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Quem é Francia Márquez, eleita primeira vice-presidente negra da Colômbia

A vice-presidente eleita da Colômbia, Francia Márquez, primeira mulher negra a ocupar o cargo no país - Fredy Builes/Getty Images
A vice-presidente eleita da Colômbia, Francia Márquez, primeira mulher negra a ocupar o cargo no país Imagem: Fredy Builes/Getty Images

Rute Pina

De Universa, em São Paulo

19/06/2022 20h04

Pela primeira vez na história da Colômbia, uma mulher negra chega ao Executivo e vai ser vice-presidente do país. Neste domingo (19), a advogada e ativista ambiental Francia Márquez foi eleita à vice-presidência, com a chapa do senador de esquerda Gustavo Petro, da coalizão Pacto Histórico.

Com 50,49% dos votos, Petro, um economista e ex-combatente da guerrilha M-19, venceu as eleições presidenciais do país e se tornou o primeiro presidente de esquerda da Colômbia. Foram cerca de 22 milhões de votos, segundo informações do órgão de contagem de votos nacional. Ele derrotou o empresário Rodolfo Hernández, que teve 47,25% dos votos.

Francia Márquez é considerada um "ar fresco" na política: a advogada de 40 anos é ativista ambiental e nasceu na comunidade de La Toma, de maioria negra, na cidade de Suárez, em Cauca, um dos estados mais pobres e com maiores índices de violência da Colômbia.

Gustavo Petro e Francia Márquez durante campanha - Sebastian Barros/NurPhoto via Getty Images - Sebastian Barros/NurPhoto via Getty Images
Gustavo Petro e Francia Márquez durante campanha
Imagem: Sebastian Barros/NurPhoto via Getty Images

Premiada internacionalmente

Em 2018, Francia ganhou o Prêmio Goldman, conhecido como o "Nobel do Meio Ambiente", por sua luta ambiental na região. Também foi representante legal do Conselho Comunitário de La Toma, entidade que exige a proteção dos territórios ancestrais negros da Colômbia. No ano seguinte, em 2019, a advogada foi alvo de um atentado com granadas e rajadas de fuzil em represália à sua militância.

Formada pela Universidade Santiago de Cali, Márquez trabalhou na adolescência como garimpeira na mineração de ouro — assim como seus pais. Depois, exerceu o ofício de trabalhadora doméstica para pagar seus estudos e sustentar sua família. Ela é mãe solo e tem dois filhos —teve o primeiro aos 16 anos.

Durante os discursos de campanha, Márquez afirmou que, em caso de vitória, vai trabalhar pelas mulheres, negros, indígenas, camponeses e pela população LGBTQIA+.

Luta contra mineração ilegal

Márquez se tornou uma ativista aos 13 anos, quando começou uma mobilização, com sua comunidade, contra projetos do governo que alterariam o curso do rio Ovejas, um dos maiores e mais importantes da bacia hidrográfica da região.

Em 2014, esteve à frente de um movimento de mulheres que caminharam por dez dias de La Toma até Bogotá para pressionar o governo colombiano a interromper a mineração ilegal na região, que estava causando impactos negativos para a saúde, meio ambiente e comunidades do entorno. A atividade gerou mais de 30 toneladas de mercúrio despejadas nas águas desta região, poluindo uma área de 230 km.

Francia Márquez é ativista ambiental e já ganhou prêmio internacional, conhecido como "Nobel do Meio Ambiente, por sua atuação - Daniel Munoz/Getty Images - Daniel Munoz/Getty Images
Francia Márquez é ativista ambiental e já ganhou prêmio internacional, conhecido como "Nobel do Meio Ambiente, por sua atuação
Imagem: Daniel Munoz/Getty Images

O ativismo contra a mineração ilegal rendeu a Márquez o Prêmio Nacional de Defesa dos Direitos Humanos na Colômbia, em 2015. Três anos depois, ganhou o Prêmio Goldman. Em entrevista ao jornal colombiano "El Tiempo'', na ocasião em que recebeu a homenagem internacional, afirmou que estava convencida em seguir com seu trabalho social.

"Não é um prêmio apenas para a Francia, mas para uma luta de toda a minha vida, para as mulheres que marcharam comigo, para a comunidade, para as pessoas que morreram defendendo a vida."

Ameaçada de morte, teve que sair da região em que nasceu

Após ser ameaçada de morte, ela saiu da região em que nasceu. "Tive que me deslocar por enfrentar a mineração ilegal e por dizer a eles que parassem as máquinas. Tive que me esconder nas casas de outras pessoas e depois deixar meu território. Ainda estou em condição de deslocamento forçado e tenho um esquema de proteção com o qual também tive problemas devido a questões como combustível ou conserto de pneus", relatou, em 2018.

A Colômbia é o país mais perigoso para ativistas ambientais na América Latina e no mundo. Segundo o último relatório da Global Witness, organização inglesa que monitora todos os anos atos de violência contra esses líderes, 65 ativistas foram mortos no país em 2021, número que leva o país à liderança global de casos.

Sofreu ataque promovido por adolescente

Em maio de 2019, Francia Márquez e um grupo de líderes sociais da Associação de Conselhos Comunitários do Norte de Cauca sofreram um atentado em Santander de Quilichao, enquanto se preparavam para uma reunião com o governo.

De acordo com Francia, o grupo foi atacado com homens munidos de armas e granadas. Ela não ficou ferida. As investigações atribuíram o ataque a um adolescente de 17 anos.

Na moda: escolhe estampas africanas e cores fortes

Além do ativismo ambiental, a líder comunitária chamou a atenção por outro assunto: moda. Suas roupas e estilo são peça-chave nas suas aparições públicas e são usadas como maneira de passar uma mensagem.

Francia Márquez em debate nas eleições;  estampas africanas e cores fortes estão sempre presentes em seu vestuário - Daniel Garzon Herazo/NurPhoto via Getty Images - Daniel Garzon Herazo/NurPhoto via Getty Images
Francia Márquez em debate nas eleições; estampas africanas e cores fortes estão sempre presentes em seu vestuário
Imagem: Daniel Garzon Herazo/NurPhoto via Getty Images

A vice-presidência eleita aparece nos palanques e debates com estampas africanas e cores fortes, reforçando suas raízes negras. Frequentemente, ela também é vista com tranças e usa pulseiras e acessórios que remetem às religiosidades afros, como búzios.

Francia Márquez em debate para as eleições de 2022; ela não mudou seu estilo durante campanha - Juancho Torres/Anadolu Agency via Getty Images - Juancho Torres/Anadolu Agency via Getty Images
Francia Márquez em debate para as eleições de 2022; ela não mudou seu estilo durante campanha
Imagem: Juancho Torres/Anadolu Agency via Getty Images

Em análise ao estilo da Francia, a pesquisadora de moda Jeniffer Varela afirmou ao jornal "El Espectador'' que o estilo foi um grande acerto de Márquez na campanha: "A identidade de Francia marca de onde ela é, uma mulher cujo lema de campanha é 'Sou porque somos'. Ela também está mostrando quem é e que não precisa mudar por causa da campanha", analisou.

"Muitas colombianas não somente se vestem como Francia Márquez como também já foram discriminadas ou não foram aceitas em diversos lugares por se vestir como ela."

Vítima de racismo, foi chamada de "King Kong"

A vice eleita recebeu diversas ofensas racistas nas redes sociais. A cantora colombiana Marbelle, por exemplo, que é branca, chamou a ativista de "King Kong" em uma publicação do Twitter.

Uma senadora de direita, María Fernanda Cabal, por sua vez, fez um comentário irônico em que dizia que Francia (que em espanhol é a mesma palavra usada para se tratar do país França) deveria ser "coerente" com sua trajetória contra o racismo e mudar seu nome, já que ele fazia referência a um país colonizador e escravocrata.

Além de ataques racistas, também foi alvo de campanhas de desinformação. Em março, por exemplo, a imagem de uma mulher usando um lenço do ELN (Exército de Libertação Nacional) foi atribuída à ativista, sugerindo que ela pertenceria à guerrilha. "E aqui está Francia Márquez, ela não é tão inofensiva quanto algumas pessoas pensam", dizia uma das montagens.

Revelação da campanha eleitoral

Márquez foi vista como revelação política desta campanha na Colômbia e assumiu papel importante na reta final das eleições.

Nos últimos meses, ela trouxe o presidente eleito mais próximo da esquerda e das pautas feministas —inclusive, criticando abertamente o companheiro de chapa.

Em um debate presidencial, por exemplo, ele se esquivou em mostrar publicamente apoio ao aborto (direito que foi garantido no país recentemente), dizendo que pressionaria por programas de prevenção da gravidez que levariam o país ao "aborto zero".

No mesmo palco que seu aliado, Márquez o questionou: "Quantas mulheres terão que morrer, quantas mulheres terão que passar por essas situações dolorosas até chegar o 'aborto zero?"

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