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Dia da Mulher: Argentinas promovem a maior manifestação feminista da AL

3.jun.2016 - Mulheres usam perucas rosa ao participar da marcha "Ni una menos" (Nenhuma a menos, em tradução livre), ato contra o feminicídio em Buenos Aires, na Argentina - Eitan Abramovich/ AFP
3.jun.2016 - Mulheres usam perucas rosa ao participar da marcha "Ni una menos" (Nenhuma a menos, em tradução livre), ato contra o feminicídio em Buenos Aires, na Argentina Imagem: Eitan Abramovich/ AFP

Márcio Resende

Da RFI Brasil em Buenos Aires

08/03/2019 10h30

Esta será a terceira greve feminista no país, acatada, com mais força, no setor público. A principal reivindicação da greve é a paridade salarial com os homens, num país em que a diferença supera os 25%, segundo dados oficiais.

Uma grande manifestação vai acontecer à tarde com uma marcha que partirá da Praça de Maio ao Congresso. Além de Buenos Aires, milhares vão se manifestar em praças pelo país.

O local da concentração em Buenos Aires e o destino da marcha buscam pressionar o poder político. Em frente à Praça de Maio fica a Casa Rosada, palácio do Governo, e a Catedral de Buenos Aires, onde Jorge Bergoglio vivia antes de se tornar papa Francisco.

O Congresso como linha de chegada tem por objetivo pressionar legisladores a reinstalarem o debate pelo "Aborto, legal, gratuito e seguro", além de medidas contra o feminicídio que, a cada 30 horas, faz uma nova vítima fatal no país.

Em nenhum outro país da região, as mulheres estão tão organizadas e mobilizadas para pressionar governantes e legisladores. Há um ano, a luta feminista convocou 300 mil mulheres.

Luta pelo aborto

No ano passado, o debate pelo aborto esteve perto de se tornar lei, a exemplo de Cuba e Uruguai, únicos países na América Latina a legalizarem a prática. Na Argentina, depois de ter sido aprovada pela Câmara de Deputados, o projeto de lei foi rejeitado pelo Senado.

Neste ano eleitoral, o debate é resistido pelos legisladores porque pode afugentar o voto conservador. Outro argentino contrário ao debate é o próprio papa Francisco, que disse, no mês passado, que "todo feminismo acaba sendo um machismo de saia".

As manifestações acontecem ainda sob o efeito da comoção causada, no mês passado, pelo caso de uma menina de 11 anos, estuprada pelo namorado da avó. Quando foi abortar, amparada pela Lei de 1921 que prevê o aborto em casos de estupro, o corpo médico do hospital na província de Tucumán realizou uma cesariana, contrariando a vontade da menina e da mãe. Outros dois casos semelhantes aconteceram desde janeiro.

Luta contra o feminicídio

A Argentina é referência na luta por uma agenda de questões de gênero. Desde 2015, o movimento "Ni Una Menos" (Nem Uma a Menos) leva milhares de mulheres às ruas, sendo replicado em diversos países da América Latina e até na Europa.

A inspiração para o movimento tem uma origem trágica. Em 1995, a poetisa Susana Chávez escreveu um poema com o verso "Nem uma morta a mais". Ela terminou assassinada em 2011 na luta pelos direitos das mulheres.

Paradoxalmente, desde que começaram as marchas contra os feminicídios, o número de vítimas aumentou. Passou de 286 mortes em 2015 a 292 em 2018, uma a cada 30 horas.

Segundo o Observatório de Feminicídios, pertencente à Casa do Encontro, 10% das vítimas foram estupradas antes de assassinadas e 35% delas eram menores de idade.

"A Argentina tem muitas leis para combater a violência de gênero, mas os juízes não as aplicam. A ausência do Estado gera um manto de impunidade para os agressores. Precisamos de uma mudança cultural que já começou, que vai levar um tempo, mas que não tem volta atrás", indica Ada Rico, diretora do Observatório de Feminicídios.

No ano passado, a pressão feminista teve uma vitória. Foi aprovada uma lei que garante uma pensão ao menor de idade cuja mãe tenha sido vítima de feminicídio. A cada 26 horas, uma criança fica sem a sua mãe. Somente nos dois primeiros meses de 2019, 40 crianças perderam as suas mães. Nos últimos 10 anos, 3.718 menores perderam a mãe, vítima da violência de gênero.