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Mulheres inspiradoras

Após os 30, elas realizaram sonho de intercâmbio: 'Idade muda experiência'

A paulistana Beatriz foi estudar inglês na Irlanda aos 34 anos - arquivo pessoal
A paulistana Beatriz foi estudar inglês na Irlanda aos 34 anos Imagem: arquivo pessoal

Ana Carolina Pinheiro

Colaboração para Universa, de Nova York

25/05/2022 04h00

Ao imaginar uma turma prestes a realizar o seu primeiro intercâmbio, a tendência é pensar em adolescentes e jovens no início da fase adulta. De fato, esse grupo ainda é maioria nas escolas ao redor do mundo, mas eles não estão sozinhos. Cada vez mais, adultos com mais de 30 anos pausam a rotina no trabalho e se distanciam da família e de outras responsabilidades pessoais para vivenciar o novo, aquele friozinho na barriga que só o desconhecido proporciona. "A maturidade, tanto pessoal como profissional, faz com que a gente encare a experiência com outra cabeça. Independente da idade, o saldo é positivo", garante a paulistana Beatriz Simpólio que foi estudar inglês na Irlanda aos 34 anos. O sonho já era antigo, mas ela só conseguiu pôr em prática depois dos 30. "O preconceito existe! Cheguei a ouvir que estava muito velha para fazer um intercâmbio, mas não tinha condições financeiras antes, a oportunidade não é a mesma para todos."

Em comum, os intercambistas 30+ partilham de um foco que costuma ser resultado de um sonho adiado, tempo apertado para viajar e pressa para alcançar desenvolvimento pessoal e profissional. Para Universa, três mulheres com mais de 30 anos compartilharam o processo para decidir fazer intercâmbio nessa fase da vida, os dilemas que enfrentaram, como a insatisfação profissional, a solidão e a chegada da maternidade, além das descobertas que tiveram ao redor do mundo.

"Se tivesse vindo mais nova não teria estudado tanto"

 mineira Laura Viana, 34 anos, chegou no seu primeiro dia de aula de inglês em Nova York, ela tinha certeza de que seria a mais experiente da turma - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Laura, 34 anos, acho que seria a 'tia da turma' mas logo no primeiro dia de aula encontrou uma senhora de 70 anos na turma
Imagem: arquivo pessoal

Quando a mineira Laura Viana, 34 anos, chegou no seu primeiro dia de aula de inglês em Nova York, ela tinha certeza de que seria a mais experiente da turma. "Vou ser a tia do pessoal", lembra aos risos. No entanto, a primeira conversa aconteceu com uma estudante da Escandinávia, que tinha o dobro da sua idade.

"Ela me contou que estava aqui para conhecer pessoas e melhorar o vocabulário. Na hora pensei: 'Caramba, é isso que quero!'. O intercâmbio aumentou o meu repertório. Cada pessoa que conheci me acrescentou uma nova visão de mundo, hábitos e realidades diferentes da minha", conta a engenheira, que aproveitou três semanas de férias para estudar in loco.

"Meu objetivo não era sair do intercâmbio falando inglês fluente, mas sim conseguir me livrar dessa trava que tinha com o idioma e poder dar novos passos na minha carreira", afirma Laura, que chegou a ouvir comentários, como "mas você é velha demais para fazer isso."

O tempo para ela era um peso, já que o curso foi adiado por dois anos por conta da pandemia. A pressa está ligada ao desejo pela chegada da maternidade em sua vida. "Tenho uma lista com as minhas metas. Não queria deixar sem ticar essa realização do intercâmbio, mas por outro lado meu objetivo é tentar engravidar no próximo ano. Se a viagem não desse certo agora, provavelmente esse sonho teria ficado para trás", reflete a mineira.

O jeito que ela encontrou de otimizar o tempo foi separar a parte da manhã para os estudos e a tarde para o turismo, principalmente na segunda semana, quando teve a companhia do marido.

Para ela, esse equilíbrio e foco são fruto da sua maturidade. "Aos 19 anos, por exemplo, nem sonhava com essa oportunidade. Provavelmente, vindo mais nova, teria encarado como um momento de diversão e não de estudo e seria mais dependente. Hoje, me permito arriscar mais", aponta a engenheira.

"Romantizei o processo"

Bea, que sentiu mais segurança quando descobriu a opção de fazer um intercâmbio para a Irlanda em uma turma 30+. - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Bea se sentiu mais segurança quando descobriu a opção de fazer um intercâmbio em uma turma 30+.
Imagem: arquivo pessoal


Assistir a filmes e séries apenas com a legenda em português era comum para Beatriz Simpólio, 36 anos, desde sua infância. Seus pais sempre a estimularam a consumir obras do audiovisual dessa forma. "O meu interesse pelo idioma inglês nasceu dessa forma. Aos 18 anos, entrei em uma escola de idioma e a vontade de fazer intercâmbio só aumentou", lembra a paulistana, que dedicou os anos seguintes para cursar administração e direito.

A entrada no mercado de trabalhou adiou os planos, até que com 34 anos a insatisfação profissional falou mais alto. "Queria buscar algo a mais na minha carreira e cortar o cordão umbilical dos meus pais, porque sempre fomos muito ligados", revela Bea, que sentiu mais segurança quando descobriu a opção de fazer um intercâmbio para a Irlanda em uma turma 30+. Martelo batido, o sonho por liberdade, crescimento pessoal e quem sabe encontrar o "amor da vida" tomou conta dela até o embarque, em novembro de 2019.

A realidade foi bem diferente de qualquer plano idealizado pela administradora. Dois meses após colocar os pés na Europa, a pandemia aterrissou com força, afastando qualquer possibilidade de convívio profissional, acadêmico e social.

"Acabei romantizando demais. Quando cheguei, a primeira semana foi só de choro. Os irlandeses costumam ser mais fechados, os brasileiros que conheci não me ajudaram tanto e passei por episódios de racismo em lugares que morei", afirma a paulistana.

A saída para lidar com o duplo isolamento e a insatisfação com os trabalhos braçais foi a terapia. "Foi difícil lidar com essa realidade depois de ter feito duas faculdades, mas com a flexibilização consegui criar algumas amizades, passei a ter aulas presenciais e pude viajar para outros países durante esses dois anos", diz Bea.

Hoje, seis meses após retornar ao Brasil, a administradora ficou com um gostinho de querer voar por novos ares ainda mais. "Nós nunca voltamos a mesma pessoa, e quem fica no país também passa por mudanças. Então, precisei de um tempo para entender essa nova convivência com a minha família e amigos. Além disso, tem a questão da segurança e do momento político que vivemos. Por mais que tenha nascido aqui, causa estranhamento esse reencontro com a violência urbana e a economia destruída", reflete Bea, cogitando uma possível volta para a Irlanda, mesmo com os perrengues enfrentados.

"Na juventude, isso era financeiramente distante da minha realidade"

Foi preciso um aviso do RH do banco no qual trabalha para Fabiana Costa encontrar um tempo para os seus desejos em meio a tantas demandas profissionai - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Foi preciso um aviso do RH do banco no qual trabalha para Fabiana Costa encontrar um tempo para os seus desejos em meio a tantas demandas profissionai
Imagem: arquivo pessoal

Foi preciso um aviso do RH do banco no qual trabalha para Fabiana Costa, 36 anos, encontrar um tempo para os seus desejos em meio a tantas demandas profissionais. "Quando recebi o aviso que precisava tirar férias, tentei bater com a agenda do meu marido, mas não deu certo", lembra a economista.

Passar um tempo de descanso em casa, então? Jamais. Após uma ideia do próprio parceiro, Fabiana resolveu tirar do papel a vontade de fazer intercâmbio e ter um tempo na sua própria. "Além de sempre gostar de estudar, a proposta do grupo 30+ foi a cereja do bolo", afirma a paulistana, que escolheu um destino que já havia passado férias em 2017: Londres.

A cidade acolheu esse sonho de aprofundar o aprendizado de outro idioma, desejo postergado quando era mais jovem por questões financeiras. "Na juventude, isso era distante da minha realidade. Trabalho e faculdade tiveram que passar na frente, só que agora estou mais estabilizada e posso me dar esse direito", revela a gerente, que passou o mês de agosto de 2019 na terra da rainha Elizabeth.

Associar network com imersão cultural foi a grande sacada dessa experiência na visão da Fabiana, que se identificou com seus colegas de classes no quesito fase profissional. "Fazer intercâmbio mais velha é mais difícil, porque você precisa se desligar de tudo para viver intensamente", afirma a economista, que ganhou a companhia do marido de surpresa durante quatro dias. "Ele me incentivou demais. Não tenho filhos, mas acredito que, mesmo se tivéssemos um, essa experiência teria acontecido do mesmo jeito", reflete sobre a parceria do casal.

Agora, Fabiana se prepara para embarcar novamente em um avião rumo ao conhecimento, do idioma e também pessoal. "Perdi meu pai em dezembro e meu irmão em janeiro. Isso me abalou muito e me fez sentir que precisava desse tempo comigo mesma, acalmar esse lado workaholic e respirar esse insistindo de liberdade e de redescoberta", considera a paulistana, que voará para o Canadá em agosto desde ano.

Experiências mais complexas para agradar público mais velho

O mercado demorou um pouco para entender a potência desse público-alvo, mas agora já entende as nuances em torno desses estudantes. A própria comunicação das agências que organizam esse tipo de experiência reforça essa ideia com rostos juvenis estampando catálogos e conteúdos nas redes sociais.

Para Debora Eguti, sócia da agência de intercâmbio Experimento, o principal passo para conquistar de vez esse grupo foi a criação de núcleos 30+, que podem ser salas de aulas ou até escolas exclusivas para eles. "Além disso, algumas instituições trabalham com grupos sazonais para intercambistas 50+. Após as aulas, eles podem participar de experiências gastronômicas e culturais, como degustação de queijos e vinhos e visitas a pontos históricos da cidade escolhida", explica a especialista.

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