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'Batom para quê?': isolamento e máscara provocam queda inédita na venda de maquiagens na França

Vendas de maquiagens caíram globalmente 16,9% desde o início do ano; a maior vítima foi o batom - Jamie Grill/Getty Images
Vendas de maquiagens caíram globalmente 16,9% desde o início do ano; a maior vítima foi o batom Imagem: Jamie Grill/Getty Images

10/09/2020 13h47

A quarentena prolongada e o uso obrigatório de máscaras contra a covid-19 na França provocaram um tombo inédito nas vendas de maquiagem no país, conhecido como uma referência mundial de moda e beleza. "Passar batom para quê?", dizem as francesas ao serem questionadas sobre as mudanças de hábitos desde o início da pandemia de coronavírus.

"Eu adoro maquiagem, mas com a máscara, não adianta nada. Não vou ficar gastando os meus batons", diz a adolescente Samia, 16 anos, aluna de uma escola do 15° distrito de Paris. "Eu ainda coloco de vez em quando porque gosto e para hidratar os lábios. Mas uso numa frequência muito menor do que antes", complementa a amiga Vanessa, da mesma idade.

Uma conversa com as francesas pelas ruas da capital revela o quanto as pesquisas de mercado sobre a queda das vendas de maquiagem apontam na direção correta: apenas as mais vaidosas continuam colorindo a boca com batom e escondendo as imperfeições da pele com base ou pó. A maioria, quando se maquia, valoriza apenas a parte do rosto que permanece exposta em tempos de covid: os olhos.

"Eu adorava me maquiar toda. Comprava regularmente novas cores. Mas, agora, só coloco o mínimo nos olhos", revela a enfermeira Joanna, 26 anos. "O lado bom é que estou economizando o dinheiro da maquiagem e podendo gastar mais com cremes de beleza", indica a professora Natasha, 33 anos.

Reabertura do comércio não animou

Um relatório da consultoria especializada Nielsen, divulgado nesta semana, mostrou que as vendas de maquiagens caíram globalmente 16,9% desde o início do ano. No auge da pandemia, entre março e maio, o recuo chegou a 53%, mas a volta da atividade econômica não animou as francesas a recarregarem os estoques de maquiagem: as vendas seguiram em baixa de 6,3% a partir de junho.

"São números inéditos para o setor. As vendas despencaram e não retomaram com a reabertura do comércio e dos restaurantes", constatou Mathilde Lion, analista de beleza da consultoria NPD, à emissora FranceInfo.

A maior vítima foi o batom: depois de uma queda de 75% durante o isolamento rígido adotado na França, o decréscimo permaneceu depois da retomada das atividades: -26,4%. Rímel, lápis e sombras para os olhos são os únicos a se recuperarem - voltaram a um nível semelhante ao mesmo período do ano passado, conforme o estudo da Nielsen.

Foi exatamente essa tendência que a make-up artist Justine pôde constatar, no supermercado Monoprix, revendedor das marcas mais comuns do mercado. "Toda a hora temos promoção de maquiagens e os batons não vendem nem com um preço bem mais baixo", afirma a vendedora, que também atua como maquiadora autônoma para eventos. A quarentena levou ao cancelamento de festas em geral, como casamentos, e e filmagens de produções de cinema ou publicidade, onde ela costumava trabalhar.

"A procura por maquiagem segue muito em baixa. Quando me ligam, é para arrumar o cabelo, que chama mais a atenção do que o rosto com máscara", revela Justine.

Abandonar a maquiagem?

A vendedora Sophie confessa que a quarentena a estimulou a perder o hábito de se maquiar. "Nunca fui muito de usar. Só colocava para o trabalho. Agora, tenho a desculpa ideal", brinca.

Ao seu lado, a colega Jennifer termina um cigarro, durante a pausa do trabalho. Exibe um make-up impecável, sob a máscara puxada para o lado enquanto fuma. "É verdade que eu parei de comprar novos produtos, mas continuo usando, inclusive batom. Não troco o meu ritual de maquiagem da manhã por nada", afirma a funcionária de uma loja de ternos, no bairro Beaugrenelle. "Tenho que passar o dia inteiro com a máscara, mas me sinto bem maquiada", diz Jennifer.

As pesquisas indicam que as fiéis consumidoras da maquiagem têm dado preferência aos produtos de longa duração e que não mancham a máscara, como os batons opacos.

Outro alvo para a nova economia é o look para vídeos. Nos Estados Unidos, uma nova marca ganha destaque entre as influenciadoras digitais, ao prometer lábios carnudos naturalmente - a aparência ideal, afirmam, para as videoconferências em home office.

A mudança nos hábitos de beleza obriga as marcas a reverem suas estratégias, já que vida não deve voltar ao normal tão cedo. A francesa Estée Lauder demite 2 mil funcionários em todo o mundo e a britânica Boots vai dispensar 4 mil empregados.

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