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'Faria tudo de novo', diz PM atingida no crânio por bala de fuzil há 7 anos

Adriana da Silva Andrade, em foto feita na formatura como policial militar, foi atingida por uma quadrilha em fuga - Arquivo pessoal
Adriana da Silva Andrade, em foto feita na formatura como policial militar, foi atingida por uma quadrilha em fuga Imagem: Arquivo pessoal

Cléo Francisco

Colaboração para Universa, de São Paulo

12/06/2022 04h00

Após passar no concurso para entrar na Polícia Militar, em 2012, Adriana da Silva Andrade, então Soldado PM Adriana, iniciou sua vida profissional no quartel, em Sorocaba (SP), no ano seguinte. Ela já havia tentado entrar para a corporação duas vezes: em 2005 e em 2011. Passava em tudo, mas o nervoso e a ansiedade a sabotavam no exame psicológico. Na terceira tentativa concretizou o sonho.

Na madrugada de 26 de agosto de 2015, quando patrulhava a região da Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista, se deparou com uma quadrilha em fuga. O grupo havia acabado de estourar um caixa eletrônico no Ceagesp. Ao ouvir os tiros, ela deu ré na viatura; porém, uma das balas de fuzil 556 atingiu o lado esquerdo de sua cabeça, afetando a parte de fora e de dentro do crânio.

A jovem, então com 29 anos, viu sua vida mudar. Levada ao Hospital das Clínicas, a equipe correu para retirar os rastilhos metálicos, os fragmentos ósseos e reconstruir a área antes de interná-la na UTI e aguardar para saber que sequelas resultariam da ocorrência. Esse momento difícil foi relatado pela Cabo PM Adriana a Universa.

"Na primeira vez em que prestei concurso, era mais uma forma de ter renda e fazer faculdade. Porém, passei a gostar mais do trabalho da PM e foi assim que tentei outras vezes. Sabia o quanto esse profissional é essencial para o bom funcionamento do estado, da cidade. É um trabalho digno, honroso, no qual você pode ter que dar sua vida por alguém, sem nem conhecer a pessoa. É muito bonito e não valorizado pela sociedade. Eu fiquei bem emocionada no dia da minha formatura.

pm - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Adriana da Silva Andrade se deparou com uma quadrilha em fuga quando patrulhava a região da Vila Leopoldina, em SP
Imagem: Arquivo pessoal

A ocorrência aconteceu na madrugada de 26 de agosto de 2015, por volta de 2h30. Eu fazia o patrulhamento, era a motorista da viatura e me lembro bastante daquele dia, por incrível que pareça. Havia sido extremamente tranquilo até aquele momento, e a Vila Leopoldina costuma ser um local calmo.

Estava no setor que cuidava da área do Ceagesp. Houve uma ocorrência na Vila Anastácio e fomos apoiar a viatura que cuidava dela. Entrei na avenida Nações Unidas com as luzes do veículo acesas. Estava na pista do meio e, até então, estava tudo normal. Foi quando escutei o primeiro disparo. Teve o segundo e dava pra ver um 'foguinho' causado por ele.

Foi tudo muito rápido. Achei que era rixa entre bandidos. Não sabíamos que estava havendo um estouro no caixa eletrônico do Ceagesp. Não tínhamos onde nos abrigar. Também não dava tempo para sair do carro.

Fui escutando os tiros e meu parceiro gritou: 'Abaixa!'. Estava abaixada e dando ré ao mesmo tempo, quando o tiro me atingiu. Senti o impacto, parecia que tinha uma bomba explodindo dentro da cabeça e ficou tudo branco. Perdi a consciência e a viatura bateu num muro.

Foi o tempo do meu parceiro avisar que havia um policial baleado e outras viaturas chegaram. Acordei ainda dentro do carro e estava uma muvuca. Eles estavam decidindo como seria socorrida, minha cabeça estava encostada na porta. Vi o sangue pingando. Estava consciente, mas com um cansaço mortal.

Ergui a cabeça, olhei meu tórax para ver se tinha tomado um tiro ali. Não senti dor, mas tinha certeza de que tinha tomado um tiro. Tentei erguer o pescoço, senti um pouco de dor nessa região. Não tinha como pedir ajuda, não conseguia falar, estava mole. Encostei de novo a cabeça na porta. Me sentia sem forças.

'Só pensava que não queria morrer'

Fui retirada da viatura, levada para o Hospital das Clínicas, e só pensava que não queria morrer. Sabia da gravidade, que poderia não chegar a tempo ao hospital. Usei toda a energia para ficar acordada, não queria apagar de novo. Me estimulei ao máximo para me manter assim.

Chegamos rápido, mas foram os minutos mais intermináveis da minha vida. Na emergência do Hospital das Clínicas rasgaram minha roupa para tirá-la, me lembro de tirarem minha bota. Diziam que estava muito agitada e precisava ser sedada. Eu só queria ficar consciente o máximo de tempo possível.

Acordei na UTI, na mesma noite. Haviam me operado por algumas horas, um tempo considerável de cirurgia. Foi feita uma limpeza na região. Meu crânio quebrou e pedacinhos dele se misturaram com rastilhos metálicos do projétil que não foram possíveis de limpar. Se tirassem mais a sujeira, minha sequela poderia ser maior e eu corria risco de morrer.

A bala quebrou meu crânio na parte esquerda, provocando uma espécie de rasgão de cerca de três centímetros na minha cabeça. Mas não ficou alojada e foi feita uma reconstrução, que ficou muito boa. O cabelo cobre e ninguém percebe a cicatriz.

A princípio, disseram para minha mãe que eu poderia ficar cega, não reconhecer ninguém, vegetar. Contaram que não estava mexendo o lado direito. Fiquei com dificuldade para ler, compreender. Os primeiros cinco dias seriam críticos e definiriam se melhoraria ou iria a óbito.

Minha mãe e meu pai, emocionados, foram os primeiros que vi quando acordei. E os reconheci de imediato. Mas não conseguia falar nos primeiros momentos. Também estava muito sedada. Apaguei. Acordei várias vezes, lembro que sentia dor de cabeça, no peito, nas costas.

Percebi que não movimentava nada do lado direito, não sentia nada nesse braço. Perdi a visão periférica e via tudo um pouco embaçado. Disseram que ficaria no mínimo 15 dias na UTI, mas saí na metade desse tempo. No segundo dia de hospital, meu comandante foi me visitar e consegui sentar sozinha na cama. Ele não acreditou.

Recuperação

Com a fisioterapia, no final do período de UTI já mexia a perna, mas não sentia nada nela, apenas quente ou frio. A visão já tinha voltado ao normal. Falava, mas de forma muito lenta. Precisei fazer muita fonoterapia. Hoje, quando escrevo às vezes troco as sílabas. Mas percebo e consigo corrigir sozinha. Números de telefone, por exemplo, têm que ser falados de forma lenta. Mas é algo discreto, uma sequela leve pela gravidade do que aconteceu.

Com a fisioterapia, o braço direito ganhou força, mas não tenho coordenação motora nos dedos da mão. Precisei reaprender a abrir uma lata, varrer a casa, partir um pão, cozinhar. Escrevo com a esquerda, mas sem a habilidade que tinha com a outra mão.

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Adriana: 'Depois do tiro, me aposentei jovem, aos 30 anos, e almejo poder voltar a estudar'
Imagem: Arquivo pessoal

Na parte neurológica, fiquei com dislexia e discalculia leves. Minha memória está bem preservada. Hoje ando e falo de maneira aparentemente normal. Só quem é dessa área de saúde percebe.

No início, desejava continuar na ativa, mesmo que fosse em outro setor. Depois pensei melhor. Com as sequelas, não tinha condições. Não poderia estar na rua. A reforma foi feita de forma consciente, mas não satisfeita. Queria me recuperar por completo e voltar a trabalhar.

'Não me arrependo de ter entrado na Polícia Militar'

Não me arrependo em nenhum momento de ter entrado na PM. Lamento o tiro, mas faria tudo de novo. Bem antes de entrar na polícia, já tinha pressentimento que em algum momento da minha vida isso aconteceria e eu iria sobreviver. Cheguei a falar para algumas pessoas. Não queria atrair, mas eu sentia.

Como me aposentei jovem, aos 30 anos, pensei em cursar a faculdade de Direito, um sonho que alimentava desde os 14. Mas perdi meu pai no ano seguinte ao tiro e, 11 meses depois, meu irmão. Então, meu foco agora é me cuidar emocionalmente. Mas almejo, sim, voltar a estudar. Hoje, a psicologia é outra área que me interessa bastante também."

Adriana da Silva Andrade, policial militar aposentada

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