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No livro "O Casulo" brasileira conta trajetória de favela no Rio aos estudos acadêmicos em Roma

Laila dos Santos, autora de "O Casulo" - Reprodução / Instagram
Laila dos Santos, autora de 'O Casulo' Imagem: Reprodução / Instagram

10/07/2021 14h58

A brasileira Laila dos Santos nasceu no morro do Cubango, bairro de Niterói, no Rio de Janeiro. Dotada de coragem e determinação, lutou e superou obstáculos. Estudou, formou-se jornalista e depois migrou para a Itália, onde se graduou como mestre em Comunicação de Massa, pela Universidade La Sapienza, em Roma. De volta ao Brasil, escreveu o livro "O Casulo", da Editora Ubaldo, que se transformou em um sucesso. Laila conversou com a RFI da sua casa em Icaraí, em Niterói, onde vive hoje. 

A brasileira Laila dos Santos nasceu no morro do Cubango, bairro de Niterói, no Rio de Janeiro. Dotada de coragem e determinação, lutou e superou obstáculos. Estudou, formou-se jornalista e depois migrou para a Itália, onde se graduou como mestre em Comunicação de Massa, pela Universidade La Sapienza, em Roma. De volta ao Brasil, escreveu o livro "O Casulo", da Editora Ubaldo, que se transformou em um sucesso. Laila conversou com a RFI da sua casa em Icaraí, em Niterói, onde vive hoje.

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

"O Casulo na verdade estava dentro de mim. Só precisava colocar pra fora essa transformação, essa metamorfose humana. Eu escrevi o livro no momento mais apropriado que foi o primeiro ano de pandemia. Quando a vida deu aquela reviravolta, nós ficamos perdidos. Eu tinha uma empresa, que ainda tenho no meu nome, que foi obrigada a fechar devido à pandemia. A minha cabeça estava dando voltas e pensei: 'Eu preciso manter a calma, a serenidade, o autocontrole. Vou escrever'. Não sabia se eu era boa para isso, mesmo gostando muito dos livros. Eu comecei a escrever e só parei quando o livro ficou pronto" disse.

A obra é uma autobiografia, na qual Laila conta a sua história relacionada a fatores impactantes que aconteceram no mundo. Por exemplo, quando nasceu seu primeiro filho, em 2001, houve os ataques às Torres Gêmeas nos Estados Unidos.

"Eu vou coligando esses fatores externos que atingem a gente de qualquer maneira, o nosso emocional. Eu vou contando isso, então 'O Casulo' fica dinâmico, envolvente e interessante" explicou.

Livro escrito no celular

Quando Laila começou decidiu escrever o livro, o computador da sua casa estava quebrado. "Com a minha empresa fechada durante a pandemia, eu não podia me permitir comprar um computador novo. Meu celular também estava quebrado, e ainda está. Meu celular é meu amuleto da sorte, né? Ai tinha um programa de texto dentro do celular, no qual comecei a escrever. Quando me dei conta, já tinha escrito 240 páginas de um livro que depois foi reduzido para 162 páginas. Primeiro foi a dificuldade de começar. Quando eu dei o pontapé inicial, não parei mais. Em 45 dias 'O Casulo' ficou pronto. Foi maravilhoso e está fazendo bastante sucesso."

Laila disse que sempre gostou das borboletas. Para ela, o momento da transformação da lagarta em borboleta é uma metáfora do amadurecimento humano.

"Nos momentos de grande tristeza, as borboletas apareciam sempre e me alegravam. Aí eu comecei a pensar na metamorfose humana relacionada à do inseto. Antes o inseto é ovo, depois vira uma lagarta até se transformar em borboleta. O que acontece entre a lagarta e a borboleta? Ela volta para o casulo dela, fica no silêncio da metamorfose e se transforma. Com a gente é a mesma coisa. O ser humano nasce, se relaciona, cresce, e nesse percurso de relacionamento ele pode ter alguns traumas. Muitas vezes é necessário voltar para o casulo, ou seja, fazer como a lagarta que fica parada na árvore esperando a metamorfose para virar uma borboleta. Igualmente na fase adulta, a gente tem que parar e refletir no nosso casulo", diz.

Transformar obstáculos em oportunidades

Laila nasceu em uma família pobre. Ela é filha do serralheiro Lázaro e da dona de casa Sônia. No livro ela conta com detalhes as dificuldades financeiras que passou na infância e que aprendeu a ver o lado positivo da vida.

"Tem uma frase muito legal do 'Casulo' que eu digo que nada é castigo. Tudo é aprendizado. Mesmo as dores mais profundas vão fazer você vir fora de uma forma mais humana, mais linda, mais forte. Travei muitas lutas na minha vida. Quando eu era pequena eu morava em uma casa de pau-a-pique, mas, para mim, a minha casa era um castelo. Era o meu castelo. Meus pais não tinham condições de pagar o aluguel sempre, então eles se mudavam de bairro e de casa. Isso acabava me fazendo uma pessoa mais rica porque fazia novos amigos. Não é tão ruim assim, muito pelo contrário, mas depende da visão de cada um. Tudo na minha vida eu vi como aprendizado, tudo foi sempre positivo" disse.

Ela conta também lembranças da infância, de quando viveu no bairro da Engenhoca, em Niterói, em uma área sujeita a fortes enchentes. "Ao lado da minha casa havia um valão que, quando chovia muito, inundava. Eu ficava olhando preocupada que a inundação levasse a minha casa, mas depois que a água ia embora, me trazia bolas. Eu brincava de queimada com essas bolas na rua. Era uma criança muito feliz. 'O Casulo' vai te mostrando que tem sempre um toque de magia na vida, tem sempre uma coisa maravilhosa, tem sempre uma borboleta para te acariciar. São as carícias que Deus te faz na alma."

Outra lembrança que marcou a sua vida foi acompanhar sempre a sua avó na feira para pegar frutas e verduras que os feirantes jogavam fora. "Eu ia com a minha avó no final da feira para catar a xepa. Mesmo sendo tão pequenininha e magrinha, eu me sentia grande porque carregava a bolsa cheia de legumes para levar para casa e ajudar a minha família. Quando passávamos na frente do açougue, minha avó dizia para eu entrar e pedir as pelancas, os restos da carne, as gorduras que jogavam fora. Nada me pesava, eu me sentia útil. Minha mãe cozinhava a sopa aproveitando a parte boa dos legumes e os pedacinhos de carne das pelancas que davam sabor. Eu esperava a sopa esfriar, retirava gordura que subia no prato e comia uma sopa deliciosa", relata.

Viver e estudar na Itália

Laila superou as dificuldades e formou-se em jornalismo. Ela trabalhou em alguns veículos de comunicação, como Rádio Tupi, TV Gari e outros. Em 2000 ela decidiu pedir demissão da Rádio Globo e ir viver em Roma, onde uma amiga morava.

"Minha família se reuniu para pedir que eu não me demitisse para ir em busca do desconhecido. A vida é uma aventura: é o que eu falo no meu livro. Cheguei em maio em Roma, fiz um curso intensivo de italiano e em menos de um ano eu já estava estudando na Universidade La Sapienza.

Conheci meu marido em Roma, ele é romano. Nos casamos, tivemos três filhos, Carolina, Leonardo e Luca", conta.

Laila viveu 16 anos na Itália e considera essa experiência como "um presente divino". "Eu frequentava a cultura italiana, levava meus filhos para o balé, para natação, para a ópera, por exemplo. Frequentávamos o Auditório de Santa Cecilia, onde ouvíamos música clássica. Estudava a história da arte vendo museus e monumentos maravilhosos, como o de Bernini na Praça Navona. Eu aproveitei também o melhor de Roma."

Em diversos momentos da vida, Laila enfrentou seus objetivos com coragem e determinação. Segundo ela, o sonho de ser jornalista surgiu quando era pequena, mas a sua prima a desaconselhou. "Quando eu falava para a minha prima que queria ser jornalista, mas ela me respondia: 'você já viu um preto jornalista?' Eu pensava na Glória Maria e dizia que seria a outra preta jornalista. Sorri para a minha prima e me formei em jornalismo."

Um episódio semelhante aconteceu com o sogro de Laila em Roma. "Quando eu me inscrevi para o mestrado na Universidade la Sapienza, em Roma, meu sogro me disse: 'minha filha, fazer faculdade já é difícil para um italiano, imagine para uma estrangeira como você'. Eu olhei para ele, sorri e no dia seguinte meus documentos estavam sendo traduzidos para me inscrever na universidade. Eu me formei como mestre em Comunicação de Massa com nota 100. Sorri para o meu sogro assim como sorri para a minha prima", comemora.

Em 2016, Laila decidiu voltar à Niterói. Na época, ela havia sido convidada por um professor a fazer um doutorado em Roma.

"Naquela ocasião me olhei no espelho e me perguntei por que eu ainda estava estudando. Meditei e percebi que provavelmente estava querendo provar para minha família que eu era capaz. Portanto, não valia mais a pena. Eu não tinha que provar nada para ninguém. Agradeci a todos e decidi voltar ao Brasil. Minha mãe estava doentinha. Quis voltar para a minha terra porque meus filhos precisam da cultura brasileira para serem mais ricos. Eles têm a cidadania italiana, assim como eu. Eles precisavam sair da zona protegida porque a vida não vai ficar passando a mão na cabeça deles. Então viemos ao Brasil. Estou muito feliz, mas não sei quanto tempo vou permanecer aqui", finaliza.

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