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Quem são os moradores que fazem de samambaias, gatos e prédios antigos um estilo de vida no centro de SP

Marcos Candido De Universa

Olá, Ceciliers

"Até coloquei um look bem Santa Cecília", diz a produtora de conteúdo Naetê Andreo, 25, ao abrir a porta do apartamento onde mora, na rua da Consolação. Ela veste uma camiseta listrada "bem colorida" e meias altas. Da sua varanda tem-se uma vista privilegiada da área que abrange Vila Buarque e Santa Cecília e concentra, no centro de São Paulo, uma geração de jovens "Cecíliers".

No som, muita música brasileira. No piso, o taco de madeira indica algumas décadas já vividas pelo imóvel. A roupa, acrescenta Naetê, foi comprada no brechó.

Para fechar a lista de itens essenciais, tem ela: uma samambaia. (Ou tinha, porque elas insistem em morrer). Para refletir a alma do bairro, também é de bom gosto conversar sobre temas como feminismo, masculinidade, questionar a monogamia, discutir acesso à cidade, arquitetura e música brasileira. Troque a cerveja artesanal pelo custo-benefício do litrão. Compre roupas no brechó. Resista ao cardápio "gourmet" enfiado goela abaixo por áreas nobres da cidade e o substitua por um prato vegetariano. Se puder, orgânico. Tudo muito diferente daquela outra reportagem.

Naetê é influenciadora digital e criou um perfil no Instagram para alugar a própria casa para ensaios fotográficos. Entre os atrativos da vizinhança, ela apelidou de Tinder a feira de domingo na rua, em frente à Igreja de Santa Cecília, uma construção do final do século 19. "Mas ainda não dei nenhum match, acho que estou usando esse Tinder errado", brinca ela e já acrescenta a classificação: os homens da sua região são "esquerdomachos".

'Me encontra no Largo?'

Nos últimos cinco anos, os novos moradores da região -delimitada de um lado por Higienópolis e por outro pelo Minhocão- seguem mais ou menos a essa cartilha. São jornalistas, publicitários, designers, atores, arquitetos, músicos e quem não quer ou já desistiu de ter uma carteira assinada para bancar o aluguel — que, aliás, só sobe.

O bairro permite que se ande a pé entre construções históricas e prédios antigos e, com um pouco de fôlego, se chegue ao vizinho e refinado Higienópolis. Conta ainda com facilidades como duas estações de metrô e avenidas de fácil acesso a pontos centrais da capital, além de respirar um clima boêmio com charme antigo. E tem um polêmico Minhocão.

Os Santa Ceciliers, ou, pela junção dos bairros, "Cecibus" como preferem ser chamados, moram em apartamentos construídos desde a década de 50. O chão de taco de madeira é não só resistência, mas um amuleto contra a frieza do mercado imobiliário da capital com seus pisos de porcelanato.

Por dentro, esses apartamentos abrigam, além dos Cecibus, plantas, geralmente penduradas nas paredes, e gatos. Durante o dia, dezenas deles dormem nos alpendres das janelas, escorados nas redes de proteção e desinteressados sobre as mudanças que seus donos promovem no bairro abaixo.

Em 2017, a Santa Cecília possuía 90 mil pessoas. A prefeitura paulistana projeta que 115 mil pessoas vivam no bairro em 2040, o maior crescimento proporcional entre todos os oito distritos que formam o centro de São Paulo.

Bruna Bento/UOL Bruna Bento/UOL

Minha samambaia, minha vida

As plantas e os pets são o mais perto que dá para chegar da natureza dentro de um prédio de concreto. A região central tem apenas 4% de arborização, menor índice da cidade, segundo a Rede Nossa São Paulo.

As samambaias, charmosas e fáceis de cuidar, proliferaram pelo bairro. O apego a elas é tanto que gera oportunidades de negócio: uma especialista ouvida pela reportagem oferece trabalhos como plantsiter, ou "babá" de plantas quando os Ceciliers viajam.

A esperança é que o Minhocão seja transformado em um parque e diminua a aridez vista pelas janelas. O viaduto foi inaugurado na década de 70, cortou o centro ao meio e contou com toda a sensibilidade arquitetônica da ditadura militar.

Sobre o elevado, os Ceciliers correm aos fins de semana, pedalam e tiram fotos para as redes sociais. Sob ele, artistas pintam obras de arte nas pilastras, trabalhadores esperam por ônibus em linhas expressas e pessoas dormem, guardam objetos e vivem com seus cachorros, camas improvisadas e velhas malas de rodinhas.

Apesar da franca expansão dos Ceciliers, o Minhocão ainda funciona como um divisor entre uma área hippie-engajada-nostálgica e um centro com cara de Gotham City, onde usuários de crack e pedintes transitam desnorteados pelos prédios degradados. A prefeitura afirma que, em 2019, usou drones para mapeá-los e contabilizou 496 usuários apenas em um quarteirão próximo à praça Princesa Isabel.

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Eles se dizem mais legais do que os caras da outra reportagem

De certa forma, os moradores ali tentam ser o oposto de outras regiões da cidade como Pinheiros e Faria Lima. O primeiro viu a "gentrificação" que fez os preços de imóveis e comércio subirem na medida em que se elitizava. O segundo, marcado pelo desejo de fazer dinheiro no mercado corporativo que atrai engravatados e suas ambições.

O casal de arquitetos Julio de Luca, 28, e Raquel Rangel, 31, está junto há sete anos e mora há um ano e meio na Santa Cecília. Vegetarianos, vão a pé aos restaurantes do bairro que aceitam a presença de pets. Os dois trabalham em casa e se dizem felizes em não ter que trabalhar com um chefe no cangote. Durante o dia, transitam entre eles os gatos Frida, Tamborim, Gergelim e o cachorro Nelson.

"É inevitável capitalizar tudo em uma cidade como São Paulo. Um exemplo são as bicicletas, que começaram com uma proposta e hoje viraram do Itaú", diz Julio. "O capitalismo se vestiu de hipster", acrescenta Raquel.

Os sapatos rústicos vestidos por Julio foram comprados no interior de Minas Gerais, quando o casal viajou para uma homenagem ao escritor Guimarães Rosa. Ele acredita que não é preciso comprar roupa atrás de roupa. Ou comprar indiscriminadamente. Os sapatos, alguns deles veganos, são reforçados e feitos para durar.

Raquel mantinha um brechó para promover opções sustentáveis e refletir sobre consumo desenfreado. Na sala decorada onde moram, há um filtro azul herdado de uma avó. Na parede, um vestido do casamento que fizeram a sós em Portugal e um poema escrito pelo irmão de Julio. "A casa é viva", diz.

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Moradores psicanalizados e boêmios

Todos os moradores entrevistados pela reportagem passam por algum tipo de terapia psicológica, psicanalítica, astral ou social. A ideia não é despressurizar do trabalho, mas se conhecer de maneira mais profunda e diminuir a hostilidade com quem amamos típica da cidade grande.

Luca participou de oficinas para discutir masculinidade, por exemplo. Em volta de uma roda, lembra, se abriu sobre seu privilégio masculino a outros homens. "Agora, tive um acesso a mim mesmo que mostra muito de mim e posso nomear os sentimentos do meu inconsciente", diz.

O modelo e promotor cultural Kim Olivier, 26, passa por "umas três" terapias diferentes. Uma delas é a barra de access, na qual um terapeuta holístico toca em pontos considerados energéticos para liberar emoções reprimidas. Desde que chegou em Santa Cecília, Kim trocou a Diana Ross ouvida pela família por Luedji Luna, cantora sensação entre os Ceciliers. "É engraçado que antes de vir para cá eu não ouvia nada brasileiro", conta.

Somos o que somos

O estereótipo dos moradores de "chão de taco e samambaia" foi criado pelos próprios moradores.

Desde 2015, eles trocam dicas sobre a cidade em um grupo no Facebook chamado "Cecílias e Buarques". A página uniu o sentimento dos vizinhos e atraiu novos locadores. Para participar, é proibido publicar mensagens "preconceituosas, racistas, misóginas, homofóbicas, lesbofóficas, transfobicas, gordofóbicas, etc."

Na maior parte do tempo, a página é usada para doar objetos como camas, sofás, escrivaninhas ou qualquer coisa que ocupe espaço. A ideia é consumir de maneira consciente, sem desperdício. As doações geram menos lixo lançado no meio ambiente. De quebra, pode-se restaurar os móveis que estão caindo aos pedaços. Qualquer coisa pode ser doada. Qualquer.

Em uma publicação, uma moradora se queixa de esperar por semanas para conseguir doar uma coleção de CDs riscados. "Nem sempre é fácil", pontua. Demorou, mas conseguiu. Não se sabe o paradeiro ou para qual fim foram usados.

O ator Augusto Costa, 28, se mudou para a Santa Cecília em janeiro e decidiu doar o pênis de pelúcia que costurou para uma peça em 2017. O interesse pelo "pirocão" foi tão intenso que foi preciso sorteá-lo. "Como vi que a galera sempre doava, imaginei que alguém fosse querer", diz. "Uma menina [interessada] chegou atrasada no sorteio, ficou desesperada e chorou".

Os itens doados geralmente são anunciados em fotografias capturadas em cômodos com chão de taco e plantas, de onde possivelmente surgiu a brincadeira.

A coisa pegou tão forte que a jornalista Helena Dias, 31, vai vestida de Santa Cecilier para o Carnaval deste ano. Ela preparou uma túnica estampada com uma textura de madeira estampada e um colar de samambaia. A fantasia da moradora do bairro há dois anos já é sucesso de crítica e público nos blocos de pré-carnaval. "Pediram até para tirar foto comigo", diz.

Bruna Bento/UOL Bruna Bento/UOL

"Eu amo minha bagunça organizada"

Kim é um dos poucos cariocas que dizem gostar mais de São Paulo do que do Rio de Janeiro. "Aqui é uma bagunça, mas ao menos é bagunça organizada", pondera. Durante a madrugada, ele curte ficar no bar da Bete, um bar com ar decadente na rua das Palmeiras que foi abraçado como uma instituição pelos Ceciliers.

O bar não é único sem muita grife a ser prestigiado pelos moradores. Na real, eles usam os bares tradicionais, com preços mais em conta, para frear a hipsterização da região. Os estabelecimentos que há décadas estão por lá, são povoados por muitas personagens tradicionais da noite local.

Em uma sexta-feira à noite em que a reportagem andava pelo bairro, um rapaz vestido com roupas largas, mochila de camping e cabelo despenteado vai de mesa em mesa vendendo uma garrafa de cachaça no bar do Seu Zé, na rua Frederico Abranches. Mas não é qualquer cachaça: o dinheiro é revertido para um coletivo de artistas de Santa Cecília.

Nas mesas ao lado está o tradicional grupo de chorinho do bairro, que toca Espinha de Bacalhau. A expressão deles é séria. Um fã, emocionado e já tomado pelo álcool, puxa uma cadeira e senta-se ao lado da percussionista. Ele esbraveja elogios ao grupo, que mantém as notas. Uma moça da mesa ao lado se levanta para ir ao banheiro e esbarra com a bolsa na cabeça do rapaz do cavaquinho, que não interrompe os dedilhados.

Um vendedor de leques tenta vendê-los no frio. "Amanhã vai esquentar", alerta. Um morador rua segura um relógio com a imagem de Jesus Cristo. Mas não está à venda. "Eu só achei bonito", explica. Pede cachaça e vai embora.

O festival de pequenos acontecimentos passa desapercebido enquanto a música melancólica continua a ecoar pela rua. Quando amanhece, uma travesti que vive embaixo do viaduto aborda uma garota que sai do metrô. "Bom dia, Lady Gaga. Bem-vinda à Santa Cecília", diz. E é ignorada.

Esse morador da Vila Buarque quer alguma coisa diferente: quer morar em uma casa com chão de taco, que é diferente do porcelanato. Ele usa marcações retrôs, como a estética da casa de vó, para criar uma autenticidade própria

Maurício Alcântara, antropólogo

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"Quando cheguei, era tudo mato"

Em 1900, Santa Cecília já tinha linhas de bonde operadas pela Light. A facilidade do transporte atraiu os endinheirados, muitos deles judeus que deixavam o Bom Retiro. Em 1940, Santa Cecília já tinha 4.749 prédios e 36 mil habitantes. De acordo com o IBGE, o número já tinha quase dobrado duas décadas depois -eram 69.515 em 1963.

Desde o fim do século 19, a Universidade Presbiteriana Mackenzie oferecia cursos de filosofia, comércio e engenharia na Vila Buarque, criada após terras próximas ao Arouche serem vendidas para a empresa do engenheiro Manuel Buarque de Macedo, em 1893. Nos anos 40, foi a vez da Universidade de São Paulo instalar no bairro alguns cursos de humanidades, ciências, arquitetura e administração. Em 1963, o prédio em estilo neogótico inglês da Santa Casa de Misericórdia, inaugurada em 1884, abriu o próprio curso na área de saúde. A efervescência estudantil deu uma cara única ao bairro.

Na década de 1970, a noite era povoada por estudantes, como relembra a Lilian Gonçalves, presidente da Rede Biroska, rede de estabelecimentos que concentra bares, lanchonetes, casas de shows e karaokê na rua Canuto do Val.

Lilian, que já figurou em muitas colunas sociais da cidade, conta que o "bairro era um deserto" há 45 anos. Com a poluição e o barulho, a chegada do Minhocão afastou os moradores mais nobres e fez florescer apartamentos voltados para os universitários da região.

Nas décadas seguintes, Lilian reclama que o noticiário policial tratou o centro como um lugar perigoso. "Pintavam Santa Cecília como se fosse o Vale do Anhangabaú", reclama. A reviravolta só veio nos últimos anos, quando o público mudou sensivelmente.

"Hoje, todo mundo quer morar na Santa Cecília", diz ela. No último ano, o aluguel na região central subiu em média 9%, o maior aumento da capital. Segundo relatório do ImóvelWeb, o preço médio do aluguel no bairro é de R$ 2.535.

Uma breve histórias dos Cecílias e Buarques

O antropólogo Maurício Alcântara afirma que o perfil dos Ceciliers sofreu, nos últimos anos, sua mudança mais radical. Eles sempre foram intelectuais, ligados às áreas de comunicação e artes. O que mudou, conta, foi uma vontade maior nesses moradores de "se sentir na cidade grande".

Em sua defesa de mestrado sobre a Vila Buarque, Maurício mapeou a nova geração de moradores que encontraram um aluguel mais em conta para morar em uma região central. Políticas como o incentivo ao Carnaval de rua e a construção de ciclovias próximas encontraram uma população que vai dos 20 aos 35 anos, com uma renda média de até uns R$ 5.000 -fora os bicos, e fomentou um novo perfil de morador.

"São pessoas que querem ter contato com a diversidade e que querem marcar a diferença entre pessoas da mesma classe social que vivem em bairros com estereótipo de classe média", diz o pesquisador.

Mapa: uma volta pelas atrações de Santa Cecília e Vila Buarque

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