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Violência contra a mulher

Justiça francesa investiga escritor premiado acusado de estupro de menores

O escritor francês, Gabriel Matzneff  - Jacques Demarthon/AFP
O escritor francês, Gabriel Matzneff Imagem: Jacques Demarthon/AFP

03/01/2020 13h46

A Justiça francesa abriu hoje um inquérito contra o premiado escritor francês Gabriel Matzneff, 83 anos, acusado de estupro de menores. A decisão foi tomada depois do lançamento do livro da editora francesa Vanessa Springora, ontem. Na obra "Le Consentement", ou "O Consentimento" em tradução livre, ela detalha como foi dominada por Matzneff, que a seduziu quando tinha apenas 13 anos.

Segundo o procurador da República de Paris, Rémy Heitz, o inquérito foi aberto pelo Escritório Central de Repressão à Violência. "Além dos fatos descritos por Vanessa, a Justiça tentará identificar outras vítimas eventuais em território nacional e no exterior", declarou. No romance autobiográfico, a autora, hoje com 47 anos, conta como foi seduzida pelo autor no início da adolescência e as consequências em sua vida, pontuada por episódios de depressão.

"Uma menina de 14 anos não deveria ser esperada na porta da escola por um homem de 50 anos, viver em um hotel com ele, dormir na mesma cama e praticar sexo oral às 16h, em vez de tomar um lanche da tarde" descreve a autora. Os dois se encontraram durante um jantar. Ela foi acompanhada de sua mãe, que trabalhava em uma editora. Vanessa vivia sozinha com ela e o pai era ausente, o que em sua opinião a tornava uma "presa" ainda mais fácil para o escritor francês.

"Por que uma adolescente de 14 anos não pode se apaixonar por um homem 36 anos mais velho? Não é minha atração por ele que deve ser questionada, mas a dele por mim", questionou Vanessa, explicando o título do livro. Em uma entrevista ao jornal Le Parisien, ela disse que não pretendia prestar queixa, mas a Promotoria de Paris decidiu investigar o caso da mesma maneira.

Escritor premiado

A editora foi a primeira revelar sua relação com o autor francês, celebrado no meio literário e que venceu, em 2013, o prêmio Renaudot, um dos mais importantes do país. O inquérito poderá convencer outras vítimas a prestar depoimento, já que as acusações feitas no romance da editora francesa, ocorridas nos anos 1980, podem prescrever e não serem utilizadas pela Justiça.

Em agosto de 2018, a lei francesa aumentou de 20 para 30 anos o prazo de prescrição para crimes sexuais cometidos contra menores, a partir da data de maioridade da vítima. A lei, entretanto, não determina uma idade mínima de consentimento para um ato sexual e, sobretudo, não é retroativa.

O autoproclamado gosto do escritor por menores e pelo turismo sexual com meninos na Ásia, que ele contou em diversos livros, não havia provocado, até agora grande polêmica. Ele nunca escondeu essa atração e um de seus livros se chama "Les Moins de seize ans"; ou "Os Menores de 16 anos" em tradução livre, que foi publicado em 1975.

"Descrição assustadora"

Em uma carta, Gabriel Matzneff estimou que não merecia a descrição "assustadora" que Vanessa faz em seu livro. Em entrevista ao jornal "Le Figaro", a autora explicou que "devolveu" ao francês o mesmo tratamento. Por isso, no livro, o personagem tem as iniciais G.M, em referência direta a Gabriel Matzneff. Quando o relacionamento deles chegou ao fim, o escritor citou a história deles em vários romances, utilizando a inicial "V". Ela diz ter se sentido assediada, sendo obrigada a lembrar da situação que viveu a cada vez que um novo livro era publicado.

Em entrevista entrevista ao Le Figaro, a autora também questionou a impunidade que envolve o meio cultural francês e suas personalidades, onde tudo acaba sendo permitido."A literatura está acima de todo julgamento moral, mas, como editores, cabe a nós lembrar que o relacionamento sexual de um adulto com uma pessoa que não atingiu a maioridade sexual é um ato punido por lei", diz a autora na obra.

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