertas da cantora. "Gareth foi o primeiro homem a me dar um vibrador, um estimulador de clitóris, a trazer brinquedos sexuais voltados para o meu prazer. Foi a primeira pessoa que falou: 'Isso aqui é para você gozar'. Gente, é o homem da minha vida."

O certo mesmo é a gente ir ao sex shop se descobrir. Quero experimentar várias coisas. Sobre mulher, não digo que dessa água não beberei. Suruba, eu ainda não sei como é. Ménage, já fiz. Indico, galera

Gaby Amarantos

Rafael Roncato/UOL

Tratada como prostituta

Enquanto vai deixando seus tabus de lado, Gaby diz que a liberdade sexual seria também um tabu menor entre as mulheres da região Norte. "É claro que tem mulher nortista que é conservadora pra caramba, mas acho que, na grande maioria, a gente é muito mais livre, não tem vergonha de dizer que gosta de sexo", acredita a cantora, nascida no bairro de Jurunas, um dos mais populosos da capital paraense,

Na prática, no entanto, o Pará também tem números de violência sexual desoladores. Lá, uma mulher é estuprada a cada três horas, segundo dados da Segup (Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social). E é o segundo estado do país com mais pontos de exploração sexual infantil nas rodovias, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal. Gaby respira fundo antes de resgatar lembranças dessa realidade.

Conta, por exemplo, que cresceu num meio de extrema violência, em que o pai —muito pacífico e apaziguador, ela frisa— frequentemente defendia as parentes e as vizinhas de violência doméstica. Ouvia diariamente gritos de socorro. Quando fazia shows no interior, passava por meninas ainda entrando na adolescência se prostituindo nas embarcações:

"Muito contratante queria tratar a mim e minhas bailarinas como se fôssemos prostitutas, como se nós estivéssemos ali para servi-los depois do show", diz. "Além disso, a gente ouvia muito sobre estupro coletivo. Nunca aconteceu comigo, mas eu já vi. Tinha sete, oito anos, e ninguém me disse que aquilo não era normal."

O caminho para reduzir a violência, diz Gaby, não seria colocar uma arma nas mãos de uma mulher, mas investir em educação sexual. Falar de sexo na escola é essencial na opinião da artista —apesar de o governo Jair Bolsonaro achar o contrário.

"A eleição desses presidentes populistas pelo mundo por conta de todo esse conservadorismo, junto com a religião querendo tomar conta do poder, é uma parada que está dando muito errado. Estamos perdendo liberdades, vivendo numa censura velada. Queria que essa galera que votou [nele] botasse a mão na consciência."

A gente ouvia muito sobre estupro coletivo. Nunca aconteceu comigo, mas eu já vi. Tinha sete, oito anos, e ninguém me disse que aquilo não era normal

Gaby Amarantos

Rafael Roncato/UOL

Racismo e depressão

Gaby já pagou preços altos pelas críticas que faz. No ano passado, por exemplo, foi às redes sociais chamar as "brincadeiras" do dono do SBT, Silvio Santos, de racistas, gordofóbicas, homofóbicas e machistas. A reação aconteceu após ela saber que o apresentador havia dito que a cantora Preta Gil estava acima do peso, durante a gravação de um programa. Por causa da atitude, Gaby foi chamada de oportunista e "mimizenta" e virou alvo de ofensas racistas. Disse ainda que recebeu ameaças de morte virtuais.

Resolveu se afastar das redes sociais e buscou terapias alternativas, como a bioenergética. E, atualmente, faz reiki.

"Como pode a gente normalizar um homem branco, poderoso, rico, que tem idade, despejando preconceito?", diz sobre os ataques que recebeu. "Ainda tem uma galera, infelizmente até mais jovem, que acha que não tem nada a ver com a escravidão, com o feminicídio, com o fato de que estão matando os gays, e fica lá, na sua bolha. Receber ameaças de morte foi algo que me derrubou, me deixou em depressão."

Foi então que Gaby procurou ajuda de terapias. "Acho que o humor é um lugar que tem que ser repensado. Aí, a gente vê as máscaras caindo e as merdas acontecendo. A única coisa que eu posso fazer agora é segurar uma plaquinha com o escrito: 'Eu avisei'."

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Na música brasileira, a grande maioria das cantoras de sucesso, que ganham dinheiro, é de cantoras padrão. Mulheres brancas, que têm o cabelo dito certo

Gaby Amarantos

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Vai ter pata de camelo mesmo

Críticas não são novidade para Gaby Amarantos. Ouviu muitas, a vida inteira e ao vivo mesmo. Por ser negra, por ser gorda, ela lista. Fez lipoaspiração, plásticas, dietas. Teve bulimia e compulsão. E participou do quadro Medida Certa, do Fantástico, em que famosos aceitavam o desafio de emagrecer diante das câmeras, em 2013. Tudo para se enquadrar. Perdeu 12 quilos e se empolgou com o número de seguidores, que saltou de mil para 300 mil na época. Com o tempo, repensou essas atitudes e diz que hoje não faria qualquer intervenção.

"Padrão é algo tão aprisionador, escravizador, que me pegou. Quando comecei a fazer sucesso, tinha posado numa revista dizendo que me aceitava. E logo estava ali, num programa de emagrecimento. Pensei: 'Olha como o padrão manipula'."

A virada de chave demorou. Aconteceu há dois anos, durante as gravações do filme "Serial Kelly" (ainda sem previsão de lançamento). No longa de René Guerra, Gaby é a protagonista, uma cantora de forró assassina que tem compulsão por comida.

"Quando recebi o roteiro, estava com 60 quilos, supermagra. Mas me entreguei à personagem, engordei 16 quilos num piscar de olhos e falei: 'Ok, não vou me esforçar para emagrecer'. Se antes meus biquínis eram mais comportados ou minhas fotos tinham sempre uma sobreposição, a Kelly me fez chutar o pau da barraca. Vai ter pata de camelo mesmo, vou mostrar minha celulite, esse corpo que é político. Quando se torna um corpo político, a mulher se torna a revolução."

Gaby deu o grito final de liberdade na última edição do Rock in Rio, onde, num ato aparentemente banal, pela primeira vez não usou meia-calça durante uma apresentação.

"Na música brasileira, a grande maioria das cantoras de sucesso, que ganham dinheiro, é de cantoras padrão. São mulheres brancas, que têm o cabelo dito certo. E as mulheres negras na música brasileira também têm que cumprir um papel, ser uma Barbie negra, ter a cintura fina."

A cantora, então, escolheu o Rock in Rio como um palco simbólico para a mudança. "Já usei cinco meias-calças num show, fita adesiva para apertar a cintura. E me machucava para tirar. Às vezes, até sangrava. Começou a me oprimir ao ponto de eu entrar numa crise de ansiedade misturada com depressão. Então sabia que aquele momento ali ia libertar muitas pessoas."

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Não alise seu cabelo, Gaby

"Não sou contra as cirurgias plásticas. Sou contra as pessoas não entenderem os procedimentos e não saberem o que estão fazendo. Ou que façam aquilo por pressão. Hoje, não preciso fazer nenhuma intervenção. Passei por cirurgia, bulimia, compulsão. Tudo isso me dá propriedade para poder falar para essa galera que está tudo bem, que é possível você se amar do jeito que você é. Se pudesse voltar no tempo falaria para essa Gaby, que tinha vinte e poucos anos: "Não faça cirurgia, não alise seu cabelo"

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Com dourado, com onça, com tudo

"Até hoje falam que pessoas gordas não podem usar babado ou listra na horizontal. Eu uso tudo e cada vez mais abuso da sensualidade. Fico vendo as pessoas ainda tão engessadas. Tem mulher que não gosta de usar esmalte com glitter porque acha vulgar, brega. Mas o que é fashion e brega? Onça é brega, mas, se for da Gucci, é legal? Pode misturar estampa, amor. Aqui é dourado, com onça com tudo. Quanto mais as pessoas se libertam, mais elas conseguem mudar os comportamentos"

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Você sabe como é a sua vagina?

"Falar da xana ainda é um tabu pra gente. Com esse clipe que eu fiz com a Duda Beat ("Xanalá"), tantas mulheres vieram dizer: 'Que coisa vulgar, de mau gosto, odiei'. Como assim a gente olha para o nosso órgão com preconceito? A gente merece falar de prazer, gozar, entender nosso corpo. Muita mulher não sabe nem como é a sua vagina. Nunca pegou um espelho para se ver, nunca se tocou, nunca chegou ao orgasmo sozinha para poder entender o caminho. Vamos bater uma siririca e ficar bêbada!"

Moda opressora

Uma das últimas publicações da cantora em suas redes sociais é um vídeo que começa com um close no bumbum. Em outras imagens, Gaby aparece com um biquíni cavado na frente, com a legenda "bota a Xanalá no Sol", de costas, com os dizeres "nasci de bunda pra lua", e quase nua, coberta por flores: "Nunca me senti tão livre e feliz". Tudo parte do processo de construção da cantora.

"Eu preciso me autoafirmar. Mesmo que eu seja a poderosona, a que se aceita, a gente liga a televisão, entra no Instagram e continua vendo as pessoas com barriga tanquinho, com corpo perfeito. E a mulher que posta foto fora do padrão é a gorda, horrorosa. Hoje, essa opressão chega, bate e volta. Estou aqui, me achando gostosa."

Até a gravidez, aos 31 anos, quando chegou a pesar 102 quilos, Gaby tinha dificuldade em encontrar roupas com numeração acima do 42 e que valorizassem suas curvas. No seu guarda-roupa, o preto dominava. "Só tinha uns pedaços de pano. Parecia que estava vestindo a toalha de mesa", diz. Hoje, percebe mudanças, "a passos de formiga", na indústria da moda para incluir as pessoas gordas. Recentemente, por exemplo, a marca de lingerie Victoria's Secret contratou sua primeira modelo plus size, Ali Tate-Cutler. Para Gaby, não foi suficiente.

"Ainda é o padrão. Mesmo que seja uma mulher como a [modelo americana] Ashley Graham, a maior top model plus do planeta, ela tem uma cintura mais fina que a minha, pouquinha celulite, um corpo que também é padronizado. Tem que ter o padrão violão. Acho que essa libertação só vai acontecer de fato se nós, consumidoras, entendermos que o poder está com a gente. Você falou de uma marca que eu não uso porque ela me oprimiu durante muito tempo. Quero apoiar as pequenas produtoras ou ajudar marcas que realmente queiram se aliar aos novos tempos".

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Eu me represento

A mulher gorda e negra não deve estar apenas com lingerie no outdoor para que outras se sintam representadas, diz Gaby. Mas em eventos, campanhas, novelas, séries. Onde puder. E quiser.

"E não estou falando só da mulher negra, mas das pessoas do Norte. Parece que a gente tem que ficar sempre ali, gritando: 'Olha, a gente está aqui, a gente existe no mapa". Não quero ver a mulher negra na televisão como cota. Eu quero ver a mulher negra como presença."

E, depois de enfrentar tantos preconceitos, tabus, críticas e padrões, Gaby hoje entende como pode contribuir para essa transformação.

"Eu cresci sem representatividade. Quando criança, não tinha nenhuma mulher na televisão que eu dissesse: 'Caramba, estou ali'. Tive que me tornar essa representatividade para mim", diz a paraense.

"Aquele culote, aquela celulite e aquela estria que há 20 anos eu odiava, hoje, para mim, têm um valor. Não quero mais fazer dieta louca, sabe? Quero viver feliz com esse corpo que eu tenho."

Aquele culote, aquela celulite e aquela estria que há 20 anos eu odiava, hoje, para mim, têm um valor

Gaby Amarantos

Ouça a íntegra da conversa com Gaby Amarantos no podcast UOL Entrevista. A entrevista completa em vídeo está disponível no canal do YouTube do UOL.

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