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'Pensei que fosse morrer', diz procuradora após ser espancada por colega

Maurício Businari

Colaboração para Universa

23/06/2022 04h00Atualizada em 23/06/2022 15h15

A procuradora-geral do município de Registro (SP) Gabriela Samadello Monteiro de Barros, 39, que sofreu um agressão do também procurador Demétrius Oliveira Macedo, 34, ainda se recupera da dor e do trauma provocados pela violência. Demétrius deu murros e pontapés na colega. Ele foi preso hoje pela manhã, segundo informou o governador de São Paulo Rodrigo Garcia (PSDB).

Gabriela está com as marcas do espancamento no corpo, cabeça e rosto pela agressão que ocorreu na segunda-feira (20). O procurador Demétrius Oliveira Macedo, 34, foi preso hoje, segundo informou o governador do estado de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB). "Informo em primeira mão: a Polícia Civil acaba de prender o agressor Demétrius Macedo. Que a Justiça faça a sua parte agora e use contra ele todo o peso da lei. Agressor de mulher vai pra cadeia aqui em SP. Denuncie sempre", escreveu Garcia no Twitter.

Gabriela ainda se pergunta sobre as razões da mudança de comportamento de Macedo, com quem trabalha na prefeitura da cidade desde 2013. Em entrevista a Universa, ela disse que acredita na possibilidade de seu colega não aceitar ser comandado por mulheres, já que ele vinha demonstrando descontentamento no trabalho desde 2019, quando uma mulher assumiu o cargo de chefia da Procuradoria-geral do município — cargo até então historicamente ocupado por homens.

Gabriela assumiu o cargo em 2021, sendo a segunda mulher na chefia da área. "De uns meses para cá, ele passou a assumir uma postura diferente, seu comportamento foi mudando ao longo do tempo. Parece que ficou revoltado e isso piorou muito depois que eu assumi".

Segundo conta a procuradora-geral, Macedo chegou a entrar em atrito anteriormente com uma colega de trabalho. A servidora se disse agredida verbalmente pelo procurador e a procurou pedindo providências — o que foi feito por escrito.

"Ela narrou que ele gritou com ela, foi grosseiro, a chamou de 'sem educação', entre outras coisas. Claro que, com a reclamação em mãos, fui procurá-lo em sua sala. Ele estava sozinho e eu deixei a porta encostada. E expliquei para ele, num tom baixo, o que estava acontecendo, sobre a queixa da servidora".

Gabriela diz que, assim que soube da reclamação, Macedo começou a se exaltar. Gritando muito, segundo ela, o procurador teria dito que estava sendo vítima de assédio e que não iria admitir ser repreendido na frente dos colegas e a teria expulsado da sala.

"Isso ocorreu há umas três semanas. Eu fui procurá-lo para ouvir a versão dele dos fatos, mas ele não se mostrou receptivo ou disposto em esclarecer o lado dele. Não havia ninguém na sala, a situação não estava sendo exposta aos colegas. Mesmo assim, ele gritou comigo e me expulsou".

Depois desse incidente, Gabriela decidiu dar encaminhamento ao relato da servidora para que os fatos fossem apurados. E junto, no documento, incluiu o seu próprio relato com detalhes da reação dele ao ser abordado.

Demetrius - Reprodução/Redes sociais - Reprodução/Redes sociais
Procurador Demétrius Oliveira de Macedo foi suspenso da prefeitura de Registro (SP)
Imagem: Reprodução/Redes sociais

"Ele disse nada, só bateu"

Gabriela diz que Macedo acompanhava diariamente as publicações do Diário Oficial do Município. Na segunda-feira (20), por volta das 16 horas, a edição do dia foi publicada no site da prefeitura. Nela, Macedo viu publicada a portaria 060, de autoria do secretário de Administração Arnaldo Martins dos Santos Junior, nomeando dois servidores para que, no prazo de 90 dias, apurassem os fatos relacionados ao comportamento dele na função de procurador.

Na publicação são citados quatro incisos da lei complementar 34 de 2008 do município, que tratam sobre cooperação e respeito entre colegas e sobre a proibição de manifestações públicas de apreço ou desapreço dentro da repartição pública.

Gabriela conta que já estava se preparando para deixar a sala da Procuradoria, por volta das 17h50, quando o procurador surgiu no recinto, completamente transtornado. Ele nem teria dito qualquer coisa. Apenas se lançou sobre ela, com o punho cerrado, dando golpes em seu rosto e na cabeça, até que ela caísse no chão.

"Ele não disse nada. Simplesmente invadiu a sala e começou a me espancar. Primeiro, ele deu uma cotovelada no meu rosto, fazendo com que eu batesse a cabeça fortemente contra a parede. Depois começaram os socos. Ele tinha muita força, eu comecei a perder os sentidos. Por mais que tentasse me proteger com os braços, ele ficava buscando acertar a minha cabeça. Eu pensei que fosse morrer, que ele ia me matar. Fui ficando desorientada e caí no chão".

Mesmo vendo a chefe já quase desacordada, e apesar dos gritos dos servidores que presenciaram tudo, o procurador não parou com as agressões. Revezando os socos na cabeça com pontapés.

"Ele ficou uns 3, 4 minutos me espancando. Mas para mim, foram 20, 30 minutos. Teve um momento em que perdi a visão do olho esquerdo, pensei que ficaria cega. Minha cabeça sangrava e o olho também. Meus colegas estavam em choque, por sorte, um deles começou a gravar a cena com o celular".

Gabriela diz que está preocupada em ter sofrido algum trauma mais grave na cabeça. As duas últimas noites ela enfrentou à base de tranquilizantes. Apesar de ter feito um raio x do crânio, buscou realizar exames mais complexos.

"Eu me sinto aliviada ao saber que ele teve a prisão preventiva decretada. Pretendo agora aguardar a conclusão do processo criminal para decidir se ingressarei com uma ação contra ele também na esfera cível", conta a procuradora-geral, que aproveitou para dar um aviso às vítimas de agressões semelhantes.

Nenhuma mulher deve permitir ser tratada dessa maneira. Se um homem a agredir, ela deve buscar todos os meios de impedir a continuidade dessa violência e exigir a punição do agressor. A gente não pode deixar uma barbaridade dessa passar em branco. As pessoas têm que saber que existem limites.
Gabriela Samadello Monteiro de Barros, procuradora-geral de Registro

Como denunciar violência contra mulher

O Ligue 190 é o número de emergência indicado para quem estiver presenciando uma situação de agressão. A Polícia Militar poderá agir imediatamente e levar o agressor a uma delegacia.

Também é possível pedir ajuda e se informar pelo número 180, do governo federal, criado para mulheres que estão passando por situações de violência. A Central de Atendimento à Mulher funciona em todo o país e também no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita.

O Ligue 180 recebe denúncias, dá orientação de especialistas e encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. Também é possível acionar esse serviço pelo WhatsApp. Nesse caso, acesse o (61) 99656-5008.

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