PUBLICIDADE

Topo

Retratos

Instantâneos de realidade do Brasil e do mundo


Retratos

Mulheres que atiram: 'Precisamos igualar nossa força física à do homem'

Juliana Lopes é instrutora de tiro e criou o curso Guns and Girls: "As pessoas gostam de demonizar a arma de fogo no país" - Bianca Martins
Juliana Lopes é instrutora de tiro e criou o curso Guns and Girls: "As pessoas gostam de demonizar a arma de fogo no país" Imagem: Bianca Martins

Alana Della Nina

Colaboração para Universa, em São Paulo

04/08/2022 04h00


Paixão por filmes de ação, influência da família ou de parceiros, fascínio pelas armas e, principalmente, medo da violência. São muitos os motivos que levam mulheres a inflarem a estatística de um país cada vez mais armado. Há cerca de 2,8 milhões de armas de fogo particulares nos lares brasileiros, um crescimento de 39% em relação a 2020, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022.

"A mulher é, por natureza, fisicamente mais frágil. Somos vítimas de crimes como agressão, feminicídio e estupro diariamente. A maior parte do tempo me sinto insegura e vulnerável andando nas ruas. Meu desejo era poder carregar minha arma comigo sempre", diz a mineira Raysa Andrade, 33 anos.

Mãe solo de um menino de 6 anos, a administradora de empresas conta que começou a se interessar pelo universo das armas ainda criança, quando assistia a filmes de ação com os pais. "A vontade de experimentar a sensação de atirar ficou enraizada em mim, mas sempre imaginei que clubes de tiro eram caros e só existiam nas grandes capitais", conta ela, que mora em Itajubá, cidade de cerca de 100 mil habitantes em Minas Gerais, e trabalha em uma multinacional do ramo automotivo.

Raysa Andrade, advogada: 'Me fascina o empoderamento que sinto quando estou em uma linha de tiro' - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
'Me fascina o empoderamento que sinto quando estou em uma linha de tiro', diz Raysa Andrade
Imagem: Arquivo pessoal

No início de 2019, por meio de um grupo de WhatsApp, descobriu que havia um clube de tiro na cidade e adequou as finanças para iniciar o treinamento. "Recebi uma aula teórica e, em seguida, atirei com uma pistola modelo MD2 .380. Foi uma experiência incrível, indescritível, inesquecível. Foi amor ao primeiro disparo", conta.

Logo, ela providenciou os documentos de filiação, que inclui exame realizado por um psicólogo credenciado pela Polícia Federal, tirou o CR (Certificado de Registro) e se tornou uma CAC (sigla para caçadores, atiradores e colecionadores). Com o tempo de treino e envolvimento, Raysa adquiriu sua própria arma e investiu em treinamentos de defesa. "Hoje me sinto preparada para ter uma arma de fogo", ela diz. "O que gosto no tiro é a capacidade que ele tem de me fazer buscar sempre meu aprimoramento. Mas, acima de tudo, o que mais me fascina é o empoderamento que sinto quando estou em uma linha de tiro."

Para além dos muros do clube, Raysa se posiciona a favor da liberação do porte de armas. "Sou a favor da posse e do porte pelo cidadão de bem. Para as mulheres, a arma de fogo é um equalizador de forças", acredita.

"Sensação de segurança e empoderamento"

Foi também em 2019 que a advogada Tayna Cristhine, 26 anos, começou a se envolver com a prática —até então, ela diz que tinha medo de armas. "Sou muito ansiosa, o barulho me assustava. Meu pai, que é Guarda Civil Municipal, me levava no clube de tiro, mas, sempre que eu escutava o disparo, pulava, ficava nervosa, suava frio", conta.

A advogada Tayna Cristhine, praticante de tiro desde 2019 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A advogada Tayna Cristhine, praticante de tiro desde 2019
Imagem: Arquivo pessoal

Ao passar por um assalto com os pais, Tayna decidiu aprender a atirar. "Percebi que não tinha o que fazer naquela situação. Eu me senti insegura por mim e por não poder defendê-los", conta ela, que mora em Porto Feliz, interior de São Paulo. "De tanto acompanhar meu pai nos treinamentos de guarda, comecei a gostar e me tornei atiradora também. Desde o ano passado, vou quase todos os dias e foi quando resolvi me tornar instrutora. Me formei recentemente e nunca mais saí."

Tayna engrossa o discurso das mulheres que decidem aprender a atirar para se defender da violência. "Nossa força física é muito inferior à do homem e precisamos nos igualar de alguma forma. Acho horrível não me sentir segura em sair sozinha. Esse é um direito que a gente deveria ter. Desde que entrei no mundo do tiro, mulheres relatam que hoje saem com mais sentimento de segurança, mesmo sem estarem armadas. O que mais me atrai é conseguir passar essa sensação de segurança e de empoderamento para as mulheres", conta a advogada.

Detalhe das mãos de Juliana calibrando a arma  - Bianca Martins - Bianca Martins
Detalhe das mãos de aluna carregando a arma durante treinamento
Imagem: Bianca Martins

Apesar de endossado pelo argumento da legítima defesa, o aumento do interesse das mulheres em aprender a atirar e, em última instância, portar arma, pode representar um risco grave, inclusive para elas mesmas, de acordo com a advogada e pesquisadora Isabel Figueiredo, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

"É importante sair da idealização e trazer a situação para a realidade. Primeiro, devemos entender que há uma diferença entre posse e porte. Os CACs não têm permissão para andar armados e, dentro de casa, o objeto deve obrigatoriamente permanecer em um cofre. Portanto, não há como se defender de uma agressão, que, no geral, acontece sem previsibilidade."

Ela ainda afirma: "Quando reduzimos o uso potencial da arma à defesa da casa, não existe um cenário favorável. Se a arma está guardada, não adianta nada, e se está à mão, os riscos, como os acidentes monstruosos com crianças, são enormes."

Isabel também chama a atenção para estudos que indicam que, quando a vítima está portando arma de fogo durante um crime, isso eleva o risco do aumento da violência. Uma pesquisa de 2015, conduzida pelo Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, levantou que as chances de uma pessoa ser vítima de agressão aumentam 87% se ela estiver armada durante um assalto.

"A arma pode criar uma falsa sensação de segurança, que é perigosa. É muito diferente praticar tiro em um ambiente controlado e pegar uma arma para se defender em um contexto real, em que pode ter que lidar com uma pessoa habituada a situações de alto estresse e violência e que, geralmente, tem o domínio daquele evento", diz Isabel.

Tayna Cristhine, atiradora - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tayna Cristhine, atiradora
Imagem: Arquivo pessoal

Embora defenda que mulheres deveriam poder andar armadas, a advogada e instrutora Tayna acredita que a questão da liberação do porte deve ser tratada com cautela. "Não é qualquer um que está pronto para ter uma arma. A pessoa precisa estar preparada física e psicologicamente. Por isso é sempre bom questionar: estou disposto a ter uma arma em casa? Se alguém entrar, o que vou fazer? Se uma criança vir a arma? Falo sobre? Não falo?", ela diz.

Rayssa defende que, para conquistar a licença, os procedimentos devem ser rígidos. "Gostaria que a cultura armamentista fosse mais difundida, desmistificada e acessível, mas que para isso houvesse maior regulamentação e obrigatoriedade da capacitação do cidadão, com testes de aptidão técnica e psicológica", afirma. "A pessoa que se propõe a colocar uma arma na cintura e a puxar o gatilho para se defender, deve estar ciente das consequências que isso pode trazer".

Tiro ao alvo

De acordo com o Anuário de Segurança Pública, o número de licenças para os CACs saltou 473% no país desde 2018 —de 117,4 mil para 673,8 mil (até junho deste ano). E o aumento do interesse pela cultura armamentista fez explodir a abertura de clubes de tiro: entre 2019 e 2022, foram fundados mais de mil espaços como esse no Brasil, de acordo com informações do Exército à reportagem do UOL. Em maio deste ano, o território nacional registrava 2.061 clubes de tiro.

Raysa Andrade instrui aluna do curso de introdução ao tiro Elas na Linha: "Estamos indo para a sétima turma e tivemos mais de 200 alunas" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raysa Andrade instrui aluna do curso de introdução ao tiro Elas na Linha: "Estamos indo para a sétima turma e tivemos mais de 200 alunas?
Imagem: Arquivo pessoal

Embora não haja números que registrem a participação feminina nesses espaços, a frequência crescente delas é uma realidade, conforme conta a policial militar de Florianópolis Juliana Lopes, 39 anos, que, desde 2019, toca com o marido, também PM, o Guns and Girls, curso voltado exclusivamente para o público feminino.

Desde a criação do projeto, ela estima que mais de 600 mulheres passaram pelo treinamento em cidades de Santa Catarina e do Paraná. Segundo Juliana, além do público feminino ser baixo nos clubes de tiro na época, outra motivação que a levou a fundar o Guns and Girls foram as ocorrências de violência doméstica que ela atendia como policial. "Percebi que essas mulheres tinham questões de vulnerabilidade, baixa autoestima e dependência financeira. Daí pensei: 'Como posso ajudá-las?'", diz. Ela acredita que aprender a atirar, dentro das modalidades de tiro esportivo, pode contribuir para aumentar a autoconfiança e a autoestima das mulheres.

Juliana explica que não idealizou o projeto pensando em armar essas mulheres, alegando ser perigoso e caro. "Uma arma decente custa pelo menos R$ 5 mil, isso é inacessível para muitas delas", diz. "Aliás, não estimulo ninguém a comprar arma. Quando a gente fala em defesa pessoal, você tem que estar muito certa do que está fazendo, do que isso representa."

A instrutora Juliana Lopes (à esq., de preto) com sua turma só formada por mulheres - Bianca Martins - Bianca Martins
A instrutora Juliana Lopes (à esq., de preto) com sua turma formada só por mulheres
Imagem: Bianca Martins

No contexto da grave questão da violência contra a mulher, Isabel Figueiredo levanta outro dado: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2019, cerca de 90% das mortes de mulheres são causadas por parceiros e ex-parceiros. "Não restam dúvidas de que o Brasil é um país extremamente perigoso para mulheres. E os feminicídios acontecem sobretudo dentro de casa", diz a especialista. "Portanto, qual seria a estratégia? Manter uma arma debaixo do travesseiro para se defender quando for necessário? Ao tirar a situação do imaginário, ela se torna difícil de resolver na realidade. Além disso, é uma premissa que não faz sentido: se você tem esse nível de consciência sobre a sua relação, por que vai escolher equalizar forças com o parceiro em vez de buscar resolver a tensão ou ir embora?"

"O poder da pólvora me atrai"

Policial militar há 14 anos, Juliana Lopes cultiva a paixão por armas de fogo há cerca de uma década. A influência, no entanto, não veio da profissão, mas de acompanhar o trabalho do marido, também policial, na formação de vigilantes na área de tiro. "Fui me apaixonando pela área de instrução. Comecei a achar essa seara da educação relacionada às armas de fogo interessante. Era sedutora a ideia de poder mudar vidas, conseguir incutir a disseminação de uma cultura, não só armamentista, na cabeça das pessoas", conta a PM. "Depois, me inseri na parte do tiro esportivo. Sou praticante do IPSC [International Practical Shooting Confederation], uma competição dinâmica em que você tem que acertar a maior quantidade de alvos no menor tempo possível. Sou bicampeã brasileira nessa modalidade."

Embora não revele a quantidade, a instrutora afirma ter uma coleção robusta em casa e exibe a paixão no corpo: são dez tatuagens que fazem referência ao universo armamentista. Juliana conta que o que a atraiu foi "o poder modificador da pólvora". "As armas de fogo, a pólvora em si, ela tem um poder de transformação, um poder didático muito grande."

"Não estimulo ninguém a comprar arma. Quando falamos em defesa pessoal, você tem que estar muito certo do que está fazendo", diz a instrutora de tiro Juliana Lopes  - Bianca Martins - Bianca Martins
"Não estimulo ninguém a comprar arma. Quando falamos em defesa pessoal, você tem que estar muito certa do que está fazendo", diz a instrutora de tiro Juliana Lopes
Imagem: Bianca Martins

Com tudo isso, ela afirma acreditar no potencial de construir uma cultura armamentista brasileira séria, à base da educação. "O tiro no país está atrelado a uma figura política. Mas penso que não foi essa figura que trouxe as armas para o Brasil e nem que me estimulou, há mais de dez anos, a buscar isso como meio para mudar a minha vida e a de outras pessoas."

Para Isabel, o aumento do número de civis armados é um cenário complexo, que pode representar um alto risco de banalização da violência em situações corriqueiras, como uma briga de trânsito. "Há cada vez mais casos de discussões leves que terminam em morte por arma de fogo. Passamos a decidir quantas e quais vidas valem. É como se testássemos uma regra básica do estado, o monopólio do uso da força do estado. É muito grave."

Retratos