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Covid-19 pode ter graves consequências para os esportes femininos, alerta pesquisadora francesa

Nos debates e mesas redondas sobre o futuro do esporte pós-pandemia, tudo basicamente ficou centralizado nas competições e eventos masculinos - iStock
Nos debates e mesas redondas sobre o futuro do esporte pós-pandemia, tudo basicamente ficou centralizado nas competições e eventos masculinos Imagem: iStock

15/09/2020 14h09

Seis meses depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) ter confirmado a covid-19 como uma pandemia, o mundo esportivo continua se adaptando a uma realidade difícil e sem perspectiva de volta à normalidade. Os especialistas também alertam para as dificuldades que os esportes femininos vão enfrentar no futuro.

Assim como muitos outros segmentos, o universo esportivo foi atingido em cheio por um inimigo invisível. O novo coronavírus provocou a interrupção e cancelamentos de competições profissionais e amadoras em todo o mundo, obrigando a uma reviravolta em todo o calendário esportivo.

O impacto e os desafios impostos pela pandemia têm sido analisados em detalhes pelo Observatório geopolítico do Esporte, do famoso think thank francês IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas), baseado em Paris.

"A curto prazo, a pandemia provocou em todo o mundo esportivo, tanto profissional quanto amador, uma onda súbita de cancelamentos de grandes eventos. Inevitavelmente, isso gera uma reviravolta total no calendário, ritmo e nos modelos esportivos. A longo prazo, vemos uma potencial dificuldade financeira que algumas modalidades ou clubes vão enfrentar devido ao seu modelo econômico. Vamos ter também questionamentos sobre a prática esportiva em si", afirma Carole Gomez, diretora de pesquisas do Observatório, que promove discussões e debates para entender e observar os efeitos da covid-19 no esporte.

"A questão é saber se as pessoas que praticavam esportes, de qualquer modalidade e em qualquer lugar no mundo, vão voltar a se inscrever para praticar esportes nos seus clubes ou academias. Ainda é muito cedo e vai ser preciso esperar muitos anos para tirar conclusões", completa.

Segundo ela, a situação sanitária revelou sobretudo a fragilidade do modelo econômico dos clubes de futebol, muito dependentes dos direitos de transmissão de redes de tevê. A suspensão das competições expôs as dificuldades financeiras e vai ser preciso um certo tempo para avaliar se esse modelo será revisto.

Retomada progressiva das competições

Com a circulação ativa do vírus, a retomada de eventos e competições, como os campeonatos de futebol na Europa, foi sendo progressiva, seguindo a evolução da pandemia nos países. Apesar da adoção de protocolos sanitários rígidos de distanciamento físico, sem a presença de público e limitação de profissionais, como jornalistas, nos locais de competição, a covid-19 não tem dado trégua.

Nos últimos dias, tem sido comum ver nas manchetes de sites e jornais atletas ou dirigentes contaminados com o novo coronavírus. Só a equipe do PSG teve uma baixa de sete jogadores, entre eles, os brasileiros Neymar e Marquinhos. Mbappé, que estava com a seleção francesa também foi testado positivo e colocado em quarentena.

No Aberto dos Estados Unidos, o tenista Benoît Paire, foi identificado com a doença e quem teve contato com ele também ficou isolado. Na França, Christian Prudhomme, o diretor esportivo da prova ciclística de rua mais famosa do mundo, a Volta da França, anunciou, ser vítima da Covid durante a prova.

"Decidimos que eu não deveria estar no pelotão que acompanha a corrida porque tenho contato com muitas pessoas, como os ciclistas, patrocinadores, jornalistas. Por outro lado, eu quis me submeter a todos os testes como todos os corredores. Vou ficar afastado durante uma semana, como dezenas de milhares de trabalhadores franceses que devem ficar distanciados de seu trabalho quando estão no mesmo caso que eu. Também quero relativizar meu caso em relação aos 30 mil mortos na França porque eu testei positivo mas estou bem. O mais importante é que nenhum corredor possa ser infectado", disse Prudhomme.

Olimpíadas de Tóquio será teste

Organizadores, atletas e público estão sendo forçados a se adaptar a uma nova realidade, que em certa medida, acelerou uma reflexão sobre o futuro do esporte de maneira mais ampla. Para Carole Gomez, as mudanças mais profundas serão observadas nos próximos grandes eventos esportivos, como as Olimpíadas de Tóquio, que serão um grande teste para avaliar as adaptações de uma nova maneira de organizar, praticar e divulgar uma competição planetária.

Depois da difícil decisão de anular os Jogos previstos para agosto deste ano e adiá-los para o ano que vem, o comitê organizador garantiu que, com ou sem pandemia da covid-19, as Olimpíadas vão acontecer na capital japonesa.

"É interessante observar como os organizadores estão buscando se adaptar e compreender os desafios sanitários, econômicos e sociais atuais para poder proporcionar o espetáculo e o esporte do futuro. Assim como em tantos outros segmentos, eles devem encontrar soluções inovadoras para cumprir não apenas com suas obrigações contratuais, mas também continuar a oferecer ao público o esporte, como prática e também como espetáculo", diz Carole.

Para os observadores da geopolítica e economia do esporte, ainda é cedo para identificar as modalidades ou setores esportivos que foram mais duramente atingidos pela crise sanitária. No entanto, segundo a diretora de pesquisas do IRIS, é possível num primeiro momento, constatar que o esporte feminino foi muito impactado.

"Nas diferentes análises que foram feitas, há um verdadeiro sinal de alerta para o esporte feminino e não somente no futebol. Isto porque a divulgação, a popularização e a democratização do esporte feminino estão respaldadas na prática e na midiatização. Como para todo o conjunto da população, seja homens ou mulheres, não havia como praticar esportes e constatamos que houve uma perda dessa prática esportiva. O esporte feminino simplesmente ficou totalmente ausente da mídia", afirma.

Nos diversos debates e mesas redondas sobre o futuro do esporte pós-pandemia, tudo basicamente ficou centralizado nas competições e eventos masculinos, como o campeonato francês, a Eurocopa 2021, a Liga dos Campeões, a NBA americana, além de outras modalidades como vôlei ou handebol.

"Houve apenas uma pequena, pequena mesmo, reflexão sobre o futuro das competições femininas. Não havia resposta alguma sobre o que iria acontecer. Isso mergulhou as atletas numa tristeza e incerteza assim como os patrocinadores. Vimos assim, muitos atores desse setor recuando de seus compromissos com clubes e ligas. Isso poderá ter graves consequências principalmente a longo prazo", alerta.

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