Trans superpoderosas

Assim como heróis de HQs, 7 quadrinistas transexuais da CCXP contam como vencem batalhas e derrotam vilões

Carlos Minuano Colaboração para Universa
Mariana Pekin/UOL

Semelhante ao que vivem heróis e heroínas do universo dos quadrinhos, sempre às voltas com vilões que atazanam suas vidas, pessoas trans também enfrentam perigos de todos os tipos em cenários de um país transfóbico. Só que as ameaças que precisam encarar diariamente são bem reais.

No país que mais registra assassinatos de travestis e transexuais (de acordo com dados da ONG Transgender Europe), quadrinistas transgêneros ímbuidos dos superpoderes de suas HQ's entraram de vez na briga.

Além da violência, intolerância, exclusão no mercado de trabalho, falta de acesso a serviços de saúde são alguns dos problemas.

Para Universa, sete cartunistas trans -Laerte, Alice Pereira, The Joco, Lana Clarice, Luiza Lemos, Ico Duarte e Ellie Irineu- contam como vivenciam essa batalha em suas vidas pessoais como seus personagens que, em sua maioria, além de retratar uma vida de muitos obstáculos, exercem papel fundamental para ajudar a explicar a transgeneridade para uma sociedade ainda excludente e preconceituosa.

Todos os nomes dessa nova geração de artistas trans ouvidos pela reportagem estão no badalado festival de cultura pop CCXP 2019, que acontece no SP Expo até domingo.

Laerte, a heroína do universo

Para a conhecida quadrinista paulistana Laerte, descobrir a transgeneridade perto de completar 60 anos foi uma espécie de bônus na carreira. Ela já tinha muitos quilômetros rodados nos quadrinhos e uma obra conhecida e consolidada no mercado.

O "turning point" na vida da cartunista surge por volta de 2004, quando buscava mudanças de linguagem e no foco de seu trabalho, mas conta que a procura não tinha relação direta com suas preocupações sobre gênero. "Foram ondas de transformações pessoais que se somaram", analisa a quadrinista.

Porém, quando começou a se vestir com roupas femininas e a adotar mudanças na expressão de gênero, Laerte viu sua vida se tornar alvo de uma enorme exposição na mídia. E a cobertura da imprensa durante a transição transformou a cartunista numa espécie de heroína do universo trans.

Com o espaço midiático que obteve, ela ampliou o debate sobre o tema da transgeridade e ainda abriu caminho para uma nova geração de artistas trans.

Em seu trabalho pessoal, a questão trans se tornou um tema à parte. "Já tinha abolido os personagens, mantive apenas a Muriel, porque me interessava como uma espécie de pingue-pongue comigo mesma, ela vivia nos quadrinhos o que eu vivia na vida real."

A cartunista não sabe identificar o quanto e onde a questão de gênero está presente hoje em sua nova fase profissional, pós-transição, muito mais livre e distante do padrão "piada rápida" típico das tirinhas. Mas não abre mão de seu lugar nos quadrinhos trans, que segundo ela chegaram para ficar.

Recentemente, Laerte integrou o júri de um concurso na Argentina de um festival de HQ todo dedicado ao tema da transgeneridade. Participaram quadrinistas de toda a América Latina e os vencedores tiveram seus trabalhos publicados na coletânea "Poder Trans" - mesmo nome do evento.

Alice Pereira em busca de espaço

Autora da HQ autobiográfica "Pequenas Felicidades Trans", a carioca Alice Pereira, 46, há mais de uma década sonhava em trabalhar com a nona arte. "Sempre gostei mas não achava que tinha capacidade para fazer", conta. Apesar da dúvida, abandonou a carreira de engenheira e decidiu arriscar.

A estreia veio com o livro "A História do Petróleo em Quadrinhos", lançado em 2016 (editora Jaguatírica). Logo em seguida encarou a transição de gênero. "No princípio foi bem difícil, mas à medida que fui contando para as pessoas se tornou mais fácil". E as HQ's tiveram um papel importante nesse processo.

Ela concorda que o espaço para artistas trans está aumentando, mas da mesma forma que cresce para as pessoas transgêneras de modo geral, ou seja, ainda insuficiente. "Muito lentamente e muito aquém do que deveria", reclama.

Apesar da maior representatividade em várias áreas, na opinião de Alice, nos quadrinhos ainda falta muito para uma cena realmente forte. "Qual artista trans está publicando por uma grande editora?"

Para ela, a visibilidade ainda é muito pequena e restrita a um nicho limitado. A cartunista defende ser necessário arrebentar a bolha para atingir mais pessoas. "Além da Laerte, que já era famosa, quadrinistas trans produzem por vias alternativas, de maneira independente, por meio de financiamento coletivo e com a ajuda de amigos, é muito difícil."

Não basta contar as histórias, elas precisam chegar até as pessoas, observa Alice. "Uma maior exposição é fundamental para que a sociedade enxergue o indivíduo trans com mais empatia, sem olhar para eles como se fossem seres de outro planeta."

Um estímulo para avanços, segundo ela, pode vir da onda conservadora que no Brasil tem ganhado força a partir do governo do atual presidente Jair Bolsonaro. "Ninguém vai nos parar ou nos calar."

Se não houver uma repressão mais violenta - algo que ela admite temer - do ponto de vista cultural, acredita que a perseguição fortalecer o debate sobre a realidade das pessoas trans no Brasil.

O que ocorreu com a HQ que mostrava um beijo gay na Bienal do Livro do Rio de Janeiro foi um bom exemplo, ninguém notaria se não tivesse sido censurada

The Joco e a função terapêutica da HQ

Conhecida na internet como The Joco, a quadrinista mineira de Belo Horizonte, Jocosa, 20, começou a produzir HQ's em 2012 ainda no início da adolescência. "Durante meses fiz uma história horrorosa de um menino que odiava o mundo e que matava todos."

A inspiração veio dos muitos mangás e gibis norte-americanos que leu desde pequena, além de uma série de outras coisas que considera hoje esdrúxulas, mas que afirma terem sido importantes para a sua formação.

A volta às HQ's e ao desenho - hoje sua principal fonte de renda - foi em 2018, na faculdade, em uma disciplina do curso de animação e artes digitais. "Tinha que produzir um livro com temática artística, escolhi falar sobre questões de gênero em quadrinhos", conta.

A partir daí decidiu começar a relatar em HQ's seu processo pessoal com a transgeneridade, inicialmente falando de dificuldades que enfrentava com o próprio corpo. "Me chocou a quantidade de pessoas que me procuraram dizendo passar pelo mesmo."

Ela se lançou a produzir tirinhas diárias para publicar na internet, sobre coisas muito pessoais e logo se deu conta da função terapêutica do que estava acontecendo.

"Fui percebendo que não estava fazendo aquilo para as outras pessoas, mas sim para viver meu próprio processo, foi uma maneira de tocar nessas questões."

Atualmente, The Joco segue firme na pauta da representatividade em sua produção. Já comprou algumas brigas na rede por causa de tirinhas que publicou criticando, por exemplo, a série de animação da Netflix "Super Drags", que, segundo ela, retrata homens gays estereotipados por um viés falocêntrico e a hipersexualização de personagens femininos em games como o Mortal Kombat.

No caso da animação "Super Drags", apesar das polêmicas a série foi cancelada no final de 2018 porque não teve a audiência esperada, segundo a Netflix. Mas deverá ficar no catálogo da plataforma nos próximos anos, segundo informou o serviço de streaming por meio de sua assessoria.

A cartunista The Joco está bem animada com a participação na edição deste ano da Comic Con Experience. "Pela primeira vez vou sair do Estado de Minas Gerais para mostrar meu trabalho."

Mariana Pekin/UOL

Lana Clarice contra o silêncio

Com tirinhas e ilustrações, a quadrinista carioca Lana Clarice, 22, busca levar informações sobre e para a população LGBT. Ela está há pouco tempo no mundo dos quadrinhos e afirma ter como um objetivo ocupar um espaço de representatividade, que segundo ela, cresceu sentindo falta.

A inspiração veio da cartunista americana Julia Keye, que transformou seu processo de transição de gênero na divertida série de tirinhas "Up and Out" publicadas nas redes sociais. Assim, percebeu que através de seus personagens trans poderia, além de contar a própria história, ajudar outras pessoas.

A trajetória ainda curta nos quadrinhos não impediu Lana de sentir na pele as consequências que o almejado lugar de representatividade pode trazer. "Já recebi muitas ameaças por ser trans e por falar dessa temática", conta a quadrinista. "Querem nos silenciar."

Mariana Pekin/UOL Mariana Pekin/UOL

Luiza Lemos para além do trans

Carioca, Luiza Lemos, 42, vive há nove anos em Paraty, e desde 2009 trabalha com quadrinhos. "Comecei publicando na internet, três anos depois lancei minha primeira HQ impressa". Em 2016 ela passou pela transição de gênero e a partir desse momento sua produção passou a focar a transgeneridade.

Inspirada em seu próprio cotidiano, a série Transistorizada, retrata, como ela mesma descreve, "desde a saída do armário até a revelação pública", misturando boas doses de humor e crítica.

Além disso, Luiza conta estar iniciando outros trabalhos em que aborda temáticas femininas, mas sem entrar diretamente na questão da transgeneridade. "Faço questão de me colocar no meio como uma quadrinista trans, mas não quero ser vista como alguém que faz apenas isso".

Ico Duarte debate ansiedade

De Belo Horizonte, o ilustrador trans, Ico Duarte, 22, faz quadrinhos há aproximadamente três anos. A principal influência, segundo ele, veio das HQs japonesas e chinesas que ele devora há anos.

Ele reclama das dificuldades no campo profissional. "Muita gente não entende o que somos, o que sentimos, e não nos aceita, são muitas as dificuldades, principalmente no trabalho, qualquer área de atuação é complicada para uma pessoa trans", desabafa o artista.

Ico ainda não abordou a temática trans nas suas criações, mas acredita que em breve devem surgir personagens e situações do cotidiano das pessoas transgêneros em suas histórias. Atualmente tem se debruçado sobre outros dois assuntos também bastante relevantes: depressão e ansiedade.

Ellie Irineu: transição desenhada

A carreira nos quadrinhos teve início em 2014 para a paulistana Ellie Irineu, 25. As primeiras experiências autobiográficas eram publicadas na internet. "Tinha iniciado a minha transição e passei a registrar isso no desenho."

Sem grandes pretensões, a jovem artista foi avançando. Conhecer outras quadrinistas trans, segundo ela, foi importante para amadurecer sua produção. Hoje tem um espaço consolidado na cena independente.

Ellie foi uma das finalistas do concurso argentino Poder Trans e teve seu trabalho publicado no livro homônimo. Ela comemora a quantidade de cartunistas trans e a maior visibilidade que produções estão obtendo. "Em todos as áreas estamos conquistando espaços, as HQ's são mais uma face disso."

Uma HQ de Ellie Irineu também pode ser conferida na recém-lançada coletânea de quadrinhos "Histórias Quentinhas Sobre Sair do Armário", "todas com finais felizes", destaca a cartunista. O livro, independente e produzido por meio de financiamento coletivo, traz ainda trabalhos deAnnima de Mattos, Aline Lemos e Renata Nolasco e capa de Dika Araújo.

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