O prazer hoje

Em 2021, falar de sexo ainda é difícil, mas não para essas quatro mulheres

Júlia Flores De Universa Alexandre Rezende

O Dia Internacional do Sexo é comemorado hoje, 6/9, uma referência à famosa posição sexual em que os parceiros ficam invertidos na cama.

Clichês à parte, a data coloca em pauta um tema que, para muitas mulheres, ainda é tabu. Sexo, prazer e saúde intima são assuntos difíceis de serem tratados por metade das mulheres, segundo pesquisa realizada por Universa, em parceria com o canal Prazerela.

E contar para o parceiro(a) se sentiu ou não prazer na relação? Em pleno 2021, 19% das mulheres assumem que ainda fingem orgasmo, enquanto 60% responderam que já simularam, mas isso é coisa do passado. A pesquisa, feita com quase 1.000 participantes de diferentes faixas etárias, sexualidades e classes sociais, também revela que 92% atingem o clímax quando se masturbam, porém, durante uma relação sexual, o número cai para 37%

Essa lacuna entre o prazer masculino e o feminino tem nome e é chamada de "pleasure gap".

No contexto da pandemia, metade das mulheres afirma estar fazendo menos sexo. Por outro lado, 41% compraram um brinquedo sexual durante o isolamento social. Esse investimento no próprio prazer é positivo e mostra que, sim, nós queremos gozar!

Para ajudar a desmistificar o tema, Universa reuniu o depoimento de quatro mulheres que sentem orgulho de falar sobre suas sexualidades: Lua, Jamine, Silvia e Beatriz têm, cada uma à sua maneira, preferências e dilemas pessoais que carregam para a cama.

Alexandre Rezende Alexandre Rezende
Alexandre Rezende

'Pressão heteronormativa é para uma ser ativa e a outra, passiva'

"Sim, ainda é um tabu mulher falando sobre prazer — inclusive dentro da comunidade lésbica. Sou uma sapatã 'caminhoneira', ou seja, expresso minha feminilidade de outra maneira. Por eu trazer traços socialmente considerados como masculinos, existe a falsa ideia de que eu preciso ser sempre a parceira 'ativa' da relação.

A constante fetichização das lésbicas interfere no jeito como duas mulheres se relacionam. Existe uma pressão heteronormativa para que uma parceira seja ativa e a outra passiva. Algumas mulheres acham que esses papéis são inflexíveis. Eu, enquanto uma mina caminhoneira, preciso sempre ser a ativa, a figura que está ali o tempo todo para dar prazer, nunca para receber. Isso é errado e me brocha.

Várias lésbicas foram educadas através de filmes pornôs e nessas filmagens rola muita reprodução do papel ativo vs. passivo. Fica parecendo sexo heterossexual

Eu sinto prazer no sexo quando tenho conexão com a outra pessoa, quando rola sentimento. Não gosto de sexo casual. A primeira vez que transei foi aos 22 anos e eu perdi minha virgindade com uma mulher —cheguei a ter um namorado homem na adolescência e demorei algum tempo para assumir minha orientação sexual.

Não gozo sempre que transo. Mas gozar não é tudo no sexo, pra mim focar nas sensações do momento é mais importante

Eu sempre me masturbei, gosto de me fazer sentir tesão. Meu corpo é um universo que domino. Lembro que fiquei assustada quando tive o primeiro orgasmo sozinha. Acompanhada demorou mais para acontecer, mas quando rolou, eu chorei de emoção. Ali me dei conta de que eu tinha nascido para viver aquilo, aquela troca, daquele jeito, com outra mulher"

Jamine Patricia Guedes Miranda, 29 anos, produtora de conteúdo digital - Belo Horizonte

Peu Fonseca/FlutureBR Peu Fonseca/FlutureBR
Peu Fonseca/FlutureBR

Observar o prazer do outro

"Sou uma mulher de quase 40 anos, mãe de 4 filhos, casada há 15 e tenho a vida sexual ativa. Para mim, o sexo é um lugar de descoberta e o prazer é importante — tanto na cama quanto fora dela. Tenho prazer no meu corpo, na vida, em correr, em comer, em estar com meus filhos.

Não acho que a maternidade tenha atrapalhado minha vida sexual. Durante as quatro gestações que passei, visitei lugares potentes dentro de mim mesma, e essa foi a principal razão por eu ter tido quatro filhos. Ficava com a libido alta, cheia de desejo.

Óbvio que alguns fatores atrapalharam. Por exemplo, a prolactina (hormônio que ajuda na produção de leite) é inversamente proporcional ao desejo sexual, então a amamentação tira esse foco da mulher; além disso, também tem a privação do sono, da solidão do puerpério, sem contar que o cenário muda com a chegada dos filhos.

Hoje em dia, eu e o Pedro, meu marido, temos uma rotina sexual diferente. Não temos calendário para transar. A logística para o ato acontecer é difícil, porque eu tenho como premissa que a porta do meu quarto fica aberta e acessível para as crianças. Vamos sentindo o clima da casa, se todos estão dormindo ou não.

Para manter o desejo sexual ativo mesmo com 15 anos de casamento, a gente se mantém curioso em relação ao outro. O universo dele me interessa, o que ele está pensando, sentindo, fazendo, me interessa. Na pandemia, pela primeira vez, trouxemos brinquedos eróticos para a cama. Usamos juntos.

A ideia de comprar um vibrador foi do meu marido. Ele ouviu uma amiga falar sobre e decidiu comprar um. Ver ele preocupado com o meu prazer dá tesão, ver o pai que ele é, dá tesão. Dá tesão ver que ele está observando o meu cansaço e fica atento a isso

Sou um ponto fora da curva e reconheço. Nem todos os homens estão disponíveis para observar o prazer de suas parceiras, o tempo mina o interesse no outro, a pandemia fez com que as pessoas se odiassem mais do que se amassem dentro da relação. Porém, eu acredito na força da observação.

Com relação aos nossos filhos, a educação sexual acontece de um jeito natural. João, aos 13, já conversa sobre relacionamento com a gente. Irene, 9, e Tereza, 7, perguntam sobre menstruação. Joaquim, 3, esses dias mesmo, perguntou por onde o bebê nascia. Para mim, tudo isso faz parte da educação sexual, um constante aprendizado sobre o nosso corpo, que é lindo e precisa servir para que a gente, entre tantas outras coisas, sinta prazer."

Lua Barros, 39, educadora parental e especialista emocional - Brasília

Mariana Pekin Mariana Pekin
Mariana Pekin

'Tivemos que aprender como seria o sexo entre a gente'

"Namoro há quatro anos com o Gabriel. Quando a gente se conheceu, eu estava passando por um pós-operatório e ele ficou seis meses do meu lado, enquanto eu reclamava de dor e da vida. Mesmo assim, ele não desistiu.

Tenho uma doença neuromuscular rara que se chama Paraparesia Espástica Familiar tipo 4. É uma síndrome que afeta só membros inferiores e que vai me atrapalhando mais, por assim dizer, com o passar do tempo, principalmente se eu não fizer algum tratamento, tipo fisioterapia. Costume dizer que é como se tivesse alguém segurando minhas pernas com força, o que dificulta bastante meus movimentos. Me esforço, em média, 8 vezes mais do que uma pessoa sem deficiência física para fazer coisas básicas como abrir ou dobrar as pernas, pra dar um passo por exemplo. Em situações de muito frio, ou quando estou mais ansiosa, fico ainda mais rígida e dolorida.

Um dia, já melhor e recuperada da cirurgia, saímos com amigos e depois fomos ao motel. Foi quando rolou a minha primeira transa. Foi uma descoberta muito bacana. Dei risada, me diverti, me senti tão à vontade com ele, que fiquei rindo.

Com o passar do tempo, o sexo foi ficando ainda mais legal e interessante. Minha paralisia interfere só com a parte inferior, mas a sensibilidade é normal —ou seja, sinto prazer como qualquer outra mulher.

Nós dois tivemos que aprender como seria o sexo entre a gente. Ele é muito paciente e conseguiu entender o meu modus operandi, porque eu mesma não sabia

Em quatro anos de namoro, a gente ainda não teve sexo com penetração por causa da rigidez das minhas pernas, mas isso não é algo que nos incomoda. Como a gente não tem muita privacidade e nunca estamos sozinhos (eu moro com meus pais e é difícil de encontrar motel com acessibilidade), vamos fazer isso em um momento especial, privado, com calma.

A gente planeja se mudar para uma casa só nossa, para termos mais esses momentos íntimos e de casal. Isso deve acontecer já em 2022. Para ser sincera, tenho sim curiosidade em sexo com penetração, mas não faz falta. Vida sexual não se resume apenas a isso ou à genitália. Quando comento sobre o assunto com outras pessoas, elas me olham com cara surpresa. Mas é verdade"

Beatriz Bebiano, 25, gestora em saúde ambiental e produtora de conteúdo - São Paulo, capital

Mariana Pekin Mariana Pekin
Mariana Pekin

Trabalhar pelo prazer

"A vida sexual é uma coisa pela qual precisamos trabalhar. Hoje, aos 51 anos, com três filhos e depois de dois casamentos, posso falar isso com toda certeza: se você não se esforçar pelo prazer, se você esperar que o tesão surja espontaneamente, você vai fracassar.

É claro que eu não marco o horário para transar, mas gosto de aproveitar os momentos livres que tenho com o meu marido. Atualmente, para mim, o tesão está relacionado a vários motivos. Não aparece 'do nada' como quando eu era adolescente. Vivo cultivando a atração pelo meu parceiro, olho para ele, beijo na boca dele, dou abraço —caso a gente não faça isso, somos absolvidos pelas coisas do cotidiano.

Sexo para mim tem que fazer perto da rotina como qualquer outra atividade —igual a física

A primeira vez que gozei foi aos vinte e tantos anos. Para mim, me preocupar com meu próprio prazer não passou a ser novo. Tem muito mais a ver como você está se relacionando com alguém do que com a idade.

Quando você tem 50 e está em um relacionamento longo, isso significa que está em uma relação há muito tempo. A libido de adolescente vem porque o relacionamento é novo, o parceiro é novo. O que mudou com a idade foi a consciência de que se eu não cuidar da minha sexualidade, ela vai pro saco.

Tanto eu quanto meu marido temos nossos momentos solos de prazer. Uso vibrador desde sempre, ele é meu melhor amigo, mas sei que é alto o número de mulheres que nunca usaram um sex toy. Algumas por falta de curiosidade e outras porque o marido tem ciúmes do aparelho —esse, inclusive, é um dos grandes dilemas masculinos. Ao meu ver, masturbação deveria fazer parte da vida de todo mundo: homem ou mulher."

Silvia Ruiz, 51, jornalista e colunista em Viva Bem — São Paulo, capital

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