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'Nu com peito caído é que seria revolução na TV', diz Bruaca de 'Pantanal'

Isabel Teixeira vive Maria Bruaca, em "Pantanal": "As pessoas julgam dizendo que a personagem está fora de contexto, mas há muitas como ela por aí" Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

22/05/2022 04h00

Isabel Teixeira, 48, estreou em novelas há menos de três anos, em "Amor de Mãe", da Globo, mas sua trajetória como atriz é bem mais longa do que isso: tem mais de 30 anos. O tempo de estrada explica a confiança que sentiu ao ser convidada para interpretar Maria Bruaca, em "Pantanal", cuja primeira versão assistiu na TV quando tinha 15 anos.

"A Maria Bruaca é um personagem clássico. A gente pode pensar: 'Ela não existe mais, está fora de contexto'. Mas isso não é verdade. Ainda existem muitas Marias Bruacas por aí. Arrisco dizer que é mais atual agora do que em 1990", diz, em entrevista a Universa feita por ligação de vídeo direto do Pantanal, onde gravava as últimas cenas da novela —e com Osmar Prado, o Velho do Rio, aparecendo ao fundo.

Com pouco mais de um mês no ar, a Maria Bruaca de Isabel é muito amada pelo público e tem uma torcida enorme nas redes sociais. Muita gente torce para que ela se separe do marido, Tenório (Murilo Benício), que é machista e violento com ela, e engate um caso com o peão Alcides (Juliano Cazarré), em quem ela deu um beijo no capítulo de sexta-feira (20).

No Twitter, há quem se apresente como "maria bruaquer" e apelide a personagem carinhosamente de "Mary Bru":

Mas essa torcida, acredita Isabel, é ilusória: "Ela não vai virar uma femme fatale. As pessoas imaginam o quê? Que ela vai operar o peito que caiu, fazer uma harmonização facial e botar para quebrar? Isso não vai acontecer. Essa mulher não sabe seduzir da forma que estamos acostumados a ver na TV. A sexualidade dela é outra, menos estética".

Na entrevista abaixo, a atriz ainda analisa sua personagem de maneira profunda, desde sua sexualidade até a relação com a filha feminista e imagina quais músicas ela ouviria se o marido permitisse. A aposta é "Presepada", de Marília Mendonça com Maiara e Maraisa.

Isabel também fala sobre sua autoestima fora da personagem, de como se sente "mais invisível, mas mais gostosa" chegando perto dos 50 anos e de como gostaria de ver uma mulher de 70 com "seios caídos" protagonizando uma cena de nudez em "Pantanal": "Isso sim seria revolucionário".

Leia trechos da conversa.

"A gente julga, mas ainda existem muitas Marias Bruacas por aí"

"A Maria Bruaca é um personagem clássico que me marcou muito na primeira versão, feita pela Ângela Leal. Assisti aos 15 anos. Quando soube que ia fazer a personagem, foi um mix de sensações, mas senti, principalmente, uma honra enorme e muita confiança. Pensei: 'Estou pronta para fazer isso' —mas uma confiança de estrada, de experiência, não de ego.

Podemos pensar: 'Essa personagem não existe mais, está fora de contexto'. Mas isso não é verdade. Ainda existem muitas Marias Bruacas por aí.

A gente julga, dizendo que essa é uma mulher 'que deixa o marido fazer isso ou aquilo porque é tonta', mas não é tão simples assim. Cheguei à conclusão de que ela é uma mulher que acreditou e ainda acredita em uma história de amor.

O Tenório era um homem que trabalhava para o pai da Bruaca e eles se apaixonaram muito jovens. Essa paixão faz com que ela pule a janela da casa dos pais, fuja e se case com ele em uma delegacia. Havia um sentimento mútuo, mas, com o tempo, ela passa por cima das próprias vontades, fazendo concessões por uma paixão que moveu ela há 30 anos.

Em maior ou menor grau, quantas vezes você, eu ou uma amiga esquecemos de perguntar: 'Isso é bom para mim?'. Ou pensamos: 'Ele é assim mesmo', ou 'estou acostumada'. A Maria fala isso o tempo todo para si.

Às vezes me perguntam qual é a virada de chave para a Maria, mas ela não tem uma virada de chave, ela tem um processo que vai até o final da novela.

É muito fácil pensar que a Maria vai virar a chave e começar a odiar o Tenório porque ele é um bosta, mas não. Tem amor ali, ela sofre por ele. Existe um processo de cura, de transformação, que ela vai viver tentando se erguer depois da queda —a descoberta que o marido com quem é casada há 30 anos tem outra família".

Maria Bruaca no momento em que descobre que o marido, Tenório (Murilo Benício), tem outra família Imagem: Globo/João Miguel Júnior

"Sou adepta de um feminismo menos impositivo"

"A relação com a Guta [filha de Bruaca, interpretada por Julia Dalavia] é a mais complexa para mim. São duas mulheres diferentes, gerações diferentes. Isso é deslumbrante, mas complexo. Existe uma reação imediata do público de tomar partido, de entender que a filha moderna veio para 'salvar' a mãe, mas essa é uma visão limitada da história.

A Guta chega na vida da Maria com um panfleto na mão, como se dissesse: 'A vida tem que ser assim. Isso pode, isso não pode". Sou adepta a uma linha de raciocínio feminista em que as coisas são menos impositivas.

É muito fácil chegar e falar: 'Chega, você não pode viver assim. Se separa do meu pai, ele te faz mal'. Mas são 30 anos respirando o mesmo ar, comendo a mesma comida. Isso cria teias muito difíceis de desfazer."

"Se ela comprasse um CD das Patroas, ia gritar as letras"

"A Maria fica o dia inteiro dentro de uma fazenda que não pega televisão, não tem rede social, a única referência dela é o marido. Se ela fosse na igreja de uma cidade próxima para assistir ao Auto de Natal, ou se chegasse um circo na cidade e ela fosse assistir, ou pelo menos ouvisse uma música —porque o Tenório não deixa nem ela fazer isso— ela teria outras referências.

Ou ainda, sendo bem atual, se ela comprasse o CD das Patroas, da Marília Mendonça com a Maiara e Maraisa, ia ter vontade de gritar: 'É hora de parar com a presepada/ Respeita a sua namorada' [trecho da música 'Presepada']. Mas não, ela simplesmente não tem referências."

Nada de femme fatale: "A sexualidade dela é outra"

Maria (Isabel Teixeira) tenta seduzir o marido, Tenório (Murilo Benício) Imagem: Reprodução/Globoplay

As pessoas imaginam o quê? Que ela vai virar uma femme fatale? Operar o peito que caiu, emagrecer ou fazer uma harmonização e botar pra quebrar? Isso não vai acontecer.

"Essa mulher não sabe seduzir dessa forma que estamos acostumados a ver na TV. Eu não posso fazer uma cena linda de sedução e daqui a três meses ser convidada para posar na Playboy. Eu não sou isso, a Maria não é isso.

Essa sexualidade dela é menos estética porque não tem como ela mudar esse visual no meio do Pantanal. Você acha que ela vai fazer compras no shopping de Campo Grande? Colocar cílios postiços? Ela vai usar um batonzinho no máximo. A sexualidade dela é outra."

"Posso ficar nua, com o peito caído, na TV?"

"Na primeira versão da novela, tinha uma coisa muito doida que era o nu. Aquelas mulheres lindas, sem nenhuma roupa, com uma liberdade que ainda não acontecia na televisão.

Só que as pessoas ficavam tão doidas com aquelas mulheres jovens, naquelas paisagens, que a questão que a Ângela [Leal, atriz que interpretou a primeira Bruaca] trouxe sobre a sexualidade da Maria ficou meio esquecida, a gente não prestava muita atenção naquilo.

O nu ofuscava parte da história, porque era uma coisa 'uau'. Hoje tem menos nudez, não porque é uma questão moral, mas uma escolha artística.

E tem outra questão, também: vou poder mostrar o meu nu, com peito caído, no horário nobre? Isso sim seria revolucionário. Por que se diz que é feio o que é caído? É isso o que vai acontecer com todas nós.

No teatro, já ouvi: 'Você é melhor não ficar pelada'. Enquanto eu olhava para a pessoa pelada ao meu lado com um corpo totalmente dentro do padrão estético. Meu corpo incomoda tanto assim?"

Imagina um peito de uma mulher mais velha, de uns 70 anos, que nunca mexeu, fazendo uma cena de nudez naquele rio do Pantanal, no horário nobre. Isso sim seria revolucionário. Mas acho que as pessoas não estão preparadas para isso, não.

"A beleza da juventude é mais fácil de aceitar"

"A gente não está preparado para ver as belezas envelhecerem. A beleza da juventude é muito fácil de aceitar; a beleza mais velha, mais vivida, não. A gente fica invisível —e falo isso por mim. A partir dos 43, mais ou menos, fui ficando invisível. Mas não estou reclamando, porque estou adorando, ficando mais gostosa.

"Nunca me assisti fazendo teatro, e me ver fazendo novela tem sido um exercício bom. No começo foi difícil, porque a gente sempre se imagina diferente. Pensei: 'Eu sou assim? Ih, gente, envelheci'. Senti esse choque."

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