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Empresa brasileira lança calcinha absorvente para PCDs que menstruam

Carolina Hiss, Júlia Franco, Andrea Cardoso e Ana Clara Moniz, modelos da campanha da marca gaúcha Herself, de produtos menstruais, está lançando a primeira calcinha absorvente adaptável para PcDs - Divulgação
Carolina Hiss, Júlia Franco, Andrea Cardoso e Ana Clara Moniz, modelos da campanha da marca gaúcha Herself, de produtos menstruais, está lançando a primeira calcinha absorvente adaptável para PcDs Imagem: Divulgação

Thaís Lopes Aidar e Glau Gasparetto

Colaboração para Universa

24/06/2022 04h00

A menstruação, por si só, faz com que as pessoas passem por diferentes perrengues. De vazamentos do fluxo intenso às irritações e incômodos pelo uso do absorvente, essa fase costuma ser ainda mais complicada para pessoas com deficiência (PCD), sobretudo quando a autonomia é comprometida pela condição.

Para essa turma, uma simples troca de protetor pode ser um grande desafio, o que tem motivado empresas a pensarem em soluções, caso da Herself, que acaba de lançar uma calcinha absorvente exclusiva para PCDs, entre outros produtos

A artista, dançarina e comunicadora Carolina Barbosa Hiss, de 25 anos, do Rio de Janeiro, é portadora de artrogripose múltipla congênita e, por isso, a relação com a menstruação sempre foi desafiadora. Ela conta que, além de não conseguir usar o absorvente interno, as versões externas não são opções tão fáceis. Depois de passar muitos fluxos com o protetor embolado, ela viu na versão noturna uma esperança - afinal, era maior e enrolaria menos. Porém, a troca e as alergias ainda dificultavam o uso.

"Eu odiava ter que trocar o absorvente toda hora pelo tempo que eu levava, sem contar que vazava facilmente. Na rua, onde não é tão fácil achar banheiros acessíveis, eu não conseguia trocar sempre que precisava. Então, já passei vários perrengues de coceira, incômodos e vazamentos. Algo que era para ser natural virou extremamente incômodo", relata.

Após anos enxergando o período menstrual como problema para a sua condição de vida, Carolina descobriu as calcinhas absorventes. Viu ali uma nova forma de se relacionar com seu ciclo. "Tudo mudou! Passou a ser algo tão fácil e confortável de vestir que eu até esquecia que estava sangrando nos meus ciclos mais leves. Vestia fácil, não embolava, não irritava, não ficava feio ou me apertando?", comenta.

Apesar do grande avanço, alguns empecilhos persistiam: nos ciclos intensos em que ela não estava em casa, a troca era bastante complicada, já que precisava colocar a peça no chão para conseguir vesti-la. Além de poucos banheiros acessíveis disponíveis nas vias públicas, não confiava plenamente na limpeza dos que encontrava para todo o processo.

Menstruação de PCDs e a sociedade

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, o Brasil já contava com 45 milhões de deficientes. Esse número correspondia à 25% da população atual. Ainda assim, a oferta de produtos adaptados para essa realidade não acompanhava as necessidades, inclusive no que diz respeito à menstruação e saúde íntima.

Dentro desses tantos milhões, há um percentual elevado de pessoas que lidam mensalmente com as limitações da menstruação pela falta de produtos (ou acesso a eles). Pensando nesse contingente, começaram a surgir iniciativas tentando facilitar os dias de sangramento. Uma delas é da marca Herself, de Porto Alegre, que lançou novas alternativas na sua linha de produtos, desta vez voltadas para PCDs que menstruam.

Produtos para PCDs já são realidade

"Em 2016, passei a me questionar de onde vinha tanto constrangimento para falar sobre menstruação. Por que algo tão natural para a mulher era visto como errado? Querendo ressignificar a minha relação com a menstruação, percebi que poderia fazer a diferença na vida de outras mulheres", argumenta Raíssa Assmann Kist, empreendedora social, fundadora da Herself e da Herself Educacional.

Ela conta que, antes de pensar nessa linha de produtos, analisou o cenário menstrual, observando que desde a década de 30 não surgiam inovações na área. Assim, encabeçou um levantamento com 800 mulheres para entender como poderia melhorar não só esse mercado, mas também essas vidas.

Como era um mercado praticamente não existia no Brasil e não havia capital de investimento, a empresa entrou no mercado a partir de financiamento coletivo (crowdfunding).

"Dessa maneira, as mulheres poderiam nos apoiar e encomendar o produto, validando a existência do mercado e uma real necessidade dos produtos. Era como se a gente estivesse perguntando: 'Vocês querem viver seu período menstrual usando somente uma calcinha?'. A resposta foi incrível'", diz.

Passada a fase inicial, agora a empresa desenvolveu m abertura lateral que garante conforto e autonomia para as usuárias. O item vinha sendo desenvolvido desde o início de 2021.

Outros produtos lançados conjuntamente são um top com abertura frontal e uma toalha absorvente com velcro para fixar na cadeira de rodas - ou na cama, sofás e cadeiras, por exemplo. "A toalha menstrual foi desenvolvida para quem quer ter mais segurança junto a outro protetor menstrual caso vaze, mas também para poder transar menstruada, menstruar livre, enfim, são vários usos", comenta a empreendedora.

O impacto dos lançamentos

A artista Carolina não só usa as novas opções para o período menstrual, como colaborou com a criação da linha através de seu lugar de fala como PCD. "Conheci a Herself quando estava pesquisando por modelos de calcinhas absorventes com boa absorção, variedades de moldes e tamanhos plus size", relata.

Ela começou a conversar com a marca, pelo Instagram, trazendo feedbacks, até que foi procurada e convidada para participar da co-criação das peças pensadas para PCD. Carolina ainda integra o time de modelos das fotos de divulgação da linha.

"Como mulher com deficiência, eu consigo dizer como esses produtos me ajudaram. A calcinha absorvente, além de trazer mais conforto e naturalidade para o ciclo, me traz muita facilidade na troca da peça. É de velcro, então, eu consigo abrir ela com uma mão só, sem dificuldades", comemora Carolina após tantos anos desafiadores.

Ela também faz uso dos demais produtos da linha. Em relação à toalha absorvente, ela conta que, apesar de ser voltada para o período menstrual, pode ser útil em outras situações que envolvem vazamento - urina, suor, chuva.

Já o top, que não é um produto exclusivo para a fase de menstruação, beneficia quem é PCD sobretudo com as alças diferenciadas, pois oferece maior mobilidade.

"Quando mulheres com deficiência querem escolher uma alternativa de protetor menstrual mais sustentável e não possuem, a menstruação é um limitante na vida delas. Para que essas histórias não se repitam, trabalhamos para trazer produtos que façam cada dia mais sentido na vida das mulheres e pessoas que menstruam, de forma que a menstruação não seja um limitante", finaliza Raíssa, CEO da Herself.