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Cannabis ajudou minha filha; hoje distribuo legalmente para 3.000 famílias

Margarete Brito, idealizadora da ONG Apepi, autorizada a plantar e manipular a planta da maconha para produção de óleos medicinais: 2.000 frascos vendidos por mês - Zô Guimaraes/UOL
Margarete Brito, idealizadora da ONG Apepi, autorizada a plantar e manipular a planta da maconha para produção de óleos medicinais: 2.000 frascos vendidos por mês Imagem: Zô Guimaraes/UOL

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

29/05/2022 04h00

"Minha primeira filha, Sofia, nasceu com uma síndrome genética rara, chamada CDKL5 [que causa convulsões frequentes no início da infância].

Quando ela tinha uns 2 anos, eu e meu marido descobrimos, em um grupo de Facebook, que uma criança estava fazendo tratamento com um óleo de cannabis nos Estados Unidos e indo superbem. Isso foi em setembro de 2013.

Entrei em contato com essa família, conheci a empresa que fornecia cannabis para eles e ganhei uma amostra. Também aprendi como essa família administrava a medicação e fui fazendo igual, comentando com outras pessoas no Brasil, mostrando: 'Olha, gente, é uma luz no fim do túnel. Para quem tem epilepsia, tem dado certo'.

Já existiam documentários e alguns casos famosos fora do Brasil [de crianças tratadas com cannabis] e, aos poucos, a informação foi chegando para nós. Até que, em 2014, eu e outras famílias começamos a dar entrevista, aparecer na televisão, e o assunto passou a ser mais discutido por aqui. Foi quando criei a ONG Apepi (Associação de Apoio à Pesquisa e a Pacientes de Cannabis Medicinal).

"Fui a 1ª pessoa autorizada a plantar maconha no Brasil"

Nesse processo, fui a seminários, comecei a entender sobre política de drogas de um modo geral, conheci pessoas que plantavam para uso recreativo e me aprofundei nas técnicas de cultivo. Fui atrás de informações com farmacêuticos e aprendi tudo o que pude — até ganhar minha primeira planta, em 2016, e começar a plantar para a minha filha.

No mesmo ano, entrei com uma ação na Justiça do Rio de Janeiro e consegui a autorização para plantar maconha em casa para tratar minha filha. Com isso, me tornei a primeira pessoa do Brasil a poder plantar para fins medicinais.

Sei que sou uma pessoa muito privilegiada —branca, moradora da zona sul do Rio de Janeiro— e não vou ser presa por plantar maconha em casa, ainda mais com autorização da Justiça. Quando entrei com essa ação, queria criar precedentes, provar para todo mundo que, se a Justiça me deu aval, estou no caminho certo. E deu certo: depois, mais ou menos outras 400 pessoas conseguiram uma autorização semelhante.

"Comecei a ensinar outras famílias a plantarem"

Começamos a separar o que a Sofia precisava e doar o excedente para pessoas que nos procuravam pedindo ajuda. No mês seguinte, essas famílias voltavam a nos procurar, porque tinham usado, dado certo, e precisavam de mais, mas nem sempre eu tinha. Então comecei a ensiná-las a plantarem também.

Recebia as pessoas em casa, às vezes tarde da noite, para acolher, conversar, passar informações. Eram pais que tinham crianças com epilepsia, gente com esclerose múltipla, dores crônicas, idosos com Alzheimer. Tomou uma proporção tão grande que meu marido falou: 'Isso virou um trabalho'.

Arrumamos um espaço e começamos a nos organizar para criar a sede da Apepi. Ao mesmo tempo, fizemos uma parceria com a Fiocruz e com algumas universidades para ter um apoio científico. Tudo aconteceu muito rápido.

Em fevereiro deste ano, a Apepi conquistou autorização judicial para plantar, manipular, transportar, pesquisar e fornecer extrato de cannabis a seus associados

"Fornecemos 2.000 frascos de óleos de cannabis por mês"

Óleos produzidos a partir de substâncias encontradas na maconha: fazendo da planta fica no interior do RJ - Zô Guimaraes/UOL - Zô Guimaraes/UOL
Óleos produzidos a partir de substâncias encontradas na maconha: fazendo da planta fica no interior do RJ
Imagem: Zô Guimaraes/UOL

Atualmente fornecemos, por mês, 2.000 frascos de óleos de CDB, THC e mistos [cuja composição leva as duas substâncias]. Cada frasco de óleo que produzimos custa R$ 180 e a maioria deles dura um mês —mas tudo isso só sai com receita médica.

Para os óleos de CDB, que são mais ou menos 50% da nossa demanda, chegamos à capacidade máxima de produção e não conseguimos admitir novos pacientes pelos próximos meses.

Hoje, temos duas sedes: uma no centro do Rio de Janeiro, com 24 funcionários, onde fazemos o acolhimento das famílias, distribuímos os óleos e passamos informações; e outra em uma fazenda no interior do Estado, com 16 funcionários, onde produzimos tudo, desde a semente da planta até o frasquinho de óleo.

"Essa é minha bandeira: contratar cada vez mais mulheres"

Na nossa equipe, temos três farmacêuticos, cuja chefe é uma mulher. Há também uma engenheira agrônoma. No cultivo, a maioria são mulheres. Essa é uma bandeira minha: incluir cada vez mais mulheres nesse universo que ainda é muito machista.

Esse valor [de R$180 por frasco], além dos cursos que oferecemos e a mensalidade dos associados, é suficiente para remunerar as 40 pessoas, incluindo meu marido e eu. Alguns associados, que não conseguem pagar a mensalidade são isentos.

É muito trabalho. Também tenho duas filhas, a Bia, de 12 anos, e a Sofia, de 13, que depende de nós para tudo. O que me ajuda a não sentir esse peso todo sobre as costas é saber que eu tenho uma equipe muito comprometida, parceira e apaixonada pela causa. Sei que, se precisar, eles vão se mobilizar, fazer uma revolução. Nossos funcionários e essas 3.000 associadas famílias são a nossa fortaleza.

"Polícia já invadiu fazenda de cannabis"

Para mim, é muito importante dizer que a Apepi não é um negócio, mas uma ONG. Estamos no terceiro setor. E isso significa que estamos cobrindo um buraco que o estado deixou. São milhares de pessoas precisando de uma ajuda que o Estado não dá.

A grande luta, hoje, é por uma lei que permita o plantio da cannabis no Brasil.

Atualmente, dependemos de remédio que vem de fora do país, que é bem mais caro porque é pago em dólar, não gera emprego, renda e desenvolvimento aqui no país.

Só estaremos realmente protegidos e legalizados quando o STF [Supremo Tribunal Federal] bater o martelo a respeito desse tema.

De acordo com a letra fria da lei, tudo o que fazemos é ilegal. Temos autorização, mas sem nenhuma segurança, pois o Estado pode sempre recorrer e derrubar nossa autorização. A Anvisa recorre todas as vezes que ganhamos uma sentença.

Em 2019, tivemos nossa fazenda invadida por policiais, com cães farejadores. Eles apreenderam celulares de todo mundo. Sorte que não derrubaram as plantas.

Se prendessem os funcionários, a gente conseguiria soltar no dia seguinte; mas, se derrubassem as plantas, não teria o que fazer, seriam 3.000 pessoas sem remédio. É uma responsabilidade muito grande.

Margarete Brito tem 44 anos, é advogada, e vive no Rio de Janeiro.

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