PUBLICIDADE

Topo

Atriz Heloísa Jorge mostra presídio sob olhar feminino na série 'Sentença'

A atriz Heloísa Jorge, que interpreta uma advogada na série "Sentença", da Amazon Prime Video - Masilakhe Khosa/ Divulgação
A atriz Heloísa Jorge, que interpreta uma advogada na série 'Sentença', da Amazon Prime Video Imagem: Masilakhe Khosa/ Divulgação

Fernanda Grilo

Colaboração para Universa, de São Paulo

30/05/2022 04h00

Advogada, ambiciosa e fashionista. Esse é o resumo de Moira, personagem interpretada por Heloísa Jorge na série "Sentença", disponível na Amazon Prime Video e que tem também Camila Morgado no elenco. Para a atriz de 37 anos, o papel com este perfil é uma vitória conquistada por causa da chegada dos streamings ao país: "Durante muito tempo, o folhetim não deu espaço para atrizes, e atores, como eu interpretarem uma princesa, mocinha ou vilã", explica Heloísa.

A atriz em cena da série "Sentença" - Divulgação - Divulgação
A atriz em cena da série "Sentença"
Imagem: Divulgação

A série criminal aborda um tema delicado e praticamente ignorado pela sociedade, que é o tratamento das mulheres dentro do sistema carcerário brasileiro, sejam as presidiárias ou as que convivem com homens que estão nas cadeias. A trama fica ainda mais realista com a equipe por trás das câmeras, já que "Sentença" foi criada por Paula Knudsen e dirigida por Marina Meliande e Anahí Berneri.

O projeto nos deu a chance de contar a realidade dos presídios a partir de uma perspectiva feminina que retrata questões como a educação dos filhos, conflitos familiares, conciliação entre carreira e maternidade e temas que fazem parte dessas vidas

Com cinco novelas no currículo, sendo quatro na Globo ("Gabriela", "Liberdade, Liberdade", "A Lei do Amor" e "A Dona do Pedaço") e uma em Angola ("Jikulumessu"), neste momento Heloísa está dedicada às gravações da série "Fim", baseada no livro homônimo de Fernanda Torres, que foi adiada por causa da chegada da pandemia de covid, em 2020.

Heloísa Jorge sobre diversidade no audiovisual: 'Os streamings ampliaram as possibilidades de trabalho para artistas com o meu perfil' - Masilakhe Khosa/ Divulgação - Masilakhe Khosa/ Divulgação
Heloísa Jorge sobre diversidade no audiovisual: 'Os streamings ampliaram as possibilidades de trabalho para artistas com o meu perfil'
Imagem: Masilakhe Khosa/ Divulgação

"Paramos as filmagens depois de 14 dias. Desde então, a série foi atravessada por tantos acontecimentos, que mudou até o meu olhar para a produção. A trama fala sobre finitude, passagem de tempo, e tudo isso está muito próximo dessa catástrofe que não acabou", relata. "Fim" é uma produção da Globo que deve estrear ainda esse ano, mas sem data definida pela emissora.

Para conseguir retomar os trabalhos iniciados antes da pandemia, a artista conta que adotou o que chama de "estratégia de sobrevivência": "A Heloísa que está fazendo a série é outra, então o olhar mudou e estou aberta a ter opiniões diferentes das que eu tinha lá atrás, o que impacta no trabalho".

Reencontro com as raízes angolanas

A atriz angolana radicada no Brasil desde os 12 anos tem visto sua carreira ganhar novos rumos, principalmente com as oportunidades no audiovisual. Ainda esse ano, estreia no Star+ a série "How To Be a Carioca", de Carlos Saldanha, em que ela revisitou suas raízes ao contracenar com dois atores angolanos, Licínio Januário e Lelis Twevekamba: "Cada episódio da série fala de um país, e trabalhar com eles foi um reencontro com a nossa cultura", diz.

Apesar dos laços ancestrais entre brasileiros e africanos, Heloisa tem consciência de que nosso país conhece muito pouco da cultura afro e que os angolanos sempre tiveram uma visão distorcida do que é vivido por aqui. Tanto que ela não reconheceu o Brasil das novelas quando veio morar no país nos anos 1990.

A cultura brasileira entrou nas nossas casas por meio dos folhetins. A gente parava tudo para assistir a novela das nove, e achava que a realidade era igual ao que retratavam com personagens brancos e bem-sucedidos. Ao chegar, percebi que era um país com muitas dificuldades.

Não iguais às que viveu em Angola, já que ela veio refugiada da guerra civil que ocorria por lá: "Para uma história como a minha, o processo de cura é diário", diz.

A atriz Heloísa Jorge tem cinco novelas no currículo, sendo quatro na Globo  - Marcia Otto - Marcia Otto
A atriz Heloísa Jorge tem cinco novelas no currículo, sendo quatro na Globo
Imagem: Marcia Otto

Ela ainda confessa que procura não ser lembrada apenas por essa parte de sua vida. "Luto para mostrar além da guerra. Esse pedaço da minha vida pode ser mais interessante por conta dos estereótipos e de um movimento que o mundo está passando, mas não quero ficar nessa caixinha em que sempre me colocam. Parece que o conflito e a dor definem quem eu sou e isso não é justo comigo porque de alguma forma rouba a minha humanidade e as possibilidades de existir. É uma luta diária", desabafa.

'É preciso ter acesso à política'

Ao relacionar passado, presente e futuro do Brasil, a atriz revela que tem sido difícil seguir em frente, manter a lucidez e diz que nunca viveu um momento tão tenebroso desde que chegou. "Cuido da minha sanidade mental, da minha bolha, dos meus, para que a gente consiga vislumbrar um futuro melhor. Agora o sentimento é de desesperança e isso vale para todos, está ruim para todo mundo."

Heloísa Jorge sobre diversidade no audiovisual: 'Os streamings ampliaram as possibilidades de trabalho para artistas com o meu perfil' - Masilakhe Khosa/ Divulgação - Masilakhe Khosa/ Divulgação
Heloísa Jorge
Imagem: Masilakhe Khosa/ Divulgação

Questões que envolvem a política nacional e a descrença da população em relação ao tema também estão inseridas no dia a dia de Heloísa. Ela relata que não há tempo para sentir e processar todas as tragédias atuais, e que acreditar que nestas eleições a sociedade vai votar de forma diferente.

"Eu sei como esse homem [Jair Bolsonaro] está no poder, vimos isso acontecer, mas acho que quem votou não tinha noção da realidade. As pessoas estão sendo acessadas, mesmo quem está em posição de privilégio. Por mais que a gente não acredite, não somos um país que incentiva olhar para a política, todo mundo acha chato porque foi ensinado assim. Esse é um projeto que deu certo e esses quatro anos mostram isso. Quanto mais a gente puder tornar as discussões políticas acessíveis, mais será feita a diferença, já que não temos mais para onde afundar", reflete.