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'Perdi a libido': mulheres relatam efeitos colaterais de antidepressivos

Mulheres enfrentam dificuldade em sentir prazer durante tratamento contra depressão - Getty Images
Mulheres enfrentam dificuldade em sentir prazer durante tratamento contra depressão Imagem: Getty Images

Júlia Flores

De Universa, em São Paulo

27/05/2022 04h00

Para uma mulher que "gosta de manter a libido alta", os efeitos colaterais causados pelos antidepressivos foram suficientes para a jovem Paula Rocha, de 26 anos, abandonar o tratamento com remédios. "Não abro mão do meu prazer por nada, mas nenhum médico conseguiu entender isso", diz a estudante em entrevista a Universa.

Paula conta que começou o tratamento em 2013; mas, na época, não sentiu efeitos colaterais. Em 2018, quando foi para a Espanha realizar um intercâmbio, interrompeu o uso da medicação. Ao voltar ao Brasil, em 2020, logo no começo da pandemia, retomou o procedimento.

"Passei, então, a não ter desejo sexual nenhum, nada, não sentia tesão em me tocar, não sentia prazer —e isso me incomodou muito", pontua. O efeito relatado por Paula, no entanto, não é exclusivo da jovem. Pelo contrário, o sintoma é comum entre pacientes que fazem uso de remédios antidepressivos e está descrito até nas bulas dos medicamentos.

Um relatório do Ministério da Saúde realizado em 2021 mostrou que, ao todo, 11,3% de brasileiros receberam diagnóstico de depressão —sendo a maioria do sexo feminino, com 14,7% do total.

Ao passo em que são as mulheres as mais afetadas pelos efeitos colaterais das medicações, elas ainda enfrentam certa resistência de conversar sobre o tema em público ou com o profissional médico. Ou pior —como foi o caso de Paula—, ainda correm o risco de serem ignoradas.

Minha médica sugeriu que eu lesse '50 tons de cinza'

"Eu tentei conversar com a minha psiquiatra, mas ela me ignorou", relembra Paula, que desde os 25 anos convive com o diagnóstico de ansiedade e depressão - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
"Eu tentei conversar com a minha psiquiatra, mas ela me ignorou", relembra Paula, que desde os 25 anos convive com o diagnóstico de ansiedade e depressão
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu tentei conversar com a minha psiquiatra, mas ela me ignorou", relembra Paula que, desde os 25 anos convive com o diagnóstico de ansiedade e depressão. "Ela me disse que esse era um problema que eu deveria conversar com o meu parceiro —super heteronormativa, né? Além disso, também sugeriu que eu lesse a trilogia do '50 tons de cinza'".

Foi depois dessa atitude que a estudante decidiu cortar o tratamento com remédios e seguir apenas com a terapia. Ao reportar sua queixa para a psicóloga, também não foi acolhida. "Nem minha terapeuta deu atenção para o tópico. Libido é algo muito importante para mim, me senti desrespeitada", cita.

Certos antidepressivos, em especial os da classe de recaptadores de serotonina, atingem o sistema de recompensa e modificam a liberação hormonal do cérebro. "Isso pode interferir no estado de alerta para a atividade sexual, para o desejo, para que a pessoa esteja mais disposta para o sexo", explica a médica Francisca Mauro, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria.

A especialista relata que mudança no comportamento sexual, diminuição de libido e do prazer durante o sexo estão entre os principais motivos para que pacientes abandonem os antidepressivos. "É muito importante entender que isto pode ser cuidado, tanto com a mudança do medicamento que está sendo prescrito de acordo com a avaliação de seu médico ou mesmo de estratégias de comportamento, tanto com terapia quanto com substâncias naturais que podem ajudar neste prejuízo com relação ao comportamento sexual", orienta.

'Parecia uma porta na hora do sexo'

Sabrina conta que o diálogo com o parceiro é importante quando a libido começa a ser afetada por tratamentos médicos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Sabrina conta que o diálogo com o parceiro é importante quando a libido começa a ser afetada por tratamentos médicos
Imagem: Arquivo Pessoal

Em 2019, a advogada Sabrina Michellin, então com 21 anos, também foi diagnosticada com depressão e ansiedade. Ela começou a tomar remédios na época, parou e retomou o tratamento em 2021. Essa segunda medicação afetou sua libido diretamente.

"Não sentia nada, parecia que eu não tinha nem sentimentos; nem o anticoncepcional mexeu tanto comigo", relembra. Ela decidiu levar a queixa da queda da libido ao ginecologista. "Parece que os médicos psiquiatras não são muito atenciosos, só estão interessados em passar a receita e pronto. Conversei com meu ginecologista e ele disse que não havia solução, que eu deveria focar no meu problema, enfrentar a depressão e, então, reconquistar minha libido."

Foi o que fez Sabrina: deu prioridade ao tratamento. Deixou "em segundo plano" a vida sexual. "Ficar sem tesão foi muito difícil pra mim. Costumava sentir mais desejo do que os meus parceiros, foi horrível. Quando estava transando com meu namorado, parecia uma porta —isso afetou bastante nosso relacionamento."

Para contornar a situação, Sabrina recomenda o diálogo. "Você e seu parceiro precisam ser muitos honestos um com o outro. Não acho que fingir tesão pra agradá-lo seja uma boa opção. É preciso ter compreensão", recomenda.

Hoje Sabrina recebeu alta de seu tratamento.

Importante é não se culpar

A sexóloga Gabi Benvenutti ressalta que a sexualidade é um aspecto fundamental da vida humana e não merece ser ignorada. Porém, ela destaca também a importância de cuidar da saúde mental. "Não negar a doença é o primeiro passo para recuperar a libido", aponta a profissional.

"É importante que a mulher não se culpe, afinal de contas a culpa não é dela", destaca Gabi. Como alternativa, ela sugere a "desautomatização do prazer". "Eu recomendo que as pessoas, mesmo com depressão, tentem investigar os próprios sentidos, sair do automático, ver um filme com cenas picantes, se estimular sozinha. É preciso tirar o tesão do automático."

Gabi finaliza a entrevista com uma provocação. "Ninguém fala sobre os anticoncepcionais femininos e a gente tem uma epidemia de mulheres que estão sentindo a libido diminuir. A queda na libido causada pelo antidepressivo afeta também os homens, por isso acredito que haja maior preocupação em sanar o problema."