Mulheres, rotas alteradas

6 mulheres, filha, esposa, amiga, irmã e mães de mortos em Brumadinho, 6 meses depois. Vale de lágrima e lama

Talyta Vespa de Universa, em Brumadinho
Douglas Magno/UOL

Elas convivem com a informação de que seus muito amados morreram afogados em lama suja. Se você sente falta de ar só de pensar no fato, seis mulheres que visitamos e com quem passamos horas conversando contam o que acontece com elas. Dor no peito. Choro aos gritos. Sonho com a filha tendo dor e esticando os braços em sua direção. Infelizmente, essa é só parte da agonia que elas sentem.

A melhor amiga de uma delas estava grávida. Sonhava em ser mãe e foi enterrada com a filha na barriga. A filha de outra havia pedido à mãe para ser cremada ao morrer, porque tinha medo de ser enterrada viva. E foi. A mãe de mais uma morta dorme até hoje com as roupas de cama da filha para sentir seu cheiro. E uma viúva conta que chegou a ter raiva do filho porque ele é a cara do pai.

A mineradora Vale derramou o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas de rejeitos na vida dessas mulheres. Num acordo judicial, se comprometeu a pagar-lhes uma indenização. Ação que, além de não ser nada mais que o justo, é uma espécie de band-aid numa chaga. Ou alguém imagina não ser essa a sensação de perder um irmão assim e, ainda por cima, até hoje, não ter tido seu corpo encontrado?

O sistema de saúde de Brumadinho passou a distribuir 80% a mais de ansiolíticos e 60% a mais de antidepressivos para a população, cujos índices de suicídio ou tentativa de suicídio batem números preocupantes. Uma das entrevistadas detalhou como, às vezes, planeja se matar.

Como na canção "Rosa de Hiroshima", essas mulheres tiveram suas rotas alteradas. A lama foi estúpida e inválida.

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Uso os lençóis da minha filha pra sentir seu cheiro

Regina fala comigo em meio a tábuas, sacos de cimento e tijolos. A reforma de sua casa está parada, desde que a filha de 29 anos, Priscila, morreu. Mecânica terceirizada da Vale, ela gostava de levar os amigos para lá e, por isso, a mãe estava ajeitando o espaço. Durante a nossa conversa, Regina, que é assistente escolar e tem 55 anos, chora alto, perde o fôlego e preocupa os outros filhos, que lhe dão água com açúcar de tempos em tempos.

Ajudando a confortar Regina está, também, Letícia. Ela é amiga de outra filha de Regina, e perdeu a mãe na mesma tragédia. Amarina era cozinheira do restaurante da Vale e tinha 52 anos. Quando Letícia, 21, é quem cede ao desespero, Regina a abraça forte. A história das duas se misturara. A mãe diz que ganhou uma filha e a filha, que ganhou uma mãe.

Regina me conta:

"Eu tive que ir na casa da Priscila pra pegar uns documentos. Ah, meu Deus... A xícara estava na pia... Ela deve ter tomado café antes de sair. A geladeira estava desligada pra degelar. A cama estava com a pontinha do cobertor dobrada e a Bíblia em cima. Peguei todas as roupas. Mas não quis lavar. Durmo há seis meses com as roupas de cama da Priscila. Tudo pra sentir o cheiro dela.

A Priscila foi achada oito metros embaixo da lama. Imagina? Ela pedia pra mim, queria ser cremada, e não enterrada, porque tinha medo. Imagina enterrada viva?

Eu não acredito que perdi a Priscila, eu não acredito.

Às cinco da manhã, eu subia uma rua todinha pra pegar o ônibus pro trabalho. Lá em cima, encontrava com a Priscila, que também ia tomar a condução. Ela era mecânica, a minha filha; tão inteligente. E esforçada, que óia só. Às vezes, eu olhava pelo vidro do ônibus, e ela estava cochilando, encostada na janela. Pra não acordar, eu mandava um áudio, falando. 'Vai com Deus, filha'.

Só que aí, de um dia pro outro, ela foi naquele ônibus da Vale e nunca mais voltou. Ficou aquele vazio.

Minha filha dizia: 'Mãe, você tem que estudar, chega de trabalhar'. Decidi fazer o que ela mandou. Estou num curso de panificação. Mas continuo trabalhando. Quanto mais tempo fico parada, mais eu sofro.

Toda vez que sonho com ela, sinto que ela não tá bem, não. Teve um sonho que ela estava com dor e eu dava remédio pra ela. Ai, que saudade, filha.

Em dia de chuva, me dói o peito. Antes de encontrarem o corpo, eu imaginava que ela podia ter fugido pra mata. E com a chuva, ela ia sentir frio. Agora eu sei o que aconteceu, mas meu peito continua doendo na chuva.

Quando soube da barragem, saí correndo, descalça, porque soube que uns ônibus da Vale estavam parando na frente do ginásio. Entrei em cada um deles, gritando: 'alguém viu a Priscila, pelo amor de Deus?'. Ninguém tinha visto. Nem eu nunca mais vi."

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A mãe que conforta a filha que conforta a mãe

"Minha mãe servia comida na empresa fazia 30 anos e foi morta. Pela Vale. Um dia antes desse crime, ela me ligou. Disse que estava com medo de ser demitida porque uma doença degenerativa que ela tinha fazia tempo começava a afetar suas mãos. Ela chorou, dizendo do pânico de "derrubar comida em alguém'.

Dos três filhos, eu era a mais chegada. Ela gostava de beber uma cachacinha e eu também. Ela amava dançar, queria ir pras festas, parecia que tinha 15 anos. Meu domingo, que era o dia que a gente se encontrava, agora, é debaixo da coberta. Mesmo quando está calor. Eu só me sinto segura embaixo dela.

No dia 12, agora, foi aniversário da minha mãe. Eu sempre fiz um bolo, em casa, em todos os aniversários dela. Neste, decidi que ia fazer também. Foi um bolo de coco simplinho, que ela gostava. E cantei parabéns com a minha filha.

Assim que eu estiver melhor, vou retomar a obra. Ela vivia dizendo que queria um quarto maior, então ela vai ter. Minha mãe cozinhava salgado, torta, lasanha, e sonhava em ter um forno à lenha. Na casa em que eu moro agora, tem um forno desses. Eu não gosto de salgado, mas todo fim de semana, preparo um dos pratos preferidos dela; inclusive, salgado.

No Dia das Mães, não quis ver ninguém. Fui ao cemitério levar rosas pra ela. No penúltimo Dia das Mães, dei um buquê de rosas e ela chorou. Me disse que nunca tinha ganhado flor na vida. Ela chorou tanto, tanto. Foi tão bonito. A casa dela era cheia de flores. Não vou deixar nenhuma morrer, eu prometo."

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Minha amiga estava grávida. Era pra Maria Elisa estar aqui

A amiga de Juliana, Naninha, estava grávida de cinco meses. Eliane, que era o nome de Naninha, sempre sonhara em ser mãe;

"Ei, Naninha, como é que tá aí? Já faz tempo, de você, não ouço nada", cantarola Juliana, que é professora e tem 39 anos, enquanto se acomoda no sofá de sua casa para conversarmos. A musiquinha vem acompanhada da reza que ela faz todos os dias pela manhã para a amiga. Eliane era engenheira civil terceirizada da Vale e tinha 39 anos.

Seu corpo foi encontrado dentro de um carro, soterrado pela lama.

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Juliana conta mais de Naninha:

"A última vez que ela viu o WhatsApp foi às 12h28, exatamente na hora que a barragem estourou. Como será que foi?

Ela estava esperando uma menininha, que já era pra estar aqui. Seria a Maria Elisa. Mas a Naninha foi embora. Não digo que foi Deus que quis assim, porque quem quis assim foram os malditos homens da Vale. Foi um assassinato em massa o que aconteceu.

Eu custei a acreditar que ela tinha morrido porque, como era engenheira, achava que tinha escapado por alguma rota de fuga. Ela era muito esperta. Quando a gente era criança, o pai dela, que era bravo, não deixava ela sair de casa. Minha melhor lembrança dela é quando a gente ia catar manga em Inhotim --antes de Inhotim ser essa coisa grande toda aí. A gente morava na mesma rua e não se desgrudava.

A gente tinha uma banda e tocava clarinete. Nos shows, a gente aproveitava e tomava umas. Não consigo dormir sem pensar naquele gole que deixei de tomar com ela. A gente sempre marcava, marcava, e nunca ia. Agora, quando dá saudade, encho a cara sozinha. Depois de muito bêbada, eu durmo. Funciona melhor que antidepressivo.

A Naninha amava cavalo. No velório, vieram uns amigos de cavalgada dela e eles tocaram berrante. Foi triste demais da conta.

A Vale destruiu todo mundo. As pessoas estão doentes, o ar de Brumadinho está poluído, a cidade está agitada, feia. Eu perdi a vontade de sair de casa. Depois desse dinheiro que a Vale deu, todo mundo abriu um comércio. É o dia todo gente pra lá e pra cá, a cidade inteira comprando coisa. Tem gente que está com a ideia de transformar o caminho da lama em parque. Imagina, sentar num lugar onde um monte de gente morreu?".

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À noite, a dor é mais doída

Malvina Firmino é faxineira, tem 62 anos e criou quatro filhos sozinha, capinando, catando lenha e vendendo latinha. O mais velho deles, Peterson, de 35 anos, trabalhava como assistente de almoxarifado, terceirizado, da Vale.

Durante as cinco horas que passamos juntas, em sua casa, de tijolo aparente e com um quintal de onde se avista uma das minas da Vale, são muito poucos os minutos em que ela não chora. "É assim todo dia. Para um pouquinho, bem pouquinho, e continua chorando. Têm vezes que eu fico louca", diz Mary Cristina, filha de Malvina e irmã de Teco, como a família o chamava.

"Ela fugiu pro meio do mato, passou a faca no pulso e pediu para um policial dar um tiro nela. Foi um sufoco", me conta Mary Cristina, enquanto a mãe nos mostra os galos que o filho deu para ela. Malvina volta do quintal para o sofá, se aninha no corpo da filha e cutuca os dedos envoltos em esparadrapos. "Sem eles, arranco sangue".

Em uma das raras vezes em que Malvina levanta os olhos úmidos do sofá e me olha de frente, conta que passou a tomar cinco remédios por dia, desde que Teco morreu. "Três só à noite, quando a dor fica mais doída". E eles adiantam? "Não. A dor continua igual", diz ela, ainda com os olhos fixos em mim.

E Malvina fala mais:

"Vale assassina. Meu fio não sai do meu pensamento. Fico olhando pro portão e esperando ele fazer tec, tec. É ele chegando com a camisa do Galo (Atlético Mineiro). E fala 'Ei, mãe', e eu 'Oi, fio. Já almoçou, Teco? Não? Então vai lá, põe comida no prato e come'. Onde já se viu mãe enterrar fio?

Sinto muita saudade. Até tirei a foto dele do armário pra não ficar olhando. Ela tá guardada junto com uma camisa que ele deixou aqui na última vez que veio. Eu sempre tinha uma peça de roupa dele porque ele vinha, tomava banho, deixava a suja, pegava a limpa e eu lavava.

Fiquei só com as fotos dos meus netos, que eu não vejo há meses. Minha nora sumiu, não deu telefone pra eu ligar pra eles nem passou o endereço. É mais uma dor que eu sinto, ficar longe dos meus três netos, filhos do Teco. Acho que ela pensou que, depois dos R$ 100 mil que a Vale pagou pra ela, eu ia querer dinheiro (a empresa deu essa quantia para cada família de vítima). Não quero dinheiro. No dia do enterro dele, ela pediu que eu não desse vexame. Eu nem chorei pra não dar vexame. Tô chorando tudo agora.

No dia que a barragem rompeu, eu acordei estranha. A Mary também. Comi só um tiquinho do almoço, um pouquinho de arroz com torresmo e almeirão. Quando ela estourou, 12h28 (Malvina fala o horário especificamente), minha filha me contou e eu gritei 'liga pro Teco, pelo amor de Deus!'. Ligamos às 12h33. O telefone nem chamava mais. Ninguém tinha notícia. Meu outro fio, Fernando, foi pra lá correndo. Quis ir também, pelejando, com uma bolsinha, e o povo me puxando pra trás. Não me deixaram ir.

Ano que vem, nesse dia, quero beber um trem que me deixe apagada. Eu fiz aniversário dia 20 daquele mês. O Teco disse que ia vir me ver no domingo, dia 27. Deu tempo, não. Eu vejo a psicóloga do SUS uma vez por mês. Mas só adianta na hora, depois volta tudo de novo. Queria que a psicóloga viesse aqui e eu ficasse deitada. Enquanto ela falasse, eu ia dormir, pra eu não me sentir sozinha na hora de dormir. Nessas horas, só abraço me acalma.

Uma das galinhas que ele me deu sentiu a falta dele e morreu. Começou a ficar triste, triste... Até o coelho sente quando eu choro. Eu sento lá fora, e ele vem no meu colo. Às vezes, eu penso em amarrar uma corda ali e me pendurar. Ó, você pode colocar uma foto dos meus netos na reportagem e pedir pra eles virem ver?".

"Não posso, Malvina, porque eles são menores de idade. Precisaria da autorização da mãe deles", eu digo.
"Entendi, senão vou presa, né? Mas não me importo de ir presa não, viu. E, fia, volta aqui pra tomar café com bolo outro dia? Por favor."

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Toda notícia sobre o crime, mando pro WhatsApp dela

Foi Natalia que comprou o sapato que a irmã, Lecilda, usou no primeiro dia de trabalho na Vale, há 30 anos. Tinha quer ser preto e fechado. "A Lé tinha 20 anos e, eu, 18. Corri todo o centro de Brumadinho, achei numa única loja e comprei. Quando cheguei com ele, a Lé odiou, porque era muito feio mesmo", conta, com um sorriso machucado, Natalia, que é professora e tem 47 anos. "Ela era analista de sistemas, e na cidade era conhecida como 'Lecilda da Vale'".

Lecilda está entre as 22 vítimas não encontradas (foram achados os corpos de 248). Ela tinha 49 anos, dois filhos e era separada. A professora pediu que nosso encontro fosse em sua igreja, e não em casa. Natalia vai receber uma indenização da Vale e tem medo que ela e a casa sejam alvos de violência de forasteiros.

"Minha irmã fez 50 anos debaixo da lama", conta.

Natalia conta ainda:

"Você acredita que ela tinha dermatologista marcado para às 11h30 daquele dia, 25 de janeiro? Mas desmarcou, porque ia chegar uma nova funcionária na empresa e ela queria estar lá para recebê-la. Sei que ela não vai me responder, mas sempre que sai notícia sobre esse crime, mando um WhatsApp pra ela. Mando áudio também e digo que estou com saudade.

E se nunca encontrarem minha irmã, como aconteceu em Mariana? Não consigo seguir minha vida sem dar um fim nisso. Passo a madrugada acordando e olhando para o celular para ver se perdi a ligação do IML que vai me dizer 'acharam a Lecilda'.

Uma noite antes do crime, a Lé me ligou, e passamos uma hora conversando sobre a reforma que ela estava fazendo na casa dela e um presente que queria dar para uma amiga -até hoje não sei quem é. Ela se despediu com um 'bonita, vou dormir porque quem acorda cedo sou eu'. A Lé levantava às cinco para chegar às sete na Vale.

Minha irmã fez 50 anos debaixo da lama, no dia 27 de fevereiro. Foi horrível. E o Dia das Mães, então, meu Deus? A gente combinava o cardápio e o que cada um dos quatro irmãos ia levar para a casa da nossa mãe. Neste ano, fugimos para um restaurante em São João Del-Rei. Mas, na hora que sentamos na mesa, sem ela, todos nós choramos.

Eu passo as noites pensando se ela tentou correr, tentando imaginar como foi. Antes de ser medicada com ansiolítico e remédio para dormir, eu tinha pesadelo toda noite. Sonhava que ela estava debaixo de lama, com os braços para o alto. Acordava num pulo.

Em algumas noites, vou até a casa dela, faço uma sopa ou compro uma pizza para os meus sobrinhos. Da última vez, disse que ia fazer um suco e, enquanto batia o abacaxi no liquidificador, aproveitava o barulho pra chorar.

O pior dia é terça-feira à noite porque, nas quartas, temos reuniões com os bombeiros. Eles trazem novidades das buscas, detalhes de como elas estão acontecendo, e a gente fica sabendo que a dificuldade só aumenta. Se os bombeiros passam dois dias sem encontrar alguém, fico com medo que eles parem de procurar.

Minha mãe não sai de Brumadinho, porque tem medo que encontrem a Lé e ela não esteja aqui para fazer o velório. A dúvida, ela faz doer o peito."

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Tive raiva do meu filho porque ele é a cara do pai

Sentada em uma cadeira verde de plástico, Ana Paula me recebe, abrindo o portão de sua casa com um controle remoto. Seis meses após a morte do marido, André, que era tratorista na Vale, ela se recupera também de uma cirurgia de redução dos seios. "Eu tinha muita dor nas costas por causa do peso. Com o dinheiro da indenização, consegui fazer a operação", conta Ana Paula Rocha, que é pedagoga e tem 33 anos.

Ana Paula é mãe de Guilherme, de quatro anos. Em um dos momentos da entrevista, ela começa a pentear o longo cabelo -que o marido adorava- , e irrompe num choro. "Cheguei a sentir raiva do meu filho de tanto que ele parece com o pai". A casa em que ela me recebe também foi comprada com o dinheiro da indenização. "O Guilherme não conseguia mais dormir na casa em que a gente morava".

O rompimento da barragem matou também seu irmão, Luciano, que não foi encontrado, e dois primos.

Ana Paula diz mais:

"Guardei só o perfume do André e uma camisa que ele usou no último casamento que fomos juntos. Eu ainda não tinha lavado e ela estava com o cheiro dele. Enfiei a camisa num saquinho e dei um nó bem rente pro cheiro não sair. Quando sinto muita saudade, aperto o saquinho e o cheiro do perfume vem bem no meu nariz.

O André me ligou pouco antes de a barragem romper. Queria falar sobre umas dívidas que estavam me preocupando. Eu estava na rua essa hora, o Guilherme chorava porque queria sorvete, então, pedi que ele telefonasse depois e desliguei rápido. Fui almoçar na minha avó e recebi a chamada de uma amiga. 'Paula, o André e o Luciano estão tudo trabalhando?'. Disse que sim e perguntei o que tinha acontecido. 'A barragem estourou e foi feio'.

Derrubei o prato no chão e comecei a chorar. Foi uma correria; todo mundo ligando pra todo mundo, ninguém atendia. Consegui, depois de muito tempo, falar com o Cristiano, meu irmão caçula, que também trabalha na Vale. Ele sobreviveu porque não estava na empresa. Chegou a pé, chorando, e disse: 'Não sobreviveu ninguém'.

Desde que o André morreu, o Guilherme não consegue dormir na casa em que a gente morava. Quando tentamos voltar, depois de ficar 40 dias na minha mãe, ele chorou tanto no portão, que perdeu o fôlego. Ele dizia que queria o papai. Eles eram grudados. Eu trabalhava em duas escolas, e era o André que cuidava do Guilherme. Ele ia até em reunião de pais, olhava a carteira de vacinação e fazia as compras de casa.

O Guilherme sabe muito bem o que aconteceu. Diz que a Vale matou o pai dele. Toda vez que vê barro, ele pergunta: 'é o acidente da Vale?'. E, quando me vê chorando, fala: 'Meu coração também tá fazendo tum tum de saudade'.

Quem tá com saudade, também, é o Pirulito, a calopsita. Ela parou de cantar desde que o André morreu.

Faz só um mês que voltei a dormir na nossa cama. Antes disso, só no sofá. Agarro o Guilherme à noite porque sinto frio, sozinha. Tem vezes que olho pra ele dormindo, vejo os redemoinhos que ele tem na cabeça, igual o pai, e fecho o olho com força.

Sinto muita culpa de ter tido raiva dele. Me sinto uma péssima mãe. Mãe boa, mesmo, é a minha, que se mantém forte mesmo sem o filho. Ela cuida de mim até agora. Eu de cama, chorando, e ela, forte. Ela tem uma fé imensa. Eu me revoltei com Deus. Tenho vontade de ficar sozinha até morrer e não falar com ninguém.

A psicóloga da empresa vem toda a semana aqui. Quando vejo qualquer coisa com o símbolo da Vale, fico com raiva; então, acabei garrando ódio dessa psicóloga.

Comprei essa casa nova e passa muito helicóptero aqui. Sempre que escuto um, meu coração dispara. Penso: 'Acharam o Luciano'. Vivo a dor da morte do meu marido e a de não terem encontrado meu irmão".

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