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Elas foram mães via barriga de aluguel: 'Pegar no colo foi meu parto'

A influenciadora Camila Pavan com a filha, Pietra, gerada na Ucrânia - Deise Cordon
A influenciadora Camila Pavan com a filha, Pietra, gerada na Ucrânia Imagem: Deise Cordon

Rebecca Vettore

Colaboração para Universa

14/07/2022 04h00

Recorrer a uma barriga de aluguel é uma das formas adotadas por algumas mulheres que não conseguem gerar filhos da maneira convencional, muitas vezes por motivos de saúde. No Brasil, de acordo com a Constituição, o procedimento é considerado ilegal pela lei de transplantes (9434/97, artigo 15), que proíbe a venda de órgãos, tecidos e partes do corpo. Por isso, quem opta pelo processo recorre a outros países onde a legislação é permissiva. A Ucrânia, assim como os Estados Unidos e a Geórgia, são algumas das nações onde a barriga de aluguel é permitida por lei.

Camila Pavan e Kelly Simões são exemplos de brasileiras que recorreram à barriga de aluguel na Ucrânia. Elas contam a Universa os motivos que as levaram a escolher o destino para fazer o procedimento e compartilham a experiência de terem se tornado mães.

'Nasci como mãe quando a segurei'

Camila Pavan tem 35 anos, nasceu em Concórdia (SC) e há pouco mais de dois anos se tornou mãe de Pietra. Além de dividir todas as etapas do processo com o marido, Adriano Garbelini, com quem é casada há 17 anos, Camila passou a contar um pouco da sua rotina em seu perfil no Instagram. Os relatos se tornaram tão populares que atualmente ela tem 19 mil seguidores e adotou a profissão de consultora de barriga de aluguel no exterior.

Pietra - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Camila comemorando os dois da sua filha Pietra
Imagem: Arquivo pessoal

Camila se casou ao completar 18 anos e aos 23 anos começou a tentar ter filhos. Antes mesmo do casamento, a consultora e o marido já sonhavam com uma família grande. A pressa não foi só influenciada pelo desejo do casal, mas sim pela urgência de viver: aos 9 anos, a influenciadora recebeu o diagnóstico de atrofia muscular espinhal (AME) e, por causa da doença, os médicos diziam que ela acabaria em uma cadeira de rodas aos 15 anos.

"A primeira gravidez aconteceu de forma natural e rápida, mas logo no início tive um descolamento de placenta, o que me levou a ficar de repouso. Só levantava para fazer xixi, até o 4º mês. Quando fiz o ultrassom, descobri que o feto tinha morrido. Passei por curetagem e, nesse tempo de repouso, descobri que a musculatura perdida não voltaria", conta.

Em razão dessa descoberta, ela começou a pesquisar sobre a barriga de aluguel. Os Estados Unidos foram escolhidos para iniciar o processo. Como não queria usar seus óvulos, por medo de passar sua doença adiante, o médico que a atendeu pediu exames que comprovavam o diagnóstico de atrofia muscular.

"Eu falei que não tinha exames, porque o diagnóstico da doença tinha sido clínico. Daí o médico pediu que eu realizasse alguns exames. Depois de sete meses descobri que eu tinha miopatia de bethlem [distrofia muscular congênita que causa contraturas e fraqueza muscular progressiva]. Se eu engravidasse, corria risco de morte e tinha 50% de chance de passar a doença adiante."

O casal até chegou a pensar em adoção, mas o tempo de espera e os trâmites os deixaram inseguros. A ideia de barriga de aluguel nos EUA acabou sendo deixada de lado por causa do valor, que subiu com a alta do dólar.

A gente sentiu que tinha voltado para o fim da linha de novo, porque ficamos sem opção. E, um dia, conversando com a minha cunhada, perguntei se ela poderia ser a nossa barriga solidária, usando embriões que eu tinha congelado anteriormente. Ela aceitou, mas o processo não deu certo. O óvulo fecundou, mas ficou preso na trompa e o bebê não resistiu.

A cunhada, Viviam Garbelini, que perdeu a trompa no processo, se ofereceu novamente para tentar engravidar, mas como ela ainda não tinha filhos, o casal desistiu de tentar a barriga solidária.

Depois do episódio, Camila e Adriano encontraram uma clínica na Ucrânia. "Como o valor para usar os meus óvulos deixaria o pacote bem mais caro e não haveria teste genético para saber qual embrião teria a minha doença, decidimos não usá-los. Com a doação dos óvulos de uma mulher e a gestação de uma segunda mulher, tive a Pietra no dia 11 de junho de 2020. Eu sempre sugiro, nas minhas consultorias, que não faça o processo todo com uma mulher, óvulos e a gestação, para não ter nenhum vínculo da gestante com o bebê."

A bebê nasceu no meio da pandemia, e Camila conta que entrar na Ucrânia foi bastante complicado. O casal precisou pedir autorização para diversos países e, com a ajuda da embaixada do Brasil, chegou até lá. Depois de desembarcar, eles fizeram 10 dias de quarentena em um hotel e, na sequência, Pietra nasceu. "Quando eu a peguei no colo, foi o meu parto, porque nasci como mãe e foi o dia mais feliz da minha vida. E quando olho para minha filha só tenho gratidão e fico feliz por não ter desistido."

Família - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Camila com marido e a filha no Natal de 2021
Imagem: Arquivo pessoal

A consultora ainda falou sobre diferenças de valores de barriga de aluguel.

"Nos EUA, o processo de barriga de aluguel é muito mais alto e isso acontece porque o sistema de saúde é muito caro, então é preciso gastar mais quando vai ao médico. Já na Ucrânia, esse valor de atendimento é menor e os processos giram em torno de US$ 50 mil [cerca de R$ 272 mil, na cotação atual]. Mas é esse o valor total, com a quantidade de tentativas e o tempo necessário até a mulher ficar grávida. Já na Geórgia, existem clínicas onde os pacotes começam em torno de US$ 55 mil dólares [quase R$ 300 mil], mas tem extras no meio do caminho."

Para Camila, que em um futuro próximo pretende ter mais um filho por meio de barriga de aluguel, não é mais seguro fazer o processo na Ucrânia, por causa da guerra com a Rússia.

'Como em um casamento, é preciso confiar na clínica'

Assim como Camila, Kelly Simões foi até uma clínica na Ucrânia para ter suas filhas. Mas, diferentemente da consultora, a curitibana já tinha dois filhos quando pensou em tentar o processo de barriga de aluguel para aumentar a família. A administradora de empresas de 42 anos, casada com Cleverson Cossiaki, é mãe de Pedro, 11, Matheus, 7, Maria Victória, 3, e Helena, de 1 ano.

Família da Kelly - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Kelly com o marido e os quatros filhos
Imagem: Arquivo pessoal

"Depois do Matheus, a gente tentou ter outro filho, mas tive algumas perdas no caminho. Uma dessas perdas aconteceu em 2015, quando quase fiquei cega de um olho porque tive uma trombose ocular, por causa dos hormônios da gestação. A outra foi de 2017 para 2018, quando engravidei de uma menina. Durante a gestação tomei injeções de clexane, que diminui o risco de desenvolvimento de uma trombose venosa profunda, mas a perdi com 36 semanas com uma trombose no cordão umbilical."

Após a última perda, a médica de Kelly disse não saber se o corpo dela aguentaria uma nova trombose e a desaconselhou a engravidar de novo. Antes de cogitar a barriga de aluguel, Kelly e o marido refletiram sobre a possibilidade da barriga solidária, mas concluíram que o processo seria complicado por envolver familiares.

Como ela queria muito ter uma menina, se informou sobre o funcionamento da barriga de aluguel e encontrou dados confiáveis sobre a Ucrânia. "Em março de 2018, comecei a falar com uma clínica ucraniana, mas o tempo de resposta era demorado. Por isso, fui atrás de outra e me deparei com o Biotex. Consegui informações com alguns casais que estavam fazendo o processo e em abril fui para lá com os documentos necessários para começar e fechei um pacote com tudo incluso: tentativas ilimitadas, hospedagem na Ucrânia, transporte da clínica para o hospital, etc."

Depois que voltaram para o Brasil, a clínica continuou o processo e passou a buscar uma barriga de aluguel. Já na primeira tentativa, a gravidez deu certo e o casal passou a receber informações mensais sobre a bebê. Com 39 semanas, a família toda foi até a Ucrânia para buscar Maria Victória, que nasceu no dia 8 de março de 2019.

Eu, que tive a experiência de ver dois bebês saindo de dentro de mim, na hora em que vi as minhas filhas, foi a mesma emoção, o amor nasceu naquele momento. Quando eu peguei a Maria Victória no colo foi a mesma sensação de quando me deram meus filhos mais velhos.

Dois anos depois, Kelly assinou outro contrato com a mesma clínica para ter outra menina. A mulher que serviria de barriga de aluguel para a administradora ficou grávida, e Helena nasceu por meio de cesariana no dia 24 de junho de 2021, durante a pandemia.

Filhas - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Kelly com as filhas Helena e Maria Victória
Imagem: Arquivo pessoal

Desde o primeiro processo de barriga de aluguel, Kelly sempre compartilhou suas experiências com outras mulheres no Instagram, porque, segundo afirma, existe muita desinformação entre os familiares e até entre os médicos.

"A barriga de aluguel é uma opção para quem não pode gerar o bebê, como aconteceu comigo. Para todos os casais que vêm me procurar para conversar sobre o assunto, eu digo que quando a gente escolhe uma clínica para fazer o processo de aluguel, a gente precisa entrar em um processo de confiança, assim como um casamento."

Com a guerra, Kelly chegou a mediar a logística de brasileiros e de outras nacionalidades que foram buscar seus filhos na Ucrânia. "A comunicação ficou bem mais difícil, mas conseguimos resolver."