O dia em que o templo parou

Com espaço para 10 mil pessoas, Templo de Salomão da Igreja Universal recebe apenas 10 após coronavírus

Marcos Candido De Universa André Lucas/UOL

Do lado de fora do Templo de Salomão, em São Paulo, um homem assiste na tela de um celular à transmissão de um culto evangélico. Uma garoa fina cai e embaça as lentes do aparelho e dos óculos de aro grosso usados por ele. "Aqui é grande porque Deus é grande", classifica o produtor de vídeo e escritor de livros de autoajuda Itamar Fernandes, 40.

A estrutura imensa construída pela Igreja Universal, que costuma reunir milhares a cada domingo, está de portas fechadas. A pandemia de coronavírus fez com que, por dois domingos seguidos, um culto deixasse de ser celebrado com seus fiéis na igreja, inaugurada em 2014.

Apesar do decreto do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), classificar as manifestações religiosas como essenciais e permitir que elas permaneçam abertas, a direção da Igreja Universal do Reino de Deus manteve os próprios planos para combater o vírus.

Universa visitou a igreja no último domingo (29), no final da tarde. Naquele dia, pouco mais de dez pessoas em meia hora passaram pelas portas douradas da construção colossal construída no bairro do Brás antes horário que antecederia a cerimônia. Lá dentro, o pastor indicava que o culto seria transmitido pelas redes sociais ou poderia ser acompanhado pela televisão. Há pastores de plantão, mas a oração é feita sem dar as mãos e só entra um por vez.

A pregação transmitida ao vivo é feita dali mesmo, a portas fechadas. Um pastor solitário prega para 10 mil cadeiras vazias; o som de um passo pode ser ouvido a muitos metros de distância e o pé direito alto, cerca de 18 metros de altura, facilita emiti-lo.

A área total do Templo é quatro vezes maior que o Santuário Nacional de Nossa Senhora de Aparecida. As proporções impõem reverência. "É a igreja mais mal falada de todas, não é? Mas você vê: quem a crítica também nunca está feliz", pontua Itamar, antes de ser perguntado.

"Eu mesmo xingava um amigo que vinha a ela, dizia para ele parar de dar dinheiro para o [fundador da igreja, Edir] Macedo. Até que pedi para ele me levar na igreja. Eu chorava e já tinha problemas com minha ex-esposa", diz.

Itamar conta que doou um Corolla quase zero quilômetro para a igreja. A contribuição, diz, deu certo: curou uma filha de 26 anos da leucemia, já deu 474 palestras para empresas país afora e mora no Morumbi, bairro nobre da capital paulista. Todo domingo, ele cumpre o compromisso de trazer ofertas e assistir ao culto, mesmo que online.

"A porcaria do coronavírus é uma amostra de que o mundo não está bem", reflete. Mas diz que não tem medo, afinal, acredita "em um Deus vivo" que vai continuar trabalhando mesmo sem um culto para adorá-lo pelas próximas semanas.

Minimizando a gravidade da covid-19, que já deixou mais de 150 mortos no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro incluiu, por meio de um decreto, as igrejas entre as atividades essenciais durante a situação de emergência, permitindo que elas se mantenham abertas mesmo durante as ordens de quarentena pelo país.

No fim de semana, a Justiça proibiu o presidente de adotar medidas contra o isolamento. A Advocacia Geral da União (AGU) vai recorrer da decisão.

Nada disso seria tão preciso: os templos religiosos de São Paulo já não pretendiam abrir as portas. Na capital paulista, a igreja do pastor Silas Malafaia, fundador da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, estava fechada e os cultos foram transmitidos pela internet. A reportagem também esteve neste domingo (29) na Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada pelo pastor Valdemiro Santiago e encontrou a mesma situação.

Em São Paulo, a Igreja Universal, fundada pelo bispo Edir Macedo há quatro décadas, reiterou o cancelamento de cultos em São Paulo mesmo com a defesa de Bolsonaro pela manutenção das portas abertas. As igrejas da denominação estão abertas apenas para orações individuais na capital, mas seguindo as medidas de higiene e distanciamento.

Para entrar no Templo de Salomão, é preciso passar por uma revista. Além disso, não é permitido usar camisa de clubes de futebol, mini-saia ou regata e é preciso deixar o celular com um funcionário na entrada.

André Lucas/UOL André Lucas/UOL

"Vim orar por nossos governantes"

Os embates de abre-e-fecha ou as polêmicas envolvendo a Igreja Universal não importam muito para Roberto Carlos de Oliveira, 50. No domingo em que a reportagem foi a templo, Oliveira escolheu orar. Ele conta que, até dois meses atrás, tinha problemas com álcool e vício em drogas. Agora veio devolver a bênção por meio de suas orações e acrescentar outras preocupações.

"Vim orar por nossos governantes para acabar com esse vírus aí", explica. Pedreiro, não consegue ficar recluso com a família em casa. A esposa e o filho precisam dos serviços dele na rua. No seu colo, ele carrega Davi, 1, que na Bíblia é rei e pai de Salomão.

A gente toma cuidado para não abusar, mas a Bíblia diz: nenhum mal atingirá sua tenda.

Um morador de rua vestido com uma camiseta da seleção brasileira está a poucos metros dali. Ele se ajoelha em frente às luzes do templo; elas estão apenas parcialmente acesas, mas mantêm a imponência da construção feita com 28 mil metros cúbicos de concreto e 2 mil toneladas de aço.

Osmar Santos, 67, passa por ele e atravessa sozinho o pátio que dá acesso ao templo. Ele tenta entrar, mas encontra a porta fechada. A transmissão ao vivo já tinha começado e, por isso, o espaço tinha sido esvaziado.

Naquela noite, Osmar queria fazer uma oração preventiva, para pedir por sua saúde. "Às vezes, a gente acha que não tem, mas esse bicho [coronavírus] já está dentro da gente e a gente não sabe", pontua.

Embora esteja no grupo de risco devido à idade, o autônomo diz que a fé já o curou de coisa pior. No ano que passou, conta que se livrou de um câncer que, diz, atingiu seu cérebro. Por esse motivo, ele se declara contrário a manter a igreja fechada por causa da pandemia de coronavírus e dá uma sugestão: "Deixa aberta, mas coloca um espaço maior entre uma cadeira e outra", diz.

André Lucas/UOL André Lucas/UOL

Um motorista de aplicativo de comida estaciona a moto em frente ao templo para uma fotografia. Ele é Flávio Mendes, 38. Não é religioso, mas diz que registra a moto em lugares turísticos enquanto circula pela cidade. De dia, é funcionário de uma biblioteca pública em Vargem Grande Paulista, na Grande São Paulo. Pilota para complementar a renda e, de quebra, desfruta do tour turístico.

O que lhe chamou a atenção na construção foram as pedras extraídas e importadas de Israel. Foram 40 mil metros quadrados delas. Naquela noite, pode conhecê-las após entregar um hambúrguer no endereço ao lado.

A esposa evangélica tem orado para que o movimento nas ruas não pare enquanto Flávio tenta se manter protegido do vírus e das fake news. Na última mensagem que recebeu, ela conta que a recomendação era tomar chá quente. "Mas estou sentindo nas ruas que agora as pessoas estão acreditando no coronavírus", afirma, ao descrever as ruas que há dias estão desertas na capital.

O celular apita e ele retoma as entregas: mais um hambúrguer. A moto é guiada pela avenida vazia, enquanto o Templo de Salomão fica cada vez mais para trás. A mesma garoa fina e insistente, que em dias de normalidade banharia milhares de fiéis após o culto, entra firme pela noite.

André Lucas/UOL André Lucas/UOL

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